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Pedacinhos do Natal

Imagem – Pixabay

Conta a lenda que há mais de dois mil anos, para saudar o nascimento do Salvador, cada árvore ofereceu frutos e flores ao Menino Jesus. O pinheiro, sem nada bonito para dar, ofereceu apenas sua existência. Deus se encantou com sua humildade e o cobriu de estrelas. Assim nasceu a tradição da árvore iluminada.

Na nossa casa, seguindo a tradição, há muitas luzes. Os enfeites são lindezas herdadas da Mamãe. Pequenos pedaços de saudade pendurados nos galhos. Outros vieram na mala, recortes de uma viagem inesquecível. Impossível esquecer a Feira de Natal de Salzburgo. A Áustria inteira parece um presépio. Não resisti aos enfeites de madeira pintados à mão. Trouxe alguns comigo. Hoje, a cada Natal, saem da caixa para dar vida à árvore e resgatar lembranças.

Lulu, em Brasília, prefere sua árvore com galhos secos do cerrado. Era como Mamãe fazia: flocos de algodão para lembrar a neve e bolas coloridas para trazer vida. Sofia, minha sobrinha, discorda. Para ela, não faz sentido usar neve de algodão. Prefere passarinhos, borboletas e flores. Eu sigo outra linha: gosto do pinheiro, mesmo que seja fake, cheio de enfeites herdados ou comprados em Salzburgo.

Dessa vez, a árvore da casa dos nossos pais foi montada pela Denise. Ficou linda. Mas faltava o toque da Jacq. É ela quem transforma tudo em espetáculo. Já sabemos: com ela virão os ursos. Muitos. E aquele bem grandão. Deu trabalho para achar e mais ainda para comprar. Foram várias lojas, mamãe exausta, Ricardo irritado. Até que encontramos um único exemplar no Minas Shopping. Enfrentamos engarrafamento, filas e corredores lotados. Uma verdadeira saga (ou seria caça ao tesouro?). No fim, pelo sorriso, valeu a pena. O desafio agora, a exemplo dos anos anteriores, é onde e como guardá-lo.

Por falar em grande, o que dizer do nosso Papai Noel? Um metro e oitenta de pura formosura. Custou uma pequena fortuna. O retorno vem dos olhinhos brilhantes e do encantamento dos sobrinhos netos. Dos adultos também. Virou atração turística na varanda de casa.

O presépio também já está instalado. Em lugar de destaque, pra ninguém esquecer o sentido da festa. O Menino Jesus repousa na manjedoura. Tadinho, deve estar mortinho de frio. Continua à espera das palhas que não virão. Era assim quando crescemos: cada boa ação rendia uma palha a mais. Ideia de gênio da Mamãe, que transformava bondade em aconchego. No Natal, havia tanta palha que o Menino quase desaparecia. Mamãe, irônica que só ela, elogiava:

– Filhos de ouro. Uma legião de “anjinhos”. Só que com data de validade.

Tentamos resgatar a tradição com os sobrinhos. Nada feito. São outros tempos. Sem drama. É assim mesmo.

Por curiosidade, pesquisei os preços das cestas de Natal, outra tradição da família. Impossível: valores nas alturas. Mais uma vez, fica para o ano que vem. Não tem problema. Vamos nos fartar com as lembranças da infância, dos presentes do Tio Chico, que vinham do Rio de Janeiro em uma cesta de vime enorme.

A cesta chegava pelo Correio poucos dias antes do Natal. Vovô Nenem fazia da abertura um ritual. No dia 25, logo após o almoço, reunia todos à beira do rio Pará. A mesa com banquinhos virava palco. A gente se misturava com os brinquedos que Papai Noel havia deixado na árvore. E, de dentro da cesta, saíam doces, biscoitos, castanhas e muitas outras gostosuras que vinham de longe. Tudo era uma delícia. Tudo era mágico. Como o Natal.

Talvez o segredo esteja justamente nisso: em guardar no coração os gestos simples, os rituais que atravessam gerações e a certeza de que, enquanto houver lembrança, haverá também encantamento. Porque o Natal, no fundo, é isso: memória viva que insiste em nos reunir.

Gisele Bicalho é jornalista e escritora.
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