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Cozinha como absolvição

Pesquisa realizada pelo “Data Gisele”, uma espécie de Quaest do meu mundinho particular, confirmou o óbvio: nesse minifúndio, quando o assunto é interesse popular, comida e receitas dão um banho em qualquer outro tema. Afinal, por aqui ninguém resiste a um bom prato, seja na mesa, na telinha do celular ou naquele notebook que deveria ser (ou não) só para uso no home office.

Se você faz parte dessa minha meia dúzia de fiéis e leais seguidores, sabe que nos últimos tempos fiz pouco caso da vontade popular e fui atrás de assuntos aleatórios. Sim, vocês estão certos: mereço ser punida. Porque se em Conceição do Pará “a voz do povo é a voz de Deus”, eu, pelo visto, andei desafiando a divindade da maioria.
Não sei se vale como castigo, mas me autosentenciei. Para me penitenciar vou resgatar receitas antigas de pratos que só de lembrar já me deixam com água na boca.

Um deles é o frango frito da Vovó Cocota.

Sei que você está aí, com um sorrisinho no canto da boca, falando para os seus botões:

— Que bobagem! Quem precisa de receita de frango frito? Esse prato todo mundo sabe fazer.

Ilusão sua. Esse não era um frango frito qualquer. Caipira, ia para a panela inteiro, temperado de véspera. Era feito aos poucos, por imersão, em fogo brando no fogão a lenha. Os entendidos dirão que era confitado, mas, para nós, reles mortais, era cozido lentamente na gordura de porco até se transformar em fritura, revirado de tempos em tempos, com a maestria das mestras da cozinha ancestral, para dourar por igual. Só então ia para a mesa.

Para acompanhar, arroz branco, feijão feito devagar na última trempe, angu e verdura colhida na horta. Couve e quiabo eram de lei.
Tinha também o lombo assado recheado, prato exibido com pompa nos almoços festivos da família. A peça nobre ia inteira para a mesa da cozinha. Lá era aberta como uma manta, temperada com alho, sal, pimenta-do-reino e laranja capeta. No recheio iam bacon, cebola, cenoura, azeitonas fatiadas e queijo. Só então era enrolada, para depois ser amarrada com barbante. Feito isso, ia para a panela, aquela mesma que inspirou a música: a tal panela velha que faz comida boa. E, como no caso do frango, era cozida e depois frita aos poucos em gordura de porco. Na hora de ir para a mesa, ganhava uma caminha de alface colhido na horta, tomates e mais azeitonas, que entravam como ornamento. E, para completar, tutu de feijão e farofa.

Se depois disso ainda não fui perdoada, que tal uma sobremesa do tempo da delicadeza? Uma, não; quatro.

A primeira, docinho de abacaxi com coco, hoje funciona como um trampolim, um salto direto para os domingos preguiçosos que, em ocasiões especiais, aconteciam debaixo das mangueiras centenárias. A receita era singela: leite da vaca recém-ordenhada pelo Vovô Nenen, açúcar, abacaxi picado e coco ralado. Tudo fervia lentamente em um tacho de cobre até dar ponto. Não pense que acabou: depois de retirar do fogo ainda era preciso usar o braço, pois o doce tinha que ser batido repetidas vezes até estar pronto para ser cortado em pequenos losangos sobre o mármore.
Tinha também uma versão cremosa. Nesse caso o doce era enriquecido com pedacinhos de abacaxi. O Vovô comeu em suas viagens de trem e pediu a vovó pra fazer. Só deu certo depois da terceira tentativa. Detalhe importante: os pedacinhos de abacaxi eram colocados na hora de tirar do fogo. E assim ficavam inteiros.
Essa era uma das sobremesas preferidas do meu avô. Ele sempre pedia:

– Cocota, faz aquele docinho pra nós.

E para nossa felicidade, Vovó nunca dizia “não” ao marido que adorava gulodices.

Tinha também uma sobremesa que era a cara da Vovó: o manjar branco com calda de ameixas. Já falei dele por aqui. No último fim de semana até me atrevi a fazer uma releitura desse clássico da família: preparei um manjar de arroz basmati coberto com calda de laranja. A base foi a mesma do doce ancestral. Só acrescentei o arroz e mudei a calda original. Ficou ruim? Não. Mas vou voltar para a receita do tempo da delicadeza.

Além desses, outros doces ganharam espaço na memória afetiva da nossa família. Alguns, mais pelo inusitado. Ou você vai me dizer que na sua casa o doce de jiló em calda é comum? Lembrando que se hoje o fruto (ou seria legume?) está gourmetizado, naqueles tempos era considerado persona non grata nos pratos dos netos. Nem a calda doce, perfumada de cravo e canela, conseguia torná-lo atraente. Diferente da maioria, eu gostava daquele doce estranho. Depois de colhido, lavado e descascado, Vovó o cozinhava lentamente em uma calda feita de açúcar, água, cravo, canela e uma casquinha de limão. E como era dada às invencionices culinárias, não ficou só no jiló. Sem medo das críticas, atreveu-se também a fazer doce de tomate. Não por acaso, ficou só na primeira experimentação. E nem precisa perguntar o porquê, né?

E assim, entre frangos caipiras, lombos recheados e doces prováveis e improváveis, cumpro minha pena com gosto. Se a voz do povo é a voz de Deus, que Ele me absolva com uma boa garfada. Porque, no fim das contas, resistir às receitas da nossa família grande e barulhenta é que seria o verdadeiro pecado.

Gisele Bicalho é jornalista e escritora.
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