{"id":3043,"date":"2026-07-10T19:39:30","date_gmt":"2026-07-10T22:39:30","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=3043"},"modified":"2026-07-10T19:39:30","modified_gmt":"2026-07-10T22:39:30","slug":"3043","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=3043","title":{"rendered":""},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-3044 alignnone\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/ChatGPT-Image-10-de-jul.-de-2026-11_52_06-1024x683-1-300x200.png\" alt=\"\" width=\"951\" height=\"634\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/ChatGPT-Image-10-de-jul.-de-2026-11_52_06-1024x683-1-300x200.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/ChatGPT-Image-10-de-jul.-de-2026-11_52_06-1024x683-1-768x512.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/ChatGPT-Image-10-de-jul.-de-2026-11_52_06-1024x683-1-150x100.png 150w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/ChatGPT-Image-10-de-jul.-de-2026-11_52_06-1024x683-1-330x220.png 330w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/ChatGPT-Image-10-de-jul.-de-2026-11_52_06-1024x683-1-420x280.png 420w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/ChatGPT-Image-10-de-jul.-de-2026-11_52_06-1024x683-1-510x340.png 510w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/ChatGPT-Image-10-de-jul.-de-2026-11_52_06-1024x683-1.png 1024w\" sizes=\"(max-width: 951px) 100vw, 951px\" \/><\/p>\n<p>Para fugir da dureza do mundo real tenho abstra\u00eddo com mais frequ\u00eancia que o habitual. H\u00e1 poucos dias, por exemplo, sonhei que estava em T\u00f3quio. A rua, com v\u00e1rias cerejeiras em flor, era ladeada por um rio. Nesse sonho eu n\u00e3o estava s\u00f3. Ao meu lado o estava ator Kim Seon Ho, um querido. T\u00e1 bom! Eu confesso. Ele \u00e9, sim, meu crush.<\/p>\n<p>No sonho, caminh\u00e1vamos sem pressa em dire\u00e7\u00e3o ao Caf\u00e9 Marble. O futuro parecia suspenso. Era como se n\u00e3o houvesse nada al\u00e9m daquele instante. A associa\u00e7\u00e3o com o ator talvez tenha vindo de Bonjour Bakery. Nesse reality, Kim Seon Ho atua como barista em uma cafeteria criada para acolher moradores idosos de uma pequena cidade do interior da Coreia do Sul. As cenas fofas transmitem acolhimento e leveza.<\/p>\n<p>Detalhe importante: o cen\u00e1rio do meu sonho n\u00e3o era a cafeteria do reality: era a mesma descrita em \u201cChocolate quente \u00e0s quintas-feiras\u201d, livro da safra da escritora Michiko Aoyama. N\u00e3o por acaso, li esse livro despretensioso durante uma viagem recente a Bras\u00edlia. Estava t\u00e3o mergulhada na leitura que chamei a aten\u00e7\u00e3o da comiss\u00e1ria de bordo.<\/p>\n<p>&#8211; Esse livro \u00e9 bom? \u2013 Quis saber a mo\u00e7a, confessando que j\u00e1 ter se interessado pela obra na livraria do aeroporto. Mas desconfio que o motivo era outro. Naquele voo lotado talvez eu fosse a \u00fanica passageira lendo algo que n\u00e3o fosse a tela do celular. E isso certamente chamou a aten\u00e7\u00e3o dela.<\/p>\n<p>Voltando ao ponto de partida, tudo estava indo muito bem at\u00e9 que aconteceu o inesperado. Antes que entr\u00e1ssemos na cafeteria o sonho acabou. Despertei com os latidos do Niki. Ele, com sua urg\u00eancia de c\u00e3o, me puxou de volta ao cotidiano. Os latidos ecoaram como contraponto \u00e0quele cen\u00e1rio id\u00edlico. Era o som da realidade batendo \u00e0 porta.<\/p>\n<p>Eu nem havia despertado direito e l\u00e1 veio aquela pulguinha que insiste em me cutucar atr\u00e1s da minha orelha. O que significaria esse sonho? Foi ai que me lembrei do livro de interpreta\u00e7\u00f5es, nosso antigo or\u00e1culo familiar, que hoje repousa em uma das nossas estantes. Caiu no esquecimento porque hoje raramente sonho. Talvez seja efeito do zolpidem. Mas quando um devaneio vence o medicamento, como nesse passeio com Kim Seon Ho, sinto que h\u00e1 algo pedindo para ser decifrado.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o estou me prometendo que ainda nessa semana (ou na pr\u00f3xima, quem sabe?) vou garimpar o or\u00e1culo na estante empoeirada. Quero descobrir o que h\u00e1 por tr\u00e1s desse sonho que mistura leitura recente com o trabalho de um ator que admiro.<\/p>\n<p>Mas, voc\u00eas me conhecem. Como n\u00e3o sei esperar, dominada pela ansiedade que me consome e me traduz, fiz uma consulta r\u00e1pida \u00e0 Intelig\u00eancia Artificial. A \u201csabe tudo\u201d desse vasto mundo cibern\u00e9tico diz que esse meu sonho revela a necessidade de criar espa\u00e7os internos de pausa, onde o tempo se suspende e a vida se mostra em sua delicadeza. Caminhar entre cerejeiras ao lado de algu\u00e9m que simboliza acolhimento \u00e9 um lembrete de que mesmo em meio \u00e0 dureza ainda h\u00e1 beleza e companhia dentro de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Errada a IA n\u00e3o est\u00e1. Ponto pra ela. E para concluir, o or\u00e1culo dos novos tempos ainda diz que o despertar abrupto pelos latidos do Niki mostra o contraste inevit\u00e1vel entre devaneio e realidade. Talvez o sentido esteja justamente a\u00ed: os sonhos n\u00e3o s\u00e3o apenas mensagens a decifrar; podem ser convites para a gente refletir sobre o que nos falta ou desejamos cultivar. Entre o p\u00f3 das p\u00e1ginas e o som da vida chamando de volta, permanece a certeza de que sonhar \u00e9 resist\u00eancia, um gesto \u00edntimo que nos devolve ao essencial: esperan\u00e7a, poesia e a lembran\u00e7a de que sempre h\u00e1 flores esperando para desabrochar.<\/p>\n<p>Pensando bem, apesar de n\u00e3o ser real, nem tudo est\u00e1 perdido. Se eu nunca conseguir desfilar por alamedas floridas com o meu crush, o mais perto que chego desse sonho \u00e9 visitar o encantador Jardim de Cerejeiras do Sr. Haruji Miura. Criado pelo imigrante japon\u00eas, o espa\u00e7o fica pertinho de Beag\u00e1. As primeiras mudas vieram de Okinawa e se deram muito bem nas montanhas mineiras. Ap\u00f3s o falecimento do senhor Miura, em 2025, aos 97 anos, seu legado continua firme. As cerejeiras seguem vivas, atraindo visitantes curiosos e rom\u00e2nticos frustrados como eu. O Morro do Chap\u00e9u vira espet\u00e1culo na flora\u00e7\u00e3o, entre o fim do inverno e o in\u00edcio da primavera. At\u00e9 l\u00e1, s\u00f3 me resta sonhar e rir da ironia de ter um crush imagin\u00e1rio e um jardim real.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2467\" aria-describedby=\"caption-attachment-2467\" style=\"width: 819px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-2467\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-300x140.png\" alt=\"\" width=\"819\" height=\"382\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-300x140.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-768x359.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888.png 994w\" sizes=\"(max-width: 819px) 100vw, 819px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2467\" class=\"wp-caption-text\">Gisele Bicalho \u00e9 jornalista e escritora<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para fugir da dureza do mundo real tenho abstra\u00eddo com mais frequ\u00eancia que o habitual. 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N\u00e3o por acaso, li esse livro despretensioso durante uma viagem recente a Bras\u00edlia. Estava t\u00e3o mergulhada na leitura que chamei a aten\u00e7\u00e3o da comiss\u00e1ria de bordo. &#8211; Esse livro \u00e9 bom? \u2013 Quis saber a mo\u00e7a, confessando que j\u00e1 ter se interessado pela obra na livraria do aeroporto. Mas desconfio que o motivo era outro. Naquele voo lotado talvez eu fosse a \u00fanica passageira lendo algo que n\u00e3o fosse a tela do celular. E isso certamente chamou a aten\u00e7\u00e3o dela. Voltando ao ponto de partida, tudo estava indo muito bem at\u00e9 que aconteceu o inesperado. Antes que entr\u00e1ssemos na cafeteria o sonho acabou. Despertei com os latidos do Niki. Ele, com sua urg\u00eancia de c\u00e3o, me puxou de volta ao cotidiano. Os latidos ecoaram como contraponto \u00e0quele cen\u00e1rio id\u00edlico. Era o som da realidade batendo \u00e0 porta. Eu nem havia despertado direito e l\u00e1 veio aquela pulguinha que insiste em me cutucar atr\u00e1s da minha orelha. O que significaria esse sonho? Foi ai que me lembrei do livro de interpreta\u00e7\u00f5es, nosso antigo or\u00e1culo familiar, que hoje repousa em uma das nossas estantes. Caiu no esquecimento porque hoje raramente sonho. Talvez seja efeito do zolpidem. Mas quando um devaneio vence o medicamento, como nesse passeio com Kim Seon Ho, sinto que h\u00e1 algo pedindo para ser decifrado. Desde ent\u00e3o estou me prometendo que ainda nessa semana (ou na pr\u00f3xima, quem sabe?) vou garimpar o or\u00e1culo na estante empoeirada. Quero descobrir o que h\u00e1 por tr\u00e1s desse sonho que mistura leitura recente com o trabalho de um ator que admiro. Mas, voc\u00eas me conhecem. Como n\u00e3o sei esperar, dominada pela ansiedade que me consome e me traduz, fiz uma consulta r\u00e1pida \u00e0 Intelig\u00eancia Artificial. A \u201csabe tudo\u201d desse vasto mundo cibern\u00e9tico diz que esse meu sonho revela a necessidade de criar espa\u00e7os internos de pausa, onde o tempo se suspende e a vida se mostra em sua delicadeza. Caminhar entre cerejeiras ao lado de algu\u00e9m que simboliza acolhimento \u00e9 um lembrete de que mesmo em meio \u00e0 dureza ainda h\u00e1 beleza e companhia dentro de n\u00f3s. Errada a IA n\u00e3o est\u00e1. Ponto pra ela. E para concluir, o or\u00e1culo dos novos tempos ainda diz que o despertar abrupto pelos latidos do Niki mostra o contraste inevit\u00e1vel entre devaneio e realidade. Talvez o sentido esteja justamente a\u00ed: os sonhos n\u00e3o s\u00e3o apenas mensagens a decifrar; podem ser convites para a gente refletir sobre o que nos falta ou desejamos cultivar. Entre o p\u00f3 das p\u00e1ginas e o som da vida chamando de volta, permanece a certeza de que sonhar \u00e9 resist\u00eancia, um gesto \u00edntimo que nos devolve ao essencial: esperan\u00e7a, poesia e a lembran\u00e7a de que sempre h\u00e1 flores esperando para desabrochar. Pensando bem, apesar de n\u00e3o ser real, nem tudo est\u00e1 perdido. Se eu nunca conseguir desfilar por alamedas floridas com o meu crush, o mais perto que chego desse sonho \u00e9 visitar o encantador Jardim de Cerejeiras do Sr. Haruji Miura. Criado pelo imigrante japon\u00eas, o espa\u00e7o fica pertinho de Beag\u00e1. As primeiras mudas vieram de Okinawa e se deram muito bem nas montanhas mineiras. Ap\u00f3s o falecimento do senhor Miura, em 2025, aos 97 anos, seu legado continua firme. As cerejeiras seguem vivas, atraindo visitantes curiosos e rom\u00e2nticos frustrados como eu. O Morro do Chap\u00e9u vira espet\u00e1culo na flora\u00e7\u00e3o, entre o fim do inverno e o in\u00edcio da primavera. 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