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Do caos ao encanto: um achado

Vovó Cocota com seu caderno de preciosidades dos anos de 1930. Imagem gerada por IA

Quem diria que uma quarta-feira que começou com pia entupida, cozinha molhada e tudo fora do lugar terminaria com um resgate precioso da minha história.

No início, a chegada do bombeiro hidráulico trouxe alívio. Mas logo veio o aviso: para consertar, era preciso encontrar o registro geral. Procura daqui, procura dali e nada de achar o danadinho. Até que, com a maior naturalidade, o moço disse: “Tire tudo dali. Deve estar aí atrás.”

O problema é que o “tire tudo dali” significava remover uma montanha de livros, revistas, sapatos, apostilas e objetos não identificados. Ordem dada, tarefa cumprida. Mexe daqui, mexe dali, sobe na escada, desce da escada e eis que em meio à bagunça, surge uma preciosidade: o Livro de Anotações da Maria Luiza Bicalho.
Essa relíquia herdada da minha querida Vovó Cocota estava guardada sabe-se lá por quanto tempo. Intacta. Nem cheiro de mofo tinha.

O caderno manuscrito é um verdadeiro retrato de época. Os escritos dos anos 1930 e 1940 revelam receitas que ainda hoje estão presentes nas mesas da família, descrições de enxovais, ilustrações feitas pela própria mão da minha avó e muitas referências à religiosidade. Em uma das páginas, ela registra a bênção do Padre José Joaquim de Menezes e agradece a Jesus pela liquidação das prestações da casa, o que se deu, segundo o que está registrado no caderno, em 21 de janeiro de 1939.

Há também receitas próprias para o período de abstinência, traços do machismo da época e registros minuciosos das despesas da “casa do Nenê”, como ela chamava a residência da família. Cada página é um encantamento, um mergulho no passado.

A caligrafia firme, os desenhos delicados e até as contas meticulosamente anotadas revelavam muito mais que o simples cotidiano: eram sinais da força e da sensibilidade de uma mulher que, mesmo sem o protagonismo reservado a poucas de seu tempo, soube registrar sua vida com cuidado e devoção. Cada traço parecia pulsar como se desse voz a uma história silenciosa, mas profundamente presente.

De repente, percebi que aquele achado não era apenas um caderno antigo esquecido no fundo de uma pilha, mas um elo vivo entre gerações. Um testemunho de que nossa memória se constrói nos detalhes, nas receitas repetidas, nos gestos de fé, nas pequenas vitórias do dia a dia, que ao serem preservados, transformam-se em herança afetiva capaz de atravessar décadas e nos lembrar quem somos e de onde viemos.

Ainda sob o impacto da descoberta do caderno, o universo voltou a conspirar a meu favor. É que ontem, durante as minhas incursões aleatórias pelas redes sociais, me deparei com um post sobre comidas que despertam lembranças afetivas. Provocada pelo influencer @caiobrito_oficial, não resisti e deixei um comentário. Contei que os pratos que mais tocam o meu coração são o arroz de forno da Vovó (que, não por acaso, está registrado no caderno) e a torta de amendoim da minha mãe. O resultado? Uma enxurrada (olha eu aqui, de novo, exagerada como na canção do Cazuza) de gente pedindo as receitas.

E quanto à bagunça que tirei do lugar? Ah, isso fica para depois. Agora estou em modo resgate e esse mergulho na memória não tem hora para acabar.

Gisele Bicalho é jornalista e escritora
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