
Abril chega com sua rotina ingrata: a caça aos recibos. Enquanto a vida acontece além da nossa porta, desaparecemos atrás de uma pilha de papéis, notas fiscais e comprovantes. A maior parte insiste em se esconder. É o mês em que o contribuinte vira detetive, vasculha gavetas e pastas digitais em busca de provas da própria vida financeira.
O desgaste é inevitável. Não há poesia no ato de preencher campos intermináveis, nem encanto em calcular deduções. É chato, cansativo, quase um ritual de penitência anual. Abril, que poderia ser celebração da leveza, se transforma em maratona burocrática.
Este ano não está sendo diferente. Perdi um dia inteiro atrás de recibos que acabei não encontrando. Num beco sem saída, acionei meu lado “Pollyanna Moça”. É que nessa busca insana me vi encantada diante de tesouros guardados em caixas empoeiradas e gavetas entulhadas de coisas. A maior parte eu nem sei por que foram parar ali. Já ouvi que sou acumuladora, que guardo contas de telefone e de energia pagas há anos. Pelo volume aqui, até pode ser, mas …
Nessa busca insana o passaporte vencido surgiu de dentro de uma bolsa como que para confirmar aquilo que em alguns momentos difíceis até eu mesma chego a duvidar: além do Chile, fui, sim, para outros lugares incríveis. Uma confirmação que minhas asas e os meus pés já rodaram muito por esse mundão de meu Deus.
O Chile foi um desses destinos. Nessa caça não programada ao tesouro encontrei a folha de olmo que Mamãe recolheu em um parque de Santiago do Chile. Foi a nossa última viagem. Juntas e maravilhadas percorremos a cidade a pé, com paradas estratégicas em cafeterias cheias de charme. Conhecemos também o Vale Nevado. Foi lá que Mamãe se encantou com os flocos de neve.
Outro destino foi a Vinícola Concha y Toro, lar do lendário Casillero del Diablo: mergulho em uma narrativa que mistura vinho e mito. Lembro como se fosse hoje. Começamos o passeio por jardins impecáveis e seguimos pelas adegas históricas, onde o guia nos contou sobre a lenda criada por Don Melchor. Para proteger seus rótulos, o fundador da vinícola espalhou que o diabo guardava aquelas garrafas. Dito e feito: lenda espalhada, nunca mais alguém ousou roubar uma garrafa sequer. Entre barris de carvalho e corredores de pedra, provamos diferentes vinhos, aprendemos sobre terroir chileno e sentimos o peso da tradição que transformou a marca em uma das mais reconhecidas do país. Retornamos encantadas do Chile.
De volta à realidade e à caça dos documentos, encontrei bilhetinhos delicados, um bálsamo para aplacar dores que em algum momento afligiram minha alma. Alguns traziam mensagens otimistas. Sinalizavam por dias melhores; outros, enviados em datas festivas, encheram meu coração de alegria.
Também encontrei brincos, anéis e pulseiras perdidos, todos protagonistas de festas que ficaram registradas na gavetinha das boas memórias.
Dentro de uma caixa, me deparei com dezenas de cartas escritas pelo tio Walter. Todas endereçadas à minha mãe. Verdadeiros roteiros dos anos 50: relatos da rotina em Belo Horizonte, comentários sobre os filmes em cartaz e impressões dos livros que devorava. Cada página guarda o retrato vivo de uma época, como se fosse um diário compartilhado em forma de correspondência.
E foi assim que abril, com sua ingrata caça aos recibos, acabou me devolvendo algo inesperado: não apenas lembranças, mas a certeza de que entre papéis e gavetas se escondem histórias que nos sustentam. No fim, a burocracia me levou de volta à poesia, aquela que insiste em sobreviver nos detalhes da memória.
Quanto ao Imposto de Renda, depois dessa saga toda descobri que desde o ano passado médicos, dentistas e outros profissionais de saúde já emitem recibos digitais, integrados à Receita Federal. Uma boa notícia: menos papel, menos perda de tempo, menos risco de erro. Abril continua sendo maratona, mas talvez agora com menos tropeços. E eu, entre recibos e lembranças, sigo lembrando que até a burocracia pode abrir frestas para a vida.






