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Minas em risco

Barragens de rejeitos de minérios e falhas no monitoramento colocam em risco abastecimento de água

 Área rural do município de Brumadinho, atingida pelo rompimento da barragem de rejeitos da Mina Córrego do Feijão - Foto: Isac Nóbrega, a serviço da Presidência da República
Área rural do município de Brumadinho, atingida pelo rompimento da barragem de rejeitos da Minha Córrego do Feijão – Foto: Isac Nóbrega, a serviço da Presidência da República

O estado de Minas Gerais permanece, de forma isolada, como território de maior risco associado às barragens de rejeitos da mineração em todo o país. Esse dado está no boletim do Observatório de Barragens de Mineração da UFMG, divulgado em fevereiro deste ano. Ainda segundo o informe, Minas Gerais é o estado que concentra sozinho mais barragens do que a soma de outros 16 estados brasileiros, mantendo em sua jurisdição 319 das 911 estruturas existentes no Brasil.

Dessas 319 barragens de rejeitos da mineração, 62 delas, ou seja, 19,4%, estão instaladas acima do principal sistema de abastecimento de água da Região Metropolitana de Belo Horizonte, responsável pelo abastecimento de uma população de cerca seis milhões de habitantes, de acordo com estimativas do IBGE.

O principal risco de uma barragem de rejeitos estar localizada acima de uma estação (seja de tratamento ou de energia) é o chamado “galgamento”ou onda de inundação em caso de rompimento. Por gravidade, a lama e os rejeitos atingem a estrutura abaixo em poucos minutos, causando destruição total. O risco chega a 1,7 milhões de domicílios particulares.

 O rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho, demonstrou que a “área imediatamente abaixo da barragem (até 10 km ou onde o tempo de chegada da onda é menor que 30 minutos) define legal e tecnicamente o local de destruição total e instantânea. Em Brumadinho, instalações administrativas e estruturas operacionais que ficavam logo abaixo da Barragem B1 foram soterradas em menos de 5 minutos devido à aceleração gravitacional da lama”, de acordo com estudos de Dam Break (propagação de onda de inundação) realizados por pesquisadores da área de Engenharia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e e das Geociências da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
A foto do município de Resplendor, em MG, exibe lama nas águas do Rio Doce após o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, da Vale. Foto: Fred Loureiro/Secom ES
A foto do município de Resplendor, em MG, exibe lama nas águas do Rio Doce após o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, da Vale. Foto: Fred Loureiro/Secom ES

Tabuleiro de vulnerabilidades

O Sistema Integrado Rio das Velhas, com captação em Bela Fama, em Nova Lima, responde por cerca de 70% do abastecimento de Belo Horizonte e atende cerca de 2,5 milhões de moradores da Região Metropolitana. Por isso, um eventual rompimento de barragem de rejeitos de mineração teria impactos para além da área diretamente atingida pela lama. Dependendo da estrutura e da extensão da mancha de inundação, o impacto pode alcançar diferentes estruturas de tratamento de água de Minas Gerais.

A Estação de Tratamento de Água (ETA) de Bela Fama, um dos pilares de segurança hídrica da Grande BH, é um exemplo. Ela faz parte do Sistema Rio das Velhos e opera, de forma integrada, com o Sistema Paraopeba para compor o Sistema Produtor de Água da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH).

Utilizada pela Copasa para captar a água que abastece grande parte da Região Metropolitana de Belo Horizonte, Bela Fama “convive” com uma alta concentração de barragens de mineração. As fiscalizações do TCEMG apontaram que qualquer rompimento pode gerar uma mancha de inundação que levaria ao desabastecimento de milhões de pessoas.

Por ser uma captação direta do leito do Rio das Velhas (sem reservatório próprio de acumulação), a chegada de lama ou rejeitos inviabilizaria o tratamento instantaneamente, repetindo o cenário de colapso que ocorreu em 2019 no Rio Paraopeba (rompimento da Barragem da Mina Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho), considerado o maior acidente de trabalho da história do Brasil e um dos piores desastres socioambientais do mundo.

A “química” de uma fusão entre a alta densidade de estruturas de rejeitos e a proximidade dessas barragens com as estações de tratamento de águas tem um potencial crítico, capaz de transformar Minas Gerais em um tabuleiro de vulnerabilidades e risco: o colapso de uma dessas estruturas geraria um efeito dominó, capaz de sequestrar a segurança hídrica e decretar o apagão imediato no abastecimento de milhões de cidadãos.

Imagem mostra proximidade entre sistemas de tratamento de água e barragens de rejeitos de minério. Imagem: gerada a partir de ferramenta de IA
Imagem mostra a proximidade entre barragens de rejeitos de minérios e sistemas de captação e tratamento de águas. Imagem gerada por IA
Clima seco impõe riscos

A auditoria identificou um aspecto que costuma passar despercebido: os efeitos da estiagem prolongada também afetam a segurança das barragens e pilhas de rejeitos de minérios. Relatórios técnicos analisados pelo TCEMG registraram ocorrências como trincas, sismos, erosões e escorregamentos em barragens monitoradas após eventos climáticos extremos.

Com a redução prolongada da umidade, o solo e os materiais que compõem as estruturas de retenção de rejeitos de minérios podem sofrer retração, favorecendo o surgimento de fissuras e modificando o comportamento da infiltração de água na estrutura. Essas alterações exigem inspeções específicas e monitoramento diferenciado, pois podem comprometer a estabilidade da barragem caso não sejam identificadas e corrigidas a tempo.

Durante entrevistas realizadas pelos auditores e auditoras do TCEMG, representantes da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) afirmaram que as mudanças climáticas não alterariam de forma significativa a segurança da maior parte das barragens, argumentando que essas estruturas “já sofreram esse impacto” em outros períodos.

Mas a conclusão apresentada no relatório do TCEMG vai em sentido oposto. O risco é iminente e alto. A partir de conversas com ambientalistas e pesquisadores, que têm se dedicado a compreender e estudar barragens e pilhas de rejeitos. A conclusão é que essas estruturas não possuem sistema de drenagem adequado para aguentar chuvas extremas.
A orientação do TCEMG dialoga com a análise da socióloga Leila da Costa Ferreira, professora na Unicamp e pesquisadora de políticas ambientais. Ao discutir os desafios impostos pelas mudanças climáticas, ela questiona se as ações implementadas pelo poder público são capazes de produzir mudanças efetivas ou se permanecem como “meros paliativos”, mantendo um modelo insuficiente para enfrentar os problemas ambientais.
Os registros técnicos reunidos pela auditoria operacional do TCEMG indicam a necessidade de acompanhamento diferenciado após estiagens prolongadas e chuvas excepcionais. A auditoria concluiu que a Feam não dispõe de protocolos específicos para orientar inspeções extraordinárias depois de eventos climáticos extremos. Também não há diretrizes claras para avaliar os efeitos desses eventos sobre barragens consideradas críticas.
Alertas silenciosos

As fragilidades apontadas pela auditoria do TCEMG também recaem sobre a atuação do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam). A auditoria identificou limitações na rede estadual de monitoramento hidrometeorológico, além da necessidade de manutenção mais regular das estações que monitoram chuvas, níveis de rios e outros indicadores ambientais. No Sul de Minas, a situação é mais preocupante. Já no Triângulo Mineiro, há iniciativas para a instalação dos equipamentos.

 As limitações também alcançam a comunicação entre órgãos estaduais e municipais. Segundo a auditoria, o fluxo de informações entre o Igam e a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil, assim como entre a Cedec, suas regionais e as defesas civis municipais, ocorrem principalmente por meio de grupos de WhatsApp e outros canais informais.
O problema não está no uso do aplicativo, mas na ausência de um protocolo de comunicação oficial e institucionalizado, que pode levar ao risco de colapso todo o sistema de comunicação de emergência do estado em momentos críticos, comprometendo a capacidade de resposta dos órgãos de proteção e defesa civil. Além disso, observou-se ausência de avaliação e controle sobre efetividade dos alertas emitidos pela Cedec, ou seja, se o alerta chegou ao destinatário, se foi compreendido e se gerou alguma resposta. Em uma emergência, apenas enviar uma mensagem não é garantia de comunicação efetiva.
Fonte: TCEMG
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