
Você já reparou que o Natal tem trilha própria? Não falo só de Jingle Bell e de outros hits natalinos. São frases que se repetem, ano após ano, como se fossem parte de um roteiro que todos conhecem de cor.
Na mesa, alguém dispara:
– Já podemos iniciar os trabalhos? Quem vai abrir o vinho? E não me venha com esse saca-rolhas mequetrefe.
Há quem alerte para os excessos:
– Veja se modera, heim? Lembra do ano passado que você caiu com a taça na mão?
Melhor abafar o caso. Outro se preocupa:
– Você sabe que não pode comer doces. Nada de sobremesa, heim! Olha a glicose. Coma fruta.
Tem quem vá na direção contrária:
– Nossa, você está magra demais. Coma mais um pouquinho para não adoecer. Não vou ficar com você no hospital de novo. Você é irresponsável demais. Vive de luz, não toma água e não se exercita.
E, é claro, não falta o clássico:
– Cadê o arroz com passas? Só vai ter arroz de forno?
Na sequência, logo surge a ironia que arranca gargalhadas:
– Vai ter panetone com sorvete, tia Gisele?
Antes que a tia tente escapar da piada, alguém já chega com o socorro:
– Nada de panetone com sorvete. Vamos com o clássico daqui de casa: mousse de vinho!
Bernardo, impaciente, adianta:
– Nem vem. Só quero sobremesa se for bolo de chocolate. Ana Júlia concorda.
E por falar nas sobremesas, a pergunta que não quer calar:
– Tia Lulu, vamos ter ovos nevados e rabanadas?
Alguém pergunta se na farofa vai castanha. É que tem alérgicos na família, lembra com preocupação.
– Até tem, mas a farofa do Beto está separada.
Na troca de presentes, os clichês nunca envelhecem.
– Já posso abrir os presentes, pergunta Gyslaine, já com a bolsinha de lado. Isabella ocupa o seu lugar ao lado da tia, atenta como convém a toda ajudante de Papai Noel.
Ao desembrulhar os pacotes, ecoam as frases de sempre:
– Não precisava, não.
– Se não servir pode trocar, viu!
– Achei a sua cara.
No fim, o que vale são as lembranças e as risadas que acompanham cada embrulho malfeito ou cada presente repetido.
Nesse momento alguém lembra dos presentes fakes criados pelo Osvaldinho, o próprio vítima da própria piada. De quando ele ganhou uma “gamela”, referência ao apelido que ganhou na escola. A primogênita, famosa por dedurar as traquinagens dos irmãos, ganhou um tridente. Mas é melhor parar por aqui. Abafar o caso, porque há quem já tenha recebido surpresinhas inomináveis. Essa tradição seguiu por anos, com Guilherme assumindo o posto depois que o Osvaldinho se foi.
As conversas seguem o mesmo tom:
– Nossa, como a família cresceu! Que tanto de crianças!
– Ano que vem a gente tem que se reunir mais vezes.
O Natal vira inventário de afetos. Uma forma de medir o tempo pelo crescimento dos filhos, nascimento dos netos, sobrinhos-netos e pela saudade dos que já não estão.
Quando o brinde chega, as frases viram votos:
– Saúde, paz e união para todos nós!
E não espere ouvir que “no ano que vem é na minha casa”. Nada disso. Vai ser aqui mesmo. É tradição. O Natal sempre foi na casa dos nossos pais. E a festa continua. No mesmo lugarzinho, mesmo que estejam em outro plano. É o nosso compromisso de nunca nos afastarmos. Cordão umbilical que não se rompe. O que mudou foram os lugares na mesa de jantar. Com a chegada dos netos foi necessário aumentar o número de cadeiras, pratos, talheres e taças. Para os sobrinhos netos tem a cadeirinha com quase cem anos (foi do Tio Gualter, lembra alguém) e a mais nova, construída pelo Papai e pelo Beto.
O verdadeiro encerramento vem com a frase que sela a noite:
– Não esqueça da sua marmita.
– O pernil estava grande demais. Vamos comer carne de porco por, pelo menos, uma semana.
Essas frases, repetidas e previsíveis, são o tecido invisível que costura o Natal. Sem elas, talvez a noite fosse silenciosa demais. Com elas, o Natal ganha sabor de tradição, lembrança e afeto. No fundo, cada repetição é uma forma de dizer: estamos juntos mais uma vez.







