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Quintal onde florescem histórias

As orquídeas estão entre as flores preferidas da família Bicalho – Foto: Pixabay

Na minha família, grande e barulhenta, as flores são testemunhas silenciosas dos nossos ciclos de vida. Elas brotam tanto em momentos de dor quanto de alegria; carregam significados que vão muito além da beleza.

Há flores que chegam como bálsamo em dias de tristeza; outras florescem em meio à celebração. A pata-de-elefante que Denise comprou — rara e cara — na semana em que mamãe se despediu, guarda o peso da saudade. Ao lado dela, a vermelha vibrante que Guto, Bernardo e Juju presentearam à Denise ilumina a memória da alegria compartilhada. Entre pétalas e lembranças, a vida se revela: ora luto, ora festa, sempre marcada pela delicadeza das flores.

Nana, com sua generosidade, muitas vezes nos presenteia com orquídeas. Além de lindas, elas se perpetuam, florescendo vez após vez, como se devolvessem em cores o carinho que sentimos umas pelas outras.

Mamãe adorava amor-perfeito. Jacq se encanta com girassóis. E Denise… ah, Denise é a “louca das plantas”. Com seu “dedo verde”, semeia vida por onde passa. O resultado desse amor sem medida é que nosso pequeno quintal virou quase uma selva. E ai de quem ousar disputar um palmo de terra para plantar uma erva, uma couve ou um mamoeiro. É briga na certa! A solução foi espalhar alecrim, manjericão e salsa em vasos. Sobrou até para a jabuticabeira e para o limoeiro, que seguem firmes, nos vasos, testemunhando nossa história. Nem a mangueira escapa da saga ocupacionista da Denise: o tronco abriga orquídeas e bromélias. Ambas não só se abrigam ali, como também se embelezam com sua presença. Lindo de se ter. Lindo de se ver.

Esse amor não nasceu ontem. Teve um dia em que o papai saiu portão afora e foi até a floricultura da Rosilene (repare que a proprietária já carrega nome de flor). Escolheu a muda mais bonita e, matreiro, já tinha em mente o vaso: um tronco marcado pelo tempo. Sabia que iria agradar. Com a ajuda do Beto, preparou a terra mais fértil, o esterco mais rico e transplantou a belezura. A ela deu o nome de “Flor da Denisinha”. Uma homenagem à filha, companheira de todas as horas.

E como quem pede desculpas sem precisar, achegou-se a mim e confidenciou:

— Você e suas irmãs também vão ganhar flores. Estou preparando um canteiro igual àquele que você gostou, cheio de ondas como os prédios de Brasília. Vou plantar as palmas que sua mãe tanto amava. Uma para cada filha.

Foi esperto: usou Niemeyer e mamãe como referências. Justo os dois. Quem teria ciúmes depois disso?

Essa prosa sobre flores e demonstrações de amor me trouxe saudades de uma infinidade de coisas. Uma delas é o jardim da minha avó. Era lindo demais. Os canteiros, demarcados por tijolos, formavam desenhos geométricos. Nada crescia ao acaso. Havia losangos, retângulos, quadrados e círculos. Neles floresciam rosas, lírios, palmas e copos-de-leite.

O meu preferido era o de hortênsias. Talvez pela cor. Os buquês azuis cresciam debaixo da janela do quarto dos meus tios. Abundantes, floresciam o ano inteiro. Talvez porque ali fosse mais frio e sombreado. Não por acaso, hortênsias são comuns nas geladas regiões serranas, o que, diga-se de passagem, não é o caso de Conceição do Pará. A cidade se estende pelo vale, acompanhando o curso do rio.

Além das hortênsias, gostava — e ainda gosto — dos copos-de-leite e das margaridas. A beleza, o nome e o formato dessas flores me remetem às manhãs frias da infância. Minhas amigas dizem que são flores de “jovens senhoras”. Eu concordo. São tão antigas quanto a minha alma.

Entre hortênsias e margaridas, orquídeas e girassóis, descubro que as flores não são apenas enfeites: são guardiãs dos nossos afetos. Carregam saudades, celebram alegrias e, silenciosamente, nos lembram que a vida floresce sempre. No quintal, cada pétala é memória, cada raiz é laço e cada flor é um gesto de amor que nunca se perde.

Gisele Bicalho é jornalista e escritora
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