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Nas asas de um pombo-correio

Capa da revista Manchete, de 1956, que traz reportagem sobre os pombos-correios do farmacêutico Sá Fortes.
Capa da revista Manchete, de 1956, que traz reportagem sobre os pombos-correios do farmacêutico Sá Fortes.

As boas histórias têm um talento curioso: sempre encontram um jeito de chegar até nós. Algumas vêm impressas em jornais amarelados pelo tempo; outras aparecem na tela do celular, compartilhadas em um grupo de WhatsApp da família. Foi assim que esta me encontrou.

O primo Arthur Sá Fortes Rezende publicou um print de uma reportagem da revista Manchete, de 1956. Bastou um toque na tela para uma história de quase sete décadas voltar a circular. E o mais curioso é que ela falava justamente de uma época em que as mensagens também percorriam longas distâncias, não pela internet, mas nas asas de um pombo-correio.
Quem acompanha estas crônicas já sabe que minha principal fonte de inspiração costuma ser a família Bicalho Resende. Desta vez, porém, o “causo” vem de outro galho da árvore genealógica: os Sá Fortes Rezende, primos lá de Perdões.

O farmacêutico Sá Fortes era um homem muito à frente do seu tempo. Anos depois conseguiria autorização do Exército para criar pombos-correios. Acontece que, quando a licença finalmente chegou, seus mensageiros alados já trabalhavam havia muito tempo.

Tudo começou quase como uma diversão. Afinal, o boticário cultivava muitos interesses além da farmácia. Era rádio-amador (prefixo PY-AEC), gostava de hipnotismo, estudava esperanto, investigava fenômenos espíritas e alimentava uma curiosidade permanente por tudo o que pudesse ampliar os horizontes da ciência e da vida. Homem culto, sem qualquer afetação, dividia a rotina entre a esposa, os três filhos, um rapaz e duas moças, um quintal generoso repleto de árvores frutíferas e um pequeno zoológico particular.

Foi justamente de um desses passatempos que nasceu uma ideia engenhosa.

Como precisava treinar seus pombos-correios, convidou o amigo, o médico Artur Modesto Pereira, para colocá-los em serviço. Sempre que saía para atender pacientes na zona rural, o médico levava consigo quatro aves. Mesmo quando a visita era para apenas um doente, carregava todas elas. Se o estado do paciente se agravasse ou surgisse a necessidade de novas prescrições, bastava escrever outra receita e confiar a mensagem a um dos pombos.
E o sistema funcionava com impressionante eficiência.

Ao chegar à farmácia, o pombo entrava diretamente no viveiro, acionando uma campainha instalada no laboratório. Sá Fortes corria até o pombal, retirava da pequena anilha presa à perna da ave a receita assinada pelo médico e providenciava imediatamente o medicamento. Um portador seguia para a casa do enfermo, ora a cavalo, ora de jipe, dependendo da distância e das condições das estradas.

Nem mesmo os mensageiros eram comuns. Todos recebiam nomes inspirados na mitologia grega: Ícaro, Ariadne, Mnemosyne, Pégaso e Teseu, protagonista de uma das histórias mais impressionantes dessa pequena epopeia do interior.

Certa vez, Teseu retornava carregando uma receita urgente destinada a socorrer uma mulher em trabalho de parto complicado. No caminho, foi atacado por um gavião. Não era um perigo raro. Sá Fortes já havia perdido vários pombos para aves de rapina.

Mesmo perseguido, Teseu resistiu até alcançar o viveiro, já ao entardecer. Naquele exato momento, o farmacêutico testava uma nova espingarda em seu enorme quintal. Ao perceber o gavião no encalço do pombo, fez um disparo certeiro. O predador caiu. Instantes depois, Teseu pousou, completamente exausto, aos pés do dono.

A receita chegou a tempo.

A mãe sobreviveu. O filho também.

Um pequeno pombo-correio havia cumprido sua missão.

Ao longo dos anos, mais de duas gerações dessas aves serviram à farmácia fundada pelo pai de Sá Fortes apenas quatro dias antes da Proclamação da República. Mais tarde, já como sócio de Victor Castellucci, ele continuou tocando o estabelecimento com o mesmo entusiasmo de sempre, cercado pelos pombos, pelos livros, pelo espiritismo, pelas invenções e por uma curiosidade insaciável.

A reportagem que contou essa história foi assinada pelo jornalista Mauro Santayana, com fotografias de Euler Cássia. Publicada em 1956 na extinta revista Manchete voltou a circular graças a um simples compartilhamento no grupo dos primos. O papel deu lugar à tela. O impresso virou print. O álbum de recortes transformou-se em WhatsApp.

Mudaram os mensageiros. Antes eram pombos; hoje são aplicativos. Mas permaneceu o essencial: a boa história sempre encontra um jeito de chegar ao seu destino. E algumas, como esta, continuam atravessando gerações nas asas de um pombo ou no toque de um dedo sobre a tela.

Trecho da matéria sobre os pombos-correios

Gisele Bicalho é jornalista e escritora
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