
Não se fala em outra coisa. A Copa do Mundo domina todas as rodas de conversa. Cada um tem a sua própria seleção. Com Neymar, sem Neymar. Eu não abriria mão de Kaio Jorge e Mateus Pereira. Mas minha opinião não pesa diante de Ancelotti. Então, só resta me ater ao outro lado da notícia.
Já contei aqui que, na Copa de 1970, quando o Brasil ergueu a taça no México, um pai, tomado pela euforia, decidiu eternizar os craques em um só batismo. Misturou sílabas, juntou sons, e deu ao filho um nome que mais parecia trava-língua: Tospericargerja. O menino cresceu com o peso de uma homenagem que confundia mais do que celebrava. O futebol, desde então, não era apenas jogo: era identidade, era marca. Quem me contou esse “causo” foi o Jorge Santana, um apaixonado pelo futebol e, como eu, também pelo Cruzeiro.
Por falar na Seleção Canarinho e no Cabuloso, o primeiro crush não foi nenhum Beatles e nenhum cantor da Jovem Guarda. Foi Tostão. Em 1970, no México, o jogador foi peça fundamental na conquista da taça.
O tempo passou, mas os nomes continuaram a provocar debates. O atacante Richarlison, camisa 9 no Catar em 2022, decidiu batizar o filho de Richarlison Jr. A escolha gerou polêmica nas redes sociais. “O Rick Jr. não vai precisar trabalhar”, rebateu o jogador, irritado com as críticas. Mais uma vez, o futebol mostrava que não se trata apenas de gols e vitórias, mas também de como os nomes carregam histórias, expectativas e destinos.
Mas antes de Richarlison, já houve quem carregasse o peso das críticas. Em 1994, Roberto Baggio, lenda italiana, viu sua bola subir nos céus dos Estados Unidos e nunca mais descer. O pênalti perdido contra o Brasil se transformou em fantasma. “Essa bola ainda está suspensa”, confessaria décadas depois.
Naquele dia, nossa família se amontoou em frente à televisão. Mamãe, apaixonada por futebol e pelo Atlético, era a mais eufórica. Para espanto do meu pai, nossa querida ignorou os limites da idade e da limitação física e comemorou em cima do sofá o erro de Baggio. Obviamente me juntei a ela, sob o olhar blasé das minhas irmãs, que até então estavam atentas apenas à beleza dos uniformes e dos jogadores italianos. Meus irmãos, pasmem, nunca jogaram futebol na vida, mas se renderam à grandeza daquele momento e se juntaram à celebração. Seguida, é claro, por uma bela macarronada.
A verdade é que o erro de Baggio, como um nome mal escolhido, não se apaga: acompanha, dói, molda.
E então veio 2014. O Mineirão, em Belo Horizonte, foi palco de um apagão histórico. O Brasil enfrentava a Alemanha e, em trinta minutos, já perdia por 5 a 0. O estádio, com quase 60 mil pessoas, se dividia entre lágrimas, silêncio e incredulidade. Foi a primeira vez que a seleção alemã superava o Brasil em Copas. O hino alemão, abafado pelas vaias, anunciava que aquela noite seria lembrada como o maior vexame da história da Seleção. O placar final, 7 a 1, virou cicatriz nacional.
A pergunta que não quer calar:
– Gisele, onde é mesmo que você estava no fatídico 7 x 1?
Trabalhando no Centro Integrado de Comando e Controle Regional, instalado na Cidade Administrativa de Minas Gerais. Acompanhando em tempo real a segurança, o trânsito, o atendimento médico e o controle de manifestações. Funcionava como “cérebro” da operação durante os jogos no Mineirão.
A cada gol da Alemanha, o local, antes barulhento e movimentado, se calava. As pessoas se olhavam estupefatas, como que dizendo “o que está acontecendo? Como isso é possível?” Mas foi e se tornou uma memória ruim que ninguém esquece.
Hoje, em 2026, entre o talento de Tostão em 1970, o pênalti suspenso de 1994, o vexame de 2014, a polêmica de 2022 e a delicadeza de Gilberto Silva, o futebol se revela como espelho da vida: glórias que se eternizam, derrotas que não cicatrizam, nomes que marcam. As lembranças se entrelaçam, mostrando que o jogo nunca termina quando o árbitro apita. Ele continua, suspenso no tempo, dentro de cada torcedor.







