
O tempo anda correndo muito rápido. Num piscar de olhos, daqui a pouco já será Semana Santa. Mesmo para quem é indiferente às tradições, passada a euforia do Carnaval, o tempo da Quaresma traz consigo uma atmosfera diferente, uma pausa no ritmo cotidiano, um convite ao silêncio e à reflexão.
Na missa de Quarta-feira de Cinzas, o Padre Adelmo nos convidou a ser embaixadores da Palavra Sagrada. Para tornar a mensagem leve e próxima, citou o cantor Gusttavo Lima, conhecido como “embaixador”. Perguntou aos fiéis: “Ele é embaixador da Unicef?”. Alguém respondeu: “Não, padre, ele é embaixador de Barretos”. O padre retrucou com humor: “Então é um embaixadorzinho”, provocando sorrisos em todos que participavam da celebração.
Esse toque de alegria contrasta com as memórias da Quaresma da minha infância. Na casa dos meus avós a rotina era substituída por uma sensação de tristeza e vazio. Na Sexta-Feira da Paixão, o chão não era varrido, as camas não se arrumavam, e música era proibida. Nada de ligar o rádio ou cantar a plenos pulmões. Tudo era silêncio, uma reverência ao Jesus morto.
A mesa, porém, trazia consolo: às sextas-feiras não se comia carne vermelha, apenas peixe. E no Domingo de Páscoa, o prato principal era – e ainda é – o Cundito, camadas de cebola, tomate, pimentão e bacalhau cozidos no azeite. Hoje, em nossa casa, esse prato é servido também em outras datas especiais. Nem precisa ser Semana Santa para que o bacalhau venha à mesa, reunindo família e memória. Recentemente me atrevi e preparei um Bacalhau a Zé do Pipo. Quem é esse tal de Zé? Não tenho ideia. Só posso dizer que o bacalhau dele se tornou o segundo mais queridinho da família.
E se a prosa aqui enveredou pela mesa da nossa cozinha, neste ano, a Campanha da Fraternidade nos convida a olhar para outro tipo de casa: o lar. O tema é “Fraternidade e Moradia” e o lema nos recorda: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). Se Deus escolheu habitar entre nós, como podemos aceitar que tantos irmãos e irmãs ainda não tenham um teto digno?
A Quaresma, então, não é apenas tempo de jejum e oração. É também tempo de compromisso. Porque preparar o coração para a Páscoa significa preparar também o mundo para acolher. Cada pessoa sem moradia é um lembrete de que ainda não aprendemos a receber plenamente Aquele que veio morar entre nós.
Que esta Semana Santa, que se aproxima velozmente, nos ajude a unir memória e ação: recordar os silêncios reverentes da infância, sorrir com a leveza do padre que nos chama a ser embaixadores da fé, saborear o bacalhau que reúne a família, mas também abrir espaço para que todos tenham uma casa, um lar, um lugar de dignidade. Só assim a Páscoa será completa: não apenas celebração da Ressurreição, mas também anúncio de vida nova para todos.







