{"id":3067,"date":"2026-07-22T07:58:36","date_gmt":"2026-07-22T10:58:36","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=3067"},"modified":"2026-07-22T07:58:36","modified_gmt":"2026-07-22T10:58:36","slug":"minas-em-risco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=3067","title":{"rendered":"Minas em risco"},"content":{"rendered":"<h2>Barragens de rejeitos de min\u00e9rios e falhas no monitoramento colocam em risco abastecimento de \u00e1gua<\/h2>\n<figure style=\"width: 1650px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"imgNoticias\" title=\" \u00c1rea rural do munic\u00edpio de Brumadinho, atingida pelo rompimento da barragem de rejeitos da Mina C\u00f3rrego do Feij\u00e3o - Foto: Isac N\u00f3brega, a servi\u00e7o da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica\" src=\"https:\/\/www.tce.mg.gov.br\/ImagemDestaque\/1111629023.jpg\" alt=\" \u00c1rea rural do munic\u00edpio de Brumadinho, atingida pelo rompimento da barragem de rejeitos da Mina C\u00f3rrego do Feij\u00e3o - Foto: Isac N\u00f3brega, a servi\u00e7o da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica\" width=\"1650\" height=\"1101\" border=\"0\" data-src=\"https:\/\/www.tce.mg.gov.br\/ImagemDestaque\/1111629023.jpg\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">\u00c1rea rural do munic\u00edpio de Brumadinho, atingida pelo rompimento da barragem de rejeitos da Minha C\u00f3rrego do Feij\u00e3o \u2013 Foto: Isac N\u00f3brega, a servi\u00e7o da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica<\/figcaption><\/figure>\n<p>O estado de Minas Gerais permanece, de forma isolada, como territ\u00f3rio de maior risco associado \u00e0s barragens de rejeitos da minera\u00e7\u00e3o em todo o pa\u00eds. Esse dado est\u00e1 no boletim do <a href=\"https:\/\/www.cedefes.org.br\/das-911-barragens-de-mineracao-no-brasil-319-estao-em-mg-aponta-levantamento-da-ufmg\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Observat\u00f3rio de Barragens de Minera\u00e7\u00e3o da UFMG<\/a>, divulgado em fevereiro deste ano. Ainda segundo o informe, Minas Gerais \u00e9 o estado que concentra sozinho mais barragens do que a soma de outros 16 estados brasileiros, mantendo em sua jurisdi\u00e7\u00e3o 319 das 911 estruturas existentes no Brasil.<\/p>\n<p>Dessas 319 barragens de rejeitos da minera\u00e7\u00e3o, 62 delas, ou seja, 19,4%, est\u00e3o instaladas acima do principal sistema de abastecimento de \u00e1gua da Regi\u00e3o Metropolitana de Belo Horizonte, respons\u00e1vel pelo abastecimento de uma popula\u00e7\u00e3o de cerca seis milh\u00f5es de habitantes, de acordo com estimativas do IBGE.<\/p>\n<p>O principal risco de uma barragem de rejeitos estar localizada acima de uma esta\u00e7\u00e3o (seja de tratamento ou de energia) \u00e9 o chamado \u201cgalgamento\u201dou onda de inunda\u00e7\u00e3o em caso de rompimento. Por gravidade, a lama e os rejeitos atingem a estrutura abaixo em poucos minutos, causando destrui\u00e7\u00e3o total. O risco chega a 1,7 milh\u00f5es de domic\u00edlios particulares.<\/p>\n<div>\u00a0O rompimento da barragem da Mina C\u00f3rrego do Feij\u00e3o, da Vale, em Brumadinho, demonstrou que a \u201c\u00e1rea imediatamente abaixo da barragem (at\u00e9 10 km ou onde o tempo de chegada da onda \u00e9 menor que 30 minutos) define legal e tecnicamente o local de destrui\u00e7\u00e3o total e instant\u00e2nea. Em Brumadinho, instala\u00e7\u00f5es administrativas e estruturas operacionais que ficavam logo abaixo da Barragem B1 foram soterradas em menos de 5 minutos devido \u00e0 acelera\u00e7\u00e3o gravitacional da lama\u201d, de acordo com estudos de <i>Dam Break<\/i> (propaga\u00e7\u00e3o de onda de inunda\u00e7\u00e3o) realizados por pesquisadores da \u00e1rea de Engenharia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e e das Geoci\u00eancias da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).<\/div>\n<div>\n<div class=\"img-caption foto-grid\">\n<div data-after=\"A foto do munic\u00edpio de Resplendor, em MG, exibe lama nas \u00e1guas do Rio Doce ap\u00f3s o rompimento da barragem da Mina C\u00f3rrego do Feij\u00e3o, da Vale. Foto: Fred Loureiro\/Secom ES \"><\/div>\n<figure style=\"width: 1059px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"imagem-destaque \" src=\"https:\/\/www.tce.mg.gov.br\/img\/2026\/Mat%C3%A9rias%20Marcilio\/FL_Lama_Rio.jpg\" alt=\"A foto do munic\u00edpio de Resplendor, em MG, exibe lama nas \u00e1guas do Rio Doce ap\u00f3s o rompimento da barragem da Mina C\u00f3rrego do Feij\u00e3o, da Vale. Foto: Fred Loureiro\/Secom ES \" width=\"1059\" height=\"663\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">A foto do munic\u00edpio de Resplendor, em MG, exibe lama nas \u00e1guas do Rio Doce ap\u00f3s o rompimento da barragem da Mina C\u00f3rrego do Feij\u00e3o, da Vale. Foto: Fred Loureiro\/Secom ES<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<p><b>Tabuleiro de vulnerabilidades<\/b><\/p>\n<p>O Sistema Integrado Rio das Velhas, com capta\u00e7\u00e3o em Bela Fama, em Nova Lima, responde por cerca de 70% do abastecimento de Belo Horizonte e atende cerca de 2,5 milh\u00f5es de moradores da Regi\u00e3o Metropolitana. Por isso, um eventual rompimento de barragem de rejeitos de minera\u00e7\u00e3o teria impactos para al\u00e9m da \u00e1rea diretamente atingida pela lama. Dependendo da estrutura e da extens\u00e3o da mancha de inunda\u00e7\u00e3o, o impacto pode alcan\u00e7ar diferentes estruturas de tratamento de \u00e1gua de Minas Gerais.<\/p>\n<p>A Esta\u00e7\u00e3o de Tratamento de \u00c1gua (ETA) de Bela Fama, um dos pilares de seguran\u00e7a h\u00eddrica da Grande BH, \u00e9 um exemplo. Ela faz parte do Sistema Rio das Velhos e opera, de forma integrada, com o Sistema Paraopeba para compor o Sistema Produtor de \u00c1gua da Regi\u00e3o Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH).<\/p>\n<p>Utilizada pela Copasa para captar a \u00e1gua que abastece grande parte da Regi\u00e3o Metropolitana de Belo Horizonte, Bela Fama \u201cconvive\u201d com uma alta concentra\u00e7\u00e3o de barragens de minera\u00e7\u00e3o. As fiscaliza\u00e7\u00f5es do TCEMG apontaram que qualquer rompimento pode gerar uma mancha de inunda\u00e7\u00e3o que levaria ao desabastecimento de milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>Por ser uma capta\u00e7\u00e3o direta do leito do Rio das Velhas (sem reservat\u00f3rio pr\u00f3prio de acumula\u00e7\u00e3o), a chegada de lama ou rejeitos inviabilizaria o tratamento instantaneamente, repetindo o cen\u00e1rio de colapso que ocorreu em 2019 no Rio Paraopeba (rompimento da Barragem da Mina C\u00f3rrego do Feij\u00e3o, da Vale, em Brumadinho), considerado o maior acidente de trabalho da hist\u00f3ria do Brasil e um dos piores desastres socioambientais do mundo.<\/p>\n<p>A &#8220;qu\u00edmica&#8221; de uma fus\u00e3o entre a alta densidade de estruturas de rejeitos e a proximidade dessas barragens com as esta\u00e7\u00f5es de tratamento de \u00e1guas tem um potencial cr\u00edtico, capaz de transformar Minas Gerais em um tabuleiro de vulnerabilidades e risco: o colapso de uma dessas estruturas geraria um efeito domin\u00f3, capaz de sequestrar a seguran\u00e7a h\u00eddrica e decretar o apag\u00e3o imediato no abastecimento de milh\u00f5es de cidad\u00e3os.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<div class=\"img-caption foto-grid\">\n<div data-after=\"Imagem mostra proximidade entre sistemas de tratamento de \u00e1gua e barragens de rejeitos de min\u00e9rio. Imagem: gerada a partir de ferramenta de IA\"><\/div>\n<figure style=\"width: 1106px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"imagem-destaque \" src=\"https:\/\/www.tce.mg.gov.br\/img\/2026\/Mat%C3%A9rias%20Marcilio\/image_bf8520fa.png\" alt=\"Imagem mostra proximidade entre sistemas de tratamento de \u00e1gua e barragens de rejeitos de min\u00e9rio. Imagem: gerada a partir de ferramenta de IA\" width=\"1106\" height=\"1016\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Imagem mostra a proximidade entre barragens de rejeitos de min\u00e9rios e sistemas de capta\u00e7\u00e3o e tratamento de \u00e1guas. Imagem gerada por IA<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div><b>Clima seco imp\u00f5e riscos<\/b><\/div>\n<p>A auditoria identificou um aspecto que costuma passar despercebido: os efeitos da estiagem prolongada tamb\u00e9m afetam a seguran\u00e7a das barragens e pilhas de rejeitos de min\u00e9rios. Relat\u00f3rios t\u00e9cnicos analisados pelo TCEMG registraram ocorr\u00eancias como trincas, sismos, eros\u00f5es e escorregamentos em barragens monitoradas ap\u00f3s eventos clim\u00e1ticos extremos.<\/p>\n<div>Com a redu\u00e7\u00e3o prolongada da umidade, o solo e os materiais que comp\u00f5em as estruturas de reten\u00e7\u00e3o de rejeitos de min\u00e9rios podem sofrer retra\u00e7\u00e3o, favorecendo o surgimento de fissuras e modificando o comportamento da infiltra\u00e7\u00e3o de \u00e1gua na estrutura. Essas altera\u00e7\u00f5es exigem inspe\u00e7\u00f5es espec\u00edficas e monitoramento diferenciado, pois podem comprometer a estabilidade da barragem caso n\u00e3o sejam identificadas e corrigidas a tempo.<\/div>\n<p>Durante entrevistas realizadas pelos auditores e auditoras do TCEMG, representantes da Funda\u00e7\u00e3o Estadual do Meio Ambiente (Feam) afirmaram que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas n\u00e3o alterariam de forma significativa a seguran\u00e7a da maior parte das barragens, argumentando que essas estruturas &#8220;j\u00e1 sofreram esse impacto&#8221; em outros per\u00edodos.<\/p>\n<div>Mas a conclus\u00e3o apresentada no relat\u00f3rio do TCEMG vai em sentido oposto. O risco \u00e9 iminente e alto. A partir de conversas com ambientalistas e pesquisadores, que t\u00eam se dedicado a compreender e estudar barragens e pilhas de rejeitos. A conclus\u00e3o \u00e9 que essas estruturas n\u00e3o possuem sistema de drenagem adequado para aguentar chuvas extremas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A orienta\u00e7\u00e3o do TCEMG dialoga com a an\u00e1lise da soci\u00f3loga Leila da Costa Ferreira, professora na Unicamp e pesquisadora de pol\u00edticas ambientais. Ao discutir os desafios impostos pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, ela questiona se as a\u00e7\u00f5es implementadas pelo poder p\u00fablico s\u00e3o capazes de produzir mudan\u00e7as efetivas ou se permanecem como &#8220;meros paliativos&#8221;, mantendo um modelo insuficiente para enfrentar os problemas ambientais.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os registros t\u00e9cnicos reunidos pela auditoria operacional do TCEMG indicam a necessidade de acompanhamento diferenciado ap\u00f3s estiagens prolongadas e chuvas excepcionais. A auditoria concluiu que a Feam n\u00e3o disp\u00f5e de protocolos espec\u00edficos para orientar inspe\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias depois de eventos clim\u00e1ticos extremos. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 diretrizes claras para avaliar os efeitos desses eventos sobre barragens consideradas cr\u00edticas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>Alertas silenciosos<\/b><\/div>\n<p>As fragilidades apontadas pela auditoria do TCEMG tamb\u00e9m recaem sobre a atua\u00e7\u00e3o do Instituto Mineiro de Gest\u00e3o das \u00c1guas (Igam). A auditoria identificou limita\u00e7\u00f5es na rede estadual de monitoramento hidrometeorol\u00f3gico, al\u00e9m da necessidade de manuten\u00e7\u00e3o mais regular das esta\u00e7\u00f5es que monitoram chuvas, n\u00edveis de rios e outros indicadores ambientais. No Sul de Minas, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais preocupante. J\u00e1 no Tri\u00e2ngulo Mineiro, h\u00e1 iniciativas para a instala\u00e7\u00e3o dos equipamentos.<\/p>\n<div>\u00a0As limita\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m alcan\u00e7am a comunica\u00e7\u00e3o entre \u00f3rg\u00e3os estaduais e municipais. Segundo a auditoria, o fluxo de informa\u00e7\u00f5es entre o Igam e a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil, assim como entre a Cedec, suas regionais e as defesas civis municipais, ocorrem principalmente por meio de grupos de WhatsApp e outros canais informais.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O problema n\u00e3o est\u00e1 no uso do aplicativo, mas na aus\u00eancia de um protocolo de comunica\u00e7\u00e3o oficial e institucionalizado, que pode levar ao risco de colapso todo o sistema de comunica\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia do estado em momentos cr\u00edticos, comprometendo a capacidade de resposta dos \u00f3rg\u00e3os de prote\u00e7\u00e3o e defesa civil. Al\u00e9m disso, observou-se aus\u00eancia de avalia\u00e7\u00e3o e controle sobre efetividade dos alertas emitidos pela Cedec, ou seja, se o alerta chegou ao destinat\u00e1rio, se foi compreendido e se gerou alguma resposta. Em uma emerg\u00eancia, apenas enviar uma mensagem n\u00e3o \u00e9 garantia de comunica\u00e7\u00e3o efetiva.<\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<div>Fonte: TCEMG<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Barragens de rejeitos de min\u00e9rios e falhas no monitoramento colocam em risco abastecimento de \u00e1gua O estado de Minas Gerais permanece, de forma isolada, como territ\u00f3rio de maior risco associado \u00e0s barragens de rejeitos da minera\u00e7\u00e3o em todo o pa\u00eds. Esse dado est\u00e1 no boletim do Observat\u00f3rio de Barragens de Minera\u00e7\u00e3o da UFMG, divulgado em fevereiro deste ano. Ainda segundo o informe, Minas Gerais \u00e9 o estado que concentra sozinho mais barragens do que a soma de outros 16 estados brasileiros, mantendo em sua jurisdi\u00e7\u00e3o 319 das 911 estruturas existentes no Brasil. Dessas 319 barragens de rejeitos da minera\u00e7\u00e3o, 62 delas, ou seja, 19,4%, est\u00e3o instaladas acima do principal sistema de abastecimento de \u00e1gua da Regi\u00e3o Metropolitana de Belo Horizonte, respons\u00e1vel pelo abastecimento de uma popula\u00e7\u00e3o de cerca seis milh\u00f5es de habitantes, de acordo com estimativas do IBGE. O principal risco de uma barragem de rejeitos estar localizada acima de uma esta\u00e7\u00e3o (seja de tratamento ou de energia) \u00e9 o chamado \u201cgalgamento\u201dou onda de inunda\u00e7\u00e3o em caso de rompimento. Por gravidade, a lama e os rejeitos atingem a estrutura abaixo em poucos minutos, causando destrui\u00e7\u00e3o total. O risco chega a 1,7 milh\u00f5es de domic\u00edlios particulares. \u00a0O rompimento da barragem da Mina C\u00f3rrego do Feij\u00e3o, da Vale, em Brumadinho, demonstrou que a \u201c\u00e1rea imediatamente abaixo da barragem (at\u00e9 10 km ou onde o tempo de chegada da onda \u00e9 menor que 30 minutos) define legal e tecnicamente o local de destrui\u00e7\u00e3o total e instant\u00e2nea. Em Brumadinho, instala\u00e7\u00f5es administrativas e estruturas operacionais que ficavam logo abaixo da Barragem B1 foram soterradas em menos de 5 minutos devido \u00e0 acelera\u00e7\u00e3o gravitacional da lama\u201d, de acordo com estudos de Dam Break (propaga\u00e7\u00e3o de onda de inunda\u00e7\u00e3o) realizados por pesquisadores da \u00e1rea de Engenharia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e e das Geoci\u00eancias da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Tabuleiro de vulnerabilidades O Sistema Integrado Rio das Velhas, com capta\u00e7\u00e3o em Bela Fama, em Nova Lima, responde por cerca de 70% do abastecimento de Belo Horizonte e atende cerca de 2,5 milh\u00f5es de moradores da Regi\u00e3o Metropolitana. Por isso, um eventual rompimento de barragem de rejeitos de minera\u00e7\u00e3o teria impactos para al\u00e9m da \u00e1rea diretamente atingida pela lama. Dependendo da estrutura e da extens\u00e3o da mancha de inunda\u00e7\u00e3o, o impacto pode alcan\u00e7ar diferentes estruturas de tratamento de \u00e1gua de Minas Gerais. A Esta\u00e7\u00e3o de Tratamento de \u00c1gua (ETA) de Bela Fama, um dos pilares de seguran\u00e7a h\u00eddrica da Grande BH, \u00e9 um exemplo. Ela faz parte do Sistema Rio das Velhos e opera, de forma integrada, com o Sistema Paraopeba para compor o Sistema Produtor de \u00c1gua da Regi\u00e3o Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). Utilizada pela Copasa para captar a \u00e1gua que abastece grande parte da Regi\u00e3o Metropolitana de Belo Horizonte, Bela Fama \u201cconvive\u201d com uma alta concentra\u00e7\u00e3o de barragens de minera\u00e7\u00e3o. As fiscaliza\u00e7\u00f5es do TCEMG apontaram que qualquer rompimento pode gerar uma mancha de inunda\u00e7\u00e3o que levaria ao desabastecimento de milh\u00f5es de pessoas. Por ser uma capta\u00e7\u00e3o direta do leito do Rio das Velhas (sem reservat\u00f3rio pr\u00f3prio de acumula\u00e7\u00e3o), a chegada de lama ou rejeitos inviabilizaria o tratamento instantaneamente, repetindo o cen\u00e1rio de colapso que ocorreu em 2019 no Rio Paraopeba (rompimento da Barragem da Mina C\u00f3rrego do Feij\u00e3o, da Vale, em Brumadinho), considerado o maior acidente de trabalho da hist\u00f3ria do Brasil e um dos piores desastres socioambientais do mundo. A &#8220;qu\u00edmica&#8221; de uma fus\u00e3o entre a alta densidade de estruturas de rejeitos e a proximidade dessas barragens com as esta\u00e7\u00f5es de tratamento de \u00e1guas tem um potencial cr\u00edtico, capaz de transformar Minas Gerais em um tabuleiro de vulnerabilidades e risco: o colapso de uma dessas estruturas geraria um efeito domin\u00f3, capaz de sequestrar a seguran\u00e7a h\u00eddrica e decretar o apag\u00e3o imediato no abastecimento de milh\u00f5es de cidad\u00e3os. Clima seco imp\u00f5e riscos A auditoria identificou um aspecto que costuma passar despercebido: os efeitos da estiagem prolongada tamb\u00e9m afetam a seguran\u00e7a das barragens e pilhas de rejeitos de min\u00e9rios. Relat\u00f3rios t\u00e9cnicos analisados pelo TCEMG registraram ocorr\u00eancias como trincas, sismos, eros\u00f5es e escorregamentos em barragens monitoradas ap\u00f3s eventos clim\u00e1ticos extremos. Com a redu\u00e7\u00e3o prolongada da umidade, o solo e os materiais que comp\u00f5em as estruturas de reten\u00e7\u00e3o de rejeitos de min\u00e9rios podem sofrer retra\u00e7\u00e3o, favorecendo o surgimento de fissuras e modificando o comportamento da infiltra\u00e7\u00e3o de \u00e1gua na estrutura. Essas altera\u00e7\u00f5es exigem inspe\u00e7\u00f5es espec\u00edficas e monitoramento diferenciado, pois podem comprometer a estabilidade da barragem caso n\u00e3o sejam identificadas e corrigidas a tempo. Durante entrevistas realizadas pelos auditores e auditoras do TCEMG, representantes da Funda\u00e7\u00e3o Estadual do Meio Ambiente (Feam) afirmaram que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas n\u00e3o alterariam de forma significativa a seguran\u00e7a da maior parte das barragens, argumentando que essas estruturas &#8220;j\u00e1 sofreram esse impacto&#8221; em outros per\u00edodos. Mas a conclus\u00e3o apresentada no relat\u00f3rio do TCEMG vai em sentido oposto. O risco \u00e9 iminente e alto. A partir de conversas com ambientalistas e pesquisadores, que t\u00eam se dedicado a compreender e estudar barragens e pilhas de rejeitos. A conclus\u00e3o \u00e9 que essas estruturas n\u00e3o possuem sistema de drenagem adequado para aguentar chuvas extremas. A orienta\u00e7\u00e3o do TCEMG dialoga com a an\u00e1lise da soci\u00f3loga Leila da Costa Ferreira, professora na Unicamp e pesquisadora de pol\u00edticas ambientais. Ao discutir os desafios impostos pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, ela questiona se as a\u00e7\u00f5es implementadas pelo poder p\u00fablico s\u00e3o capazes de produzir mudan\u00e7as efetivas ou se permanecem como &#8220;meros paliativos&#8221;, mantendo um modelo insuficiente para enfrentar os problemas ambientais. Os registros t\u00e9cnicos reunidos pela auditoria operacional do TCEMG indicam a necessidade de acompanhamento diferenciado ap\u00f3s estiagens prolongadas e chuvas excepcionais. A auditoria concluiu que a Feam n\u00e3o disp\u00f5e de protocolos espec\u00edficos para orientar inspe\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias depois de eventos clim\u00e1ticos extremos. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 diretrizes claras para avaliar os efeitos desses eventos sobre barragens consideradas cr\u00edticas. Alertas silenciosos As fragilidades apontadas pela auditoria do TCEMG tamb\u00e9m recaem sobre a atua\u00e7\u00e3o do Instituto Mineiro de Gest\u00e3o das \u00c1guas (Igam). A auditoria identificou limita\u00e7\u00f5es na rede estadual de monitoramento hidrometeorol\u00f3gico, al\u00e9m da necessidade de manuten\u00e7\u00e3o mais regular das esta\u00e7\u00f5es que monitoram<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3068,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[342,35,11,12,90,341],"tags":[688,689,690],"class_list":["post-3067","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-meio-ambiente","category-minas-gerais","category-politica","category-regional","category-seguranca","category-social","tag-barragem-de-rejeitos","tag-brumadinho","tag-mina-corrego-do-feijao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3067","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3067"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3067\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3069,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3067\/revisions\/3069"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3068"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3067"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3067"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3067"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}