Em A Ferida Aberta, o autor é claro ao afirmar que não basta tratar apenas o vírus: a doença não existe apartada da fome, do racismo, da pobreza, da violência, do estigma e da ausência do Estado

Antes de ser escritor, Heber Neiva (Vavá), ex-prefeito de Caraí, é médico. Infectologista por formação e vocação, construiu uma trajetória profissional marcada pelo atendimento direto a pessoas vivendo com HIV, sobretudo nos Vales do Jequitinhonha e do Mucuri, regiões historicamente afetadas pela desigualdade social, seja pela precariedade das políticas públicas, seja pela persistência de vulnerabilidades estruturais que se reproduzem ao longo das gerações.
Diante das inúmeras experiências no atendimento a pacientes e movido pela sensibilidade que lhe é peculiar, o médico – agora também autor – deu forma ao livro A Ferida Aberta. Lançada no final de 2025, a obra surpreendeu pelo registro rico e delicado. As narrativas que compõem o livro têm origem em histórias reais, construídas a partir da escuta clínica e da convivência profissional, com as identidades dos pacientes integralmente preservadas por meio do uso de nomes fictícios. Ainda que o livro se sustente em uma escuta ética e cuidadosa, ele também se move em um terreno delicado, no qual a transposição da experiência clínica para a narrativa literária exige permanente vigilância ética.
A realidade da desigualdade regional emerge de forma contundente no livro através do registro da personagem Damiana, quando o autor observa que ela “(…) nasceu no final de um século de promessas quebradas. Enquanto, nos grandes centros, a ciência transformava o HIV de sentença de morte em condição crônica para quem tinha acesso, o nascimento dela, num município pequeno do Vale do Mucuri, encarnava o grande paradoxo do milênio: o conhecimento que salva e a desigualdade que mata”. A passagem sintetiza uma das denúncias centrais do livro: embora os avanços científicos tenham reduzido significativamente o impacto letal da aids, sobretudo nas duas últimas décadas do século XX, seus benefícios não alcançaram de forma plena os Vales do Jequitinhonha e do Mucuri.
Ao longo de anos de escuta clínica, o autor não se restringiu ao rigor técnico dos prontuários. O ex-presidente do Consórcio Intermunicipal de Saúde dos Vales do Mucuri, Jequitinhonha, colecionou histórias de mulheres e homens que aparecem no livro como personagens, cujas trajetórias revelam tanto resistência quanto perdas, violências e silenciamentos. Heber Neiva diagnosticou doenças, conhecendo as pessoas, experiências que marcaram de modo decisivo sua prática profissional e ampliaram sua compreensão do mundo, deslocando o exercício da medicina para além da clínica estrita.
Ainda na graduação, o contato com o conceito de sindemia foi determinante para a formação de seu olhar, representando um profundo deslocamento ético e epistemológico. Em A Ferida Aberta, o autor é claro ao afirmar que não basta tratar apenas o vírus: a doença não existe apartada da fome, do racismo, da pobreza, da violência, do estigma e da ausência do Estado. Essa compreensão aparece de forma contundente quando afirma: “Os patógenos biológicos são apenas relâmpagos visíveis; por trás deles move-se uma nuvem antiga e densa de violência social, carregada por séculos de desamparo, que avança lentamente sobre os territórios mais vulneráveis e despeja sua carga tóxica sobre quem menos tem defesas para se proteger”. A metáfora sintetiza o núcleo conceitual da obra, ao evidenciar a doença como expressão visível de estruturas invisíveis de desigualdade.
Esse entendimento marca todo o livro, que nasce do encontro entre medicina e humanidade, entre ciência e escuta. As pessoas atendidas ao longo da carreira, muitas delas soropositivas, deixam de ser números estatísticos ou casos clínicos e passam a ocupar o lugar de personagens, sem perda de dignidade ou complexidade. São relatos que revelam força e resiliência, mas também preconceito, violações, abandono institucional e exclusão social. Ao mesmo tempo em que devolve humanidade às personagens, a obra enfrenta o desafio de narrar o sofrimento sem reduzi-lo a exemplaridade moral ou pedagógica, risco recorrente em narrativas baseadas na dor social.
Ambientadas nos Vales do Jequitinhonha e do Mucuri, as narrativas dialogam com um contexto em que a desigualdade não funciona como pano de fundo, mas como elemento constitutivo da experiência de adoecer. A infecção pelo HIV surge imbricada a trajetórias de exclusão, vínculos precários de trabalho, migração forçada e violência simbólica e material. A ferida, como sugere o título, é biológica, mas sobretudo é social, histórica e política.
Ao propor um enfrentamento coletivo, a obra também suscita uma questão inevitável: até que ponto a literatura, por si só, pode incidir sobre estruturas sociais tão profundamente arraigadas, dilema recorrente em toda produção cultural comprometida com a crítica social. Ao recorrer a referências históricas, como o episódio envolvendo Dom Pedro I e a chamada “autópsia tardia”, o autor evidencia que a desigualdade no Brasil não é circunstancial, mas resultado de processos históricos de concentração de poder, privilégios e invisibilizações, cujos efeitos se inscrevem diretamente nos corpos. Trata-se, como alerta o autor, de um projeto em curso, cujas consequências seguem definindo as formas de adoecer e morrer no país.
A Ferida Aberta é, portanto, um livro que incomoda porque revela, sensibiliza porque escuta e provoca porque não se limita a narrar. Ao articular medicina, história e crítica social, Heber Neiva reafirma que cuidar da saúde é, necessariamente, cuidar das condições de vida. A obra nos lembra que, enquanto as estruturas permanecerem desiguais, as feridas continuarão abertas: tratá-las pode exigir remédios, mas fechá-las requer, sobretudo, justiça social, políticas públicas efetivas e o reconhecimento pleno da dignidade humana.
Os recursos obtidos com a venda do livro são integralmente destinados a entidades dos Vales do Mucuri e Jequitinhonha que prestam apoio e assistência a pessoas soropositivas.
* Mauro Sílvio é doutorando em Bens Culturais e Projetos Sociais – Fundação Getúlio Vargas.
Fonte: https://diplomatique.org.br






