{"id":3006,"date":"2026-07-04T05:16:32","date_gmt":"2026-07-04T08:16:32","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=3006"},"modified":"2026-07-04T05:16:32","modified_gmt":"2026-07-04T08:16:32","slug":"a-vida-se-pacifica-a-mesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=3006","title":{"rendered":"A vida se pacifica \u00e0 mesa"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-3007 alignnone\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/maaci-breakfast-1398259-1024x683-1-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"812\" height=\"541\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/maaci-breakfast-1398259-1024x683-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/maaci-breakfast-1398259-1024x683-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/maaci-breakfast-1398259-1024x683-1-150x100.jpg 150w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/maaci-breakfast-1398259-1024x683-1-330x220.jpg 330w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/maaci-breakfast-1398259-1024x683-1-420x280.jpg 420w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/maaci-breakfast-1398259-1024x683-1-510x340.jpg 510w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/maaci-breakfast-1398259-1024x683-1.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 812px) 100vw, 812px\" \/><\/p>\n<p>N\u00e3o sei como \u00e9 na sua casa, mas na minha a mesa \u00e9 ponto de encontro. Tudo come\u00e7a e termina ali. N\u00e3o h\u00e1 rede social que substitua esse altar. Ningu\u00e9m come na cama. Mesa \u00e9 ch\u00e3o firme, \u00e9 abra\u00e7o. Mesmo na pressa, a gente se senta, compartilha, ajeita corpo e alma. A vida \u00e9 costura: erros, acertos, pontos frouxos. O corpo se cura, a alma ainda se ressente. Mas \u00e0 mesa, tudo se pacifica.<\/p>\n<p>O dia amanhece com caf\u00e9. Mesa posta, toalha esticada, x\u00edcaras alinhadas, pratos de sobremesa esperando o p\u00e3ozinho simples. Heran\u00e7a de m\u00e3e, de av\u00f3, de tantas m\u00e3os que vieram antes. Costume que atravessa gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ao meio-dia, o ritmo \u00e9 outro. Almo\u00e7o corrido, comida de restaurante, pressa que n\u00e3o perdoa. Mas quando a noite cai, o lar se acende. Fog\u00e3o vivo, cheiro de alho e cebola impregnando a m\u00e3o. Arroz fresco, feij\u00e3o borbulhando. Porque, para mim, fog\u00e3o apagado \u00e9 casa sem alma.<\/p>\n<p>E \u00e9 nesse altar que a do\u00e7ura se revela. Depois do salgado, vem o a\u00e7\u00facar. Nos fins de semana, h\u00e1 espa\u00e7o para pudim com calda escorrendo pelo queixo e tamb\u00e9m para goiabada com queijo curando as mazelas da semana. Tentamos ser fitness, mas o nosso cora\u00e7\u00e3o s\u00f3 encontra sossego diante de um doce que faz a gente suspirar e o dentista chorar. Somos uma fam\u00edlia em ponto de fio: doce, grudento, imposs\u00edvel de resistir.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o fique a\u00ed imaginando que tudo \u00e9 um mar de rosas. Em se tratando de comida, por aqui nem sempre h\u00e1 consenso. Pode o doce se misturar ao salgado? H\u00e1 quem discorde que o lombinho combine com laranja, o tender com abacaxi e o salm\u00e3o com maracuj\u00e1. Uns amam, outros torcem o nariz. Bernardo e Juju protestam contra farofa com banana e maionese com ma\u00e7\u00e3. Nem o argumento das tias, de tentar dar chance ao novo, \u00e9 capaz de convencer a ala mais jovem.<\/p>\n<p>Mas, como as tias s\u00e3o velhas de guerra, no frigir dos ovos, tudo se apazigua. A bandeira da paz vem com prato de maionese sem ma\u00e7\u00e3 para o Jo\u00e3o Guilherme e uma por\u00e7\u00e3o de farofa sem banana para Juju e o Bernardo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas para que esse trabalh\u00e3o todo?<\/p>\n<p>Uai! Porque por aqui a cozinha n\u00e3o \u00e9 campo de batalha. \u00c9 lugar de afeto. Sempre que falo ou escrevo sobre isso, lembro da Nina Simone. A cantora (que eu adoro) disse certa vez que \u201cs\u00f3 se sai da mesa quando o amor n\u00e3o \u00e9 mais servido\u201d. Por aqui, seguimos esse conselho \u00e0 risca. E como aqui nessa fam\u00edlia grande e barulhenta amor \u00e9 mato, nos fins de semana o caf\u00e9 emenda no almo\u00e7o, que emenda no caf\u00e9 da tarde, que emenda no jantar. A Minas profunda entende: mesa sempre posta, vida devagar, afetos sedimentados.<\/p>\n<p>Ah, de volta \u00e0 cozinha, vou revelar alguns segredinhos herdados das av\u00f3s. Todo doce pede sal. Todo salgado pede a\u00e7\u00facar. Molho de tomate ganha cenoura ou pitada doce. Arroz doce pede salzinho. Bolo chocolatudo agradece flor de sal. Pequenos gestos que transformam pratos em mem\u00f3ria. Doce com salgado \u00e9 casal agridoce. Uni\u00e3o de opostos que se completam. Como na amizade, como no casamento. Mistura que d\u00e1 liga. Que vira abra\u00e7o, beijo, palavra de afeto.<\/p>\n<p>Resumindo essa prosa toda, cozinhar \u00e9 ato de amor. Estar \u00e0 mesa \u00e9 comunh\u00e3o. O primeiro alimento \u00e9 a presen\u00e7a do outro. \u00c9 ela que nos faz fraternos, companheiros. \u00c9 ela que d\u00e1 sentido ao milagre cotidiano: viver juntos, ao redor da mesa.<\/p>\n<div class=\"addtoany_share_save_container addtoany_content addtoany_content_bottom\">\n<div class=\"a2a_kit a2a_kit_size_32 addtoany_list\" data-a2a-url=\"https:\/\/boasnovasmg.com.br\/2026\/07\/03\/a-vida-se-pacifica-a-mesa\/\" data-a2a-title=\"A vida se pacifica \u00e0 mesa\">\n<figure id=\"attachment_2467\" aria-describedby=\"caption-attachment-2467\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2467\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-300x140.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"140\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-300x140.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-768x359.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888.png 994w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2467\" class=\"wp-caption-text\">Gisele Bicalho \u00e9 jornalista e escritora<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei como \u00e9 na sua casa, mas na minha a mesa \u00e9 ponto de encontro. Tudo come\u00e7a e termina ali. N\u00e3o h\u00e1 rede social que substitua esse altar. Ningu\u00e9m come na cama. Mesa \u00e9 ch\u00e3o firme, \u00e9 abra\u00e7o. Mesmo na pressa, a gente se senta, compartilha, ajeita corpo e alma. A vida \u00e9 costura: erros, acertos, pontos frouxos. O corpo se cura, a alma ainda se ressente. Mas \u00e0 mesa, tudo se pacifica. O dia amanhece com caf\u00e9. Mesa posta, toalha esticada, x\u00edcaras alinhadas, pratos de sobremesa esperando o p\u00e3ozinho simples. Heran\u00e7a de m\u00e3e, de av\u00f3, de tantas m\u00e3os que vieram antes. Costume que atravessa gera\u00e7\u00f5es. Ao meio-dia, o ritmo \u00e9 outro. Almo\u00e7o corrido, comida de restaurante, pressa que n\u00e3o perdoa. Mas quando a noite cai, o lar se acende. Fog\u00e3o vivo, cheiro de alho e cebola impregnando a m\u00e3o. Arroz fresco, feij\u00e3o borbulhando. Porque, para mim, fog\u00e3o apagado \u00e9 casa sem alma. E \u00e9 nesse altar que a do\u00e7ura se revela. Depois do salgado, vem o a\u00e7\u00facar. Nos fins de semana, h\u00e1 espa\u00e7o para pudim com calda escorrendo pelo queixo e tamb\u00e9m para goiabada com queijo curando as mazelas da semana. Tentamos ser fitness, mas o nosso cora\u00e7\u00e3o s\u00f3 encontra sossego diante de um doce que faz a gente suspirar e o dentista chorar. Somos uma fam\u00edlia em ponto de fio: doce, grudento, imposs\u00edvel de resistir. Mas n\u00e3o fique a\u00ed imaginando que tudo \u00e9 um mar de rosas. Em se tratando de comida, por aqui nem sempre h\u00e1 consenso. Pode o doce se misturar ao salgado? H\u00e1 quem discorde que o lombinho combine com laranja, o tender com abacaxi e o salm\u00e3o com maracuj\u00e1. Uns amam, outros torcem o nariz. Bernardo e Juju protestam contra farofa com banana e maionese com ma\u00e7\u00e3. Nem o argumento das tias, de tentar dar chance ao novo, \u00e9 capaz de convencer a ala mais jovem. Mas, como as tias s\u00e3o velhas de guerra, no frigir dos ovos, tudo se apazigua. A bandeira da paz vem com prato de maionese sem ma\u00e7\u00e3 para o Jo\u00e3o Guilherme e uma por\u00e7\u00e3o de farofa sem banana para Juju e o Bernardo. &#8211; Mas para que esse trabalh\u00e3o todo? Uai! Porque por aqui a cozinha n\u00e3o \u00e9 campo de batalha. \u00c9 lugar de afeto. Sempre que falo ou escrevo sobre isso, lembro da Nina Simone. A cantora (que eu adoro) disse certa vez que \u201cs\u00f3 se sai da mesa quando o amor n\u00e3o \u00e9 mais servido\u201d. Por aqui, seguimos esse conselho \u00e0 risca. E como aqui nessa fam\u00edlia grande e barulhenta amor \u00e9 mato, nos fins de semana o caf\u00e9 emenda no almo\u00e7o, que emenda no caf\u00e9 da tarde, que emenda no jantar. A Minas profunda entende: mesa sempre posta, vida devagar, afetos sedimentados. Ah, de volta \u00e0 cozinha, vou revelar alguns segredinhos herdados das av\u00f3s. Todo doce pede sal. Todo salgado pede a\u00e7\u00facar. Molho de tomate ganha cenoura ou pitada doce. Arroz doce pede salzinho. Bolo chocolatudo agradece flor de sal. Pequenos gestos que transformam pratos em mem\u00f3ria. Doce com salgado \u00e9 casal agridoce. Uni\u00e3o de opostos que se completam. Como na amizade, como no casamento. Mistura que d\u00e1 liga. Que vira abra\u00e7o, beijo, palavra de afeto. Resumindo essa prosa toda, cozinhar \u00e9 ato de amor. Estar \u00e0 mesa \u00e9 comunh\u00e3o. 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