Duas obras sobre o Rio São Francisco prometem substituir travessias por balsa entre Manga e Matias Cardoso e entre São Francisco e Pintópolis
Por Gabriel Rezende
Tímida, Vanir falou pouco. A rotina, porém, diz muito sobre o peso dessa travessia. Para garantir que o filho chegasse à consulta, foi preciso madrugar. “Eu acordei às 4h para ir para a consulta das 7h”, resume. Na margem oposta, Lucélia Santos Lima, de 40 anos, espera a balsa fazer o caminho inverso. Todos os dias, ela sai de Manga para trabalhar em uma farmácia de Matias Cardoso. A viagem, que deveria durar poucos minutos, começa antes mesmo do amanhecer. “Eu acordo todos os dias às 4h, porque tenho que deixar o almoço pronto para minha família. Em seguida, eu venho para a balsa e fico esperando o horário da travessia”, conta.
Nem a antecedência garante que ela chegará ao trabalho no horário. “Acontecem problemas com o rebocador da balsa, com caminhões. Na maioria dos dias, passo perrengue”, relata. Ao desembarcar, ainda enfrenta outro desafio: o porto fica a mais de 10 km do centro de Matias Cardoso. “São vários trabalhadores que dependem da balsa. É um sofrimento. Estamos na expectativa pela ponte”, diz Lucélia.
A demora na travessia também rouba tempo da convivência com a família. “A rotina é muito cansativa. Você sai de casa às quatro da manhã sem saber a hora certa de voltar. Seu filho está esperando em casa. Às vezes acontece algum imprevisto e você está do outro lado do rio. Todo mundo sonha com essa ponte há muitos anos. Estamos na expectativa de que a cidade cresça, que venham fábricas, indústrias e empresários para investir aqui”, afirma.
A ligação entre os dois municípios vai além da proximidade geográfica. Durante décadas, Manga e Matias Cardoso formaram uma única cidade. Apenas em 1992, quase 70 anos após a emancipação de Manga, Matias Cardoso conquistou autonomia administrativa. Ainda hoje, porém, os moradores dependem da estrutura do município vizinho para acessar serviços básicos, como hospital e fórum. Quando surge alguma demanda, muitas pessoas preferem percorrer cerca de 60 km por estrada até Jaíba para evitar a incerteza da balsa. “Quando precisamos fazer um registro ou tirar um título, temos que ir até Jaíba, sendo que Manga está muito mais perto”, afirma o líder comunitário Gilberto Nunes dos Santos, de 63 anos, do Quilombo de Praia.
Para quem acompanha a travessia há décadas, a situação já foi ainda mais delicada. Antes da operação atual, feita por meio de concessão, acidentes eram frequentes. “Já vi carro cair no rio, balsa virar com caminhão dentro”, lembra Santos. “A balsa é um atraso de vida. Você vai resolver uma coisa que leva dez minutos em Manga e perde o dia inteiro. Muitas vezes ela quebra, desce o rio”, completa.
Foto: Fred Magno / O TEMPO
A rotina descrita pelos moradores se confirmou durante a passagem da reportagem pela região. A travessia entre Manga e Matias Cardoso levou cerca de duas horas. A fila de veículos, formada principalmente por caminhões, impediu o embarque na balsa das 14h. Quando finalmente partiu, a embarcação ainda saiu com atraso depois que um caminhão ficou preso na rampa de acesso. Enquanto o rebocador conduzia a balsa pelo São Francisco, dezenas de motoristas permaneciam dentro dos carros à espera da próxima viagem.
Com a ponte, será possível fazer o mesmo percurso em cerca de um minuto, considerando uma velocidade média de 60 km/h, conforme o vice-diretor-geral do Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER-MG), Anderson Tavares Abras. “É um ganho significativo na qualidade de vida. Essa população terá um grande ganho de mobilidade, para acessar serviços de saúde e educação. Vai alavancar o desenvolvimento da região”, analisa.
Projeto beneficia o maior projeto de irrigação contínua da América Latina
A espera pela balsa não faz parte apenas da rotina de quem precisa cruzar o rio para uma consulta médica ou para chegar ao trabalho. Todas as madrugadas, centenas de moradores de Manga atravessam o São Francisco em direção ao Projeto Jaíba, considerado o maior projeto público de irrigação em área contínua da América Latina. A jornada começa antes do amanhecer e termina apenas no início da noite.
O pedreiro Pedro Emanuel, de 33 anos, conhece essa rotina de perto. Durante anos, trabalhou em Jaíba e Janaúba e aprendeu que o maior desafio nem sempre é o serviço, mas conseguir atravessar o rio. “O perrengue é o horário. Às vezes você chega e a balsa já saiu. Na hora de voltar é a mesma luta”, conta.
Segundo ele, o Projeto Jaíba se tornou a principal fonte de renda para centenas de famílias de Manga. O problema é que o acesso ao trabalho depende de um transporte sujeito a filas, atrasos e panes. “Não é fácil. Tem gente que acorda às 4h e chega em casa às 18h30, 19h. Para um pai ou uma mãe de família é complicado. Já passei pela (situação de a) balsa quebrar e (eu) chegar em casa às 20h, 21h. Também já aconteceu de sair às quatro da manhã e voltar só às duas da madrugada”.
De acordo com o prefeito de Manga, Anastácio Guedes Saraiva (PT), entre 600 e 800 moradores atravessam diariamente o rio para trabalhar no Projeto Jaíba. Para ele, o maior ganho será devolver tempo aos trabalhadores. “Esse tempo que hoje é perdido na balsa poderá ser usado para descansar mais ou ficar com a família”.
Os reflexos da travessia também chegam ao transporte de cargas. Há 30 anos nas estradas, o caminhoneiro Weberton Botelho, de 50 anos, calcula os prejuízos provocados pela espera na margem do São Francisco. Em uma das viagens, ele ficou mais de quatro horas à deriva depois que o rebocador apresentou problemas. “Ficamos no meio da água. Quem não tem costume fica com medo. Isso aqui atrasa nossa vida há muitos anos”, conta. Segundo ele, cada hora parada significa dinheiro perdido. “Chegamos ontem à noite e já não deu para atravessar. Tivemos que esperar até hoje cedo. Se tivesse a ponte, já poderíamos ter rodado uns 300 km. Para caminhoneiro, tempo é dinheiro”, comenta. Para além disso, há o custo de travessia, cujos valores variam de R$ 97,35, para um caminhão truck, a R$ 170,30, em uma carreta bitrem. “Essa ponte é promessa desde a época do meu pai. Hoje ele tem 80 anos e sempre dizia que só acreditaria vendo”, afirma.
O prefeito compartilha dessa expectativa. Segundo Anastácio, o custo e a imprevisibilidade da travessia acabam afastando empresas e dificultando o desenvolvimento do município. “As pessoas precisam pagar para chegar à cidade. Muitas deixam de vir por causa do custo da balsa. Isso atrasa o desenvolvimento. Empresas deixam de investir porque precisam atravessar várias vezes e encontram essa dificuldade”, garante. Os transtornos provocados pela travessia já tiveram consequências ainda mais graves. “Já aconteceu de pessoas morrerem porque a balsa quebrou ou atrasou”, conta.
A administração municipal também aposta no turismo como um dos setores beneficiados pela nova ligação. A cerca de 70 km de Manga está o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, cujos cânions receberam da Unesco o título de Patrimônio Natural Mundial. A expectativa é que a ponte facilite o acesso de visitantes e fortaleça um roteiro que inclua o Rio São Francisco e outras paisagens naturais do extremo Norte de Minas.
Projeto de JK sai do papel 70 anos depois
A cerca de 180 km dali, outra ponte sobre o Rio São Francisco começa a mudar a paisagem do Norte de Minas. Em São Francisco, operários trabalham na estrutura que ligará o município a Pintópolis, na MG-402, encerrando outra espera que atravessou gerações. A ponte representa a concretização de um projeto concebido ainda durante o governo de Juscelino Kubitschek. Na década de 1950, quando Brasília saía do papel, o plano previa integrar a nova capital ao Nordeste por um corredor rodoviário que cruzaria o Norte de Minas. A travessia sobre o Velho Chico fazia parte dessa estratégia.
A ideia, porém, ficou pelo caminho. Com a construção da capital federal consumindo boa parte dos recursos da União, o governo priorizou grandes eixos nacionais, como a Belém-Brasília e a ligação entre Brasília e o Sudeste. Obras consideradas secundárias acabaram sendo adiadas. Nas décadas seguintes, o isolamento do Norte de Minas, a baixa prioridade política para a região e a própria existência das balsas como solução provisória fizeram com que a ponte permanecesse apenas no papel.
Mais de 70 anos depois, a promessa finalmente começou a ser cumprida. Com investimento de aproximadamente R$ 220 milhões, a estrutura terá 1.120 m de extensão e 13,8 m de largura e será ligada a uma variante de pouco mais de 3 km. Quando for concluída, o que está previsto para o fim de 2026, eliminará definitivamente a travessia por balsas entre São Francisco e Pintópolis e criará um novo corredor logístico para o transporte de cargas e a integração do Norte de Minas.
Assim como a ponte entre Manga e Matias Cardoso, a construção só se tornou viável graças aos recursos do Acordo de Reparação de Brumadinho, firmado entre a Vale, o governo de Minas e as instituições de Justiça após o rompimento da barragem da mineradora, em 25 de janeiro de 2019, que tirou 272 vidas. A origem do dinheiro desperta reflexão em quem vive às margens do São Francisco. “Teve que acontecer essa tragédia, que deixou muita tristeza, para vir esse recurso. Eu penso que, se não tivesse acontecido, não teríamos ponte nunca. Mas vai sair. Fica a esperança por mais investimentos e desenvolvimento”, afirma o líder comunitário local Gilberto Nunes dos Santos.






