{"id":3057,"date":"2026-07-17T15:56:32","date_gmt":"2026-07-17T18:56:32","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=3057"},"modified":"2026-07-17T15:56:32","modified_gmt":"2026-07-17T18:56:32","slug":"entre-herois-e-anti-herois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=3057","title":{"rendered":"Entre her\u00f3is e anti-her\u00f3is"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-3058 alignnone\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/menino-maluquinho-262x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"833\" height=\"954\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/menino-maluquinho-262x300.jpeg 262w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/menino-maluquinho-768x881.jpeg 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/menino-maluquinho.jpeg 893w\" sizes=\"(max-width: 833px) 100vw, 833px\" \/><\/p>\n<p>Na inf\u00e2ncia, eu acreditava que o mundo era uma ilha. Robinson Cruso\u00e9, com sua engenhosidade e coragem, ensinava-me que bastava uma mente criativa e duas m\u00e3os firmes para reinventar a vida. Ele erguia cabanas, domava a solid\u00e3o, fazia da areia e do mar um territ\u00f3rio poss\u00edvel. Era o her\u00f3i que enfrentava o desconhecido, e eu, menina, acreditava que bastava ser forte para sobreviver.<\/p>\n<p>Mas a vida adulta me mostrou que n\u00e3o vivemos em ilhas. Nas p\u00e1ginas de <em>As Vinhas da Ira<\/em>, John Steinbeck apresentou-me fam\u00edlias inteiras expulsas da terra, caminhando sob o sol da injusti\u00e7a. Ali n\u00e3o havia cabanas erguidas com destreza, mas barracos improvisados, fome repartida, esperan\u00e7as divididas. Tom Joad n\u00e3o era um her\u00f3i no sentido cl\u00e1ssico: era um homem comum, carregando nos ombros a dor coletiva. E foi nesse peso compartilhado que descobri a verdadeira grandeza.<\/p>\n<p>Robinson Cruso\u00e9 morava na estante l\u00e1 de casa. N\u00e3o era apenas um livro: era uma heran\u00e7a, passada da inf\u00e2ncia da nossa m\u00e3e para os seus irm\u00e3os, como quem transmite um segredo precioso. Mam\u00e3e, leitora voraz, parecia se alimentar de literatura. E talvez tenha sido desse apetite que nasceu o meu amor pelos livros. Detalhe importante: mam\u00e3e guardava como um tesouro precioso <em>E o Vento Levou<\/em>, presente do nosso pai. Acredito que o Velho Osvaldo via nela uma Scarlett O\u2019Hara, a hero\u00edna da obra de Margaret Mitchell. Mas isso j\u00e1 \u00e9 outra hist\u00f3ria. Conto depois.<\/p>\n<p>Voltando ao xis da quest\u00e3o, n\u00e3o pensem que l\u00e1 em casa todos cultuavam os livros. Um dos meus irm\u00e3os, cujo nome \u00e9 melhor n\u00e3o revelar (se \u00e9 que voc\u00eas me entendem), n\u00e3o era exatamente um devorador de p\u00e1ginas. S\u00f3 uma obra conseguiu virar nele a chave do conhecimento. E, embora nunca admitisse, deixou escapar o encantamento por <em>O Menino Maluquinho<\/em>, do Ziraldo. Como a gente descobriu? Uai! Todos os dias, ao chegar da escola, jogava a pasta pela janela, gesto id\u00eantico ao do personagem que deu nome \u00e0 obra desse mineiro de Caratinga.<\/p>\n<p>Mas, Gisele, o tal menino n\u00e3o tinha nome? N\u00e3o tinha, n\u00e3o. Era sempre chamado apenas de \u201cmenino maluquinho\u201d. \u00c9 como se o apelido fosse sua identidade. A panela na cabe\u00e7a, o casaco grande e os sapatos largos viraram sua marca registrada. Ziraldo nunca precisou lhe dar um nome formal, justamente para que qualquer crian\u00e7a pudesse se reconhecer nele. Como meu irm\u00e3o.<\/p>\n<p>Quanto a mim, diferentemente desse \u201cmenino maluquinho\u201d, na inf\u00e2ncia e na adolesc\u00eancia devorei os cl\u00e1ssicos que brotavam da nossa biblioteca dom\u00e9stica. Havia tamb\u00e9m outras tr\u00eas espalhadas por Concei\u00e7\u00e3o do Par\u00e1. A cidade, pequena no mapa, era imensa em p\u00e1ginas. Havia a biblioteca da E. E. Dr. Isauro Epif\u00e2nio \u2014 que anos depois recebeu o nome da nossa m\u00e3e \u2014, a municipal e uma terceira, deixada como legado por um padre generoso.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se resistiram ao tempo, mas naqueles dias eram abrigo certo para minha curiosidade, templos silenciosos onde aprendi que o mundo cabia dentro de um livro. Agora adulta, percebo que o impacto dessas obras \u00e9 outro: h\u00e1 um novo olhar, uma releitura que se abre como varia\u00e7\u00f5es sobre o mesmo tema. Quanto a <em>As Vinhas da Ira<\/em>, reli recentemente, um presente do amigo Paulo Marcelo, que tem lugar de honra na minha biblioteca. E, ao reler esse cl\u00e1ssico, descobri que cada idade nos devolve um livro diferente. Como se a obra se reinventasse junto com quem a l\u00ea.<\/p>\n<p>Atualmente ando encantada com a obra de Socorro Acioli. <em>Ora\u00e7\u00e3o para Desaparecer<\/em>, de que gostei mais do que <em>Cabe\u00e7a de Santo<\/em>, est\u00e1 se tornando o meu mais novo livro preferido da vida. Veio fazer companhia a <em>A Guerra do Fim do Mundo<\/em>, de Mario Vargas Llosa, e a <em>As Vinhas da Ira<\/em>, de Steinbeck.<\/p>\n<p>Essas reflex\u00f5es voltaram com for\u00e7a quando assisti a um v\u00eddeo de Vinicio Souza, criador do @paginasdemisterio. O influenciador reproduzia um recorte de uma entrevista de Emmanuel Macron, na qual o presidente franc\u00eas falava sobre os personagens liter\u00e1rios com os quais se identifica. Macron transitou por Stendhal, atento \u00e0s paix\u00f5es humanas, pelos her\u00f3is de Alexandre Dumas, e concluiu que os anti-her\u00f3is de Flaubert s\u00e3o os mais inspiradores.<\/p>\n<p>E percebi que h\u00e1 um fio que nos une: da ilha de Cruso\u00e9 \u00e0s estradas poeirentas de Steinbeck, dos sal\u00f5es de Stendhal \u00e0s aventuras de Dumas, at\u00e9 a ironia amarga de Flaubert. Todos esses personagens \u2014 her\u00f3is, anti-her\u00f3is, antagonistas \u2014 s\u00e3o espelhos de nossas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No cotidiano, os anti-her\u00f3is nos lembram que a vida n\u00e3o \u00e9 feita de \u00e9picos, mas de imperfei\u00e7\u00f5es. H\u00e1 muitos exemplos nesse vasto mundo da literatura. Br\u00e1s Cubas, por exemplo, com sua ironia p\u00f3s-morte, mostra-nos que at\u00e9 o fracasso pode ser narrado com humor e lucidez. E Macab\u00e9a, de Clarice Lispector, revela a invisibilidade de tantas vidas comuns, lembrando que o sil\u00eancio tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Hoje entendo que minha trajet\u00f3ria de leitora reflete a pr\u00f3pria travessia da vida. Na inf\u00e2ncia, buscamos o her\u00f3i solit\u00e1rio, porque precisamos acreditar que podemos enfrentar o mundo sozinhos. Na maturidade, reconhecemos que somos feitos de v\u00ednculos, que a sobreviv\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 apenas na engenhosidade individual, mas na solidariedade que nos sustenta.<\/p>\n<p>Robinson me ensinou a resistir. Tom Joad me ensinou a permanecer. Br\u00e1s Cubas e Macab\u00e9a lembram-me de que ser humano \u00e9 carregar contradi\u00e7\u00f5es \u2014 e que nelas reside a beleza da literatura e da vida.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2467\" aria-describedby=\"caption-attachment-2467\" style=\"width: 814px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-2467\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-300x140.png\" alt=\"\" width=\"814\" height=\"380\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-300x140.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-768x359.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888.png 994w\" sizes=\"(max-width: 814px) 100vw, 814px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2467\" class=\"wp-caption-text\">Gisele Bicalho \u00e9 jornalista e escritora<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na inf\u00e2ncia, eu acreditava que o mundo era uma ilha. 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N\u00e3o era apenas um livro: era uma heran\u00e7a, passada da inf\u00e2ncia da nossa m\u00e3e para os seus irm\u00e3os, como quem transmite um segredo precioso. Mam\u00e3e, leitora voraz, parecia se alimentar de literatura. E talvez tenha sido desse apetite que nasceu o meu amor pelos livros. Detalhe importante: mam\u00e3e guardava como um tesouro precioso E o Vento Levou, presente do nosso pai. Acredito que o Velho Osvaldo via nela uma Scarlett O\u2019Hara, a hero\u00edna da obra de Margaret Mitchell. Mas isso j\u00e1 \u00e9 outra hist\u00f3ria. Conto depois. Voltando ao xis da quest\u00e3o, n\u00e3o pensem que l\u00e1 em casa todos cultuavam os livros. Um dos meus irm\u00e3os, cujo nome \u00e9 melhor n\u00e3o revelar (se \u00e9 que voc\u00eas me entendem), n\u00e3o era exatamente um devorador de p\u00e1ginas. S\u00f3 uma obra conseguiu virar nele a chave do conhecimento. E, embora nunca admitisse, deixou escapar o encantamento por O Menino Maluquinho, do Ziraldo. Como a gente descobriu? Uai! Todos os dias, ao chegar da escola, jogava a pasta pela janela, gesto id\u00eantico ao do personagem que deu nome \u00e0 obra desse mineiro de Caratinga. Mas, Gisele, o tal menino n\u00e3o tinha nome? N\u00e3o tinha, n\u00e3o. Era sempre chamado apenas de \u201cmenino maluquinho\u201d. \u00c9 como se o apelido fosse sua identidade. A panela na cabe\u00e7a, o casaco grande e os sapatos largos viraram sua marca registrada. Ziraldo nunca precisou lhe dar um nome formal, justamente para que qualquer crian\u00e7a pudesse se reconhecer nele. Como meu irm\u00e3o. Quanto a mim, diferentemente desse \u201cmenino maluquinho\u201d, na inf\u00e2ncia e na adolesc\u00eancia devorei os cl\u00e1ssicos que brotavam da nossa biblioteca dom\u00e9stica. Havia tamb\u00e9m outras tr\u00eas espalhadas por Concei\u00e7\u00e3o do Par\u00e1. A cidade, pequena no mapa, era imensa em p\u00e1ginas. Havia a biblioteca da E. E. Dr. Isauro Epif\u00e2nio \u2014 que anos depois recebeu o nome da nossa m\u00e3e \u2014, a municipal e uma terceira, deixada como legado por um padre generoso. N\u00e3o sei se resistiram ao tempo, mas naqueles dias eram abrigo certo para minha curiosidade, templos silenciosos onde aprendi que o mundo cabia dentro de um livro. Agora adulta, percebo que o impacto dessas obras \u00e9 outro: h\u00e1 um novo olhar, uma releitura que se abre como varia\u00e7\u00f5es sobre o mesmo tema. Quanto a As Vinhas da Ira, reli recentemente, um presente do amigo Paulo Marcelo, que tem lugar de honra na minha biblioteca. E, ao reler esse cl\u00e1ssico, descobri que cada idade nos devolve um livro diferente. Como se a obra se reinventasse junto com quem a l\u00ea. Atualmente ando encantada com a obra de Socorro Acioli. Ora\u00e7\u00e3o para Desaparecer, de que gostei mais do que Cabe\u00e7a de Santo, est\u00e1 se tornando o meu mais novo livro preferido da vida. Veio fazer companhia a A Guerra do Fim do Mundo, de Mario Vargas Llosa, e a As Vinhas da Ira, de Steinbeck. Essas reflex\u00f5es voltaram com for\u00e7a quando assisti a um v\u00eddeo de Vinicio Souza, criador do @paginasdemisterio. O influenciador reproduzia um recorte de uma entrevista de Emmanuel Macron, na qual o presidente franc\u00eas falava sobre os personagens liter\u00e1rios com os quais se identifica. Macron transitou por Stendhal, atento \u00e0s paix\u00f5es humanas, pelos her\u00f3is de Alexandre Dumas, e concluiu que os anti-her\u00f3is de Flaubert s\u00e3o os mais inspiradores. E percebi que h\u00e1 um fio que nos une: da ilha de Cruso\u00e9 \u00e0s estradas poeirentas de Steinbeck, dos sal\u00f5es de Stendhal \u00e0s aventuras de Dumas, at\u00e9 a ironia amarga de Flaubert. Todos esses personagens \u2014 her\u00f3is, anti-her\u00f3is, antagonistas \u2014 s\u00e3o espelhos de nossas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es. No cotidiano, os anti-her\u00f3is nos lembram que a vida n\u00e3o \u00e9 feita de \u00e9picos, mas de imperfei\u00e7\u00f5es. H\u00e1 muitos exemplos nesse vasto mundo da literatura. Br\u00e1s Cubas, por exemplo, com sua ironia p\u00f3s-morte, mostra-nos que at\u00e9 o fracasso pode ser narrado com humor e lucidez. E Macab\u00e9a, de Clarice Lispector, revela a invisibilidade de tantas vidas comuns, lembrando que o sil\u00eancio tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de resist\u00eancia. Hoje entendo que minha trajet\u00f3ria de leitora reflete a pr\u00f3pria travessia da vida. Na inf\u00e2ncia, buscamos o her\u00f3i solit\u00e1rio, porque precisamos acreditar que podemos enfrentar o mundo sozinhos. Na maturidade, reconhecemos que somos feitos de v\u00ednculos, que a sobreviv\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 apenas na engenhosidade individual, mas na solidariedade que nos sustenta. Robinson me ensinou a resistir. Tom Joad me ensinou a permanecer. 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