{"id":2732,"date":"2026-04-26T08:00:33","date_gmt":"2026-04-26T11:00:33","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2732"},"modified":"2026-04-26T08:00:33","modified_gmt":"2026-04-26T11:00:33","slug":"cura-do-corpo-e-do-espirito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2732","title":{"rendered":"Cura do corpo e do esp\u00edrito"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2733 alignnone\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/claude05alleva-foliage-539413-1024x683-1-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"1158\" height=\"772\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/claude05alleva-foliage-539413-1024x683-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/claude05alleva-foliage-539413-1024x683-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/claude05alleva-foliage-539413-1024x683-1-150x100.jpg 150w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/claude05alleva-foliage-539413-1024x683-1-330x220.jpg 330w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/claude05alleva-foliage-539413-1024x683-1-420x280.jpg 420w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/claude05alleva-foliage-539413-1024x683-1-510x340.jpg 510w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/claude05alleva-foliage-539413-1024x683-1.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 1158px) 100vw, 1158px\" \/><\/p>\n<p>O outono chegou discretamente como quem convida ao recolhimento. \u00c9 nesse clima que o ch\u00e1 ganha protagonismo: uma x\u00edcara quente entre as m\u00e3os, o aroma que sobe e aquece a alma, o gesto simples que lembra colo de m\u00e3e, afago de av\u00f3.<\/p>\n<p>O ch\u00e1 me leva direto para o tempo da delicadeza. No quintal da casa centen\u00e1ria, as ervas eram protagonistas. Meus av\u00f3s cultivavam uma horta pequena a meio caminho do Rio Par\u00e1. A hortel\u00e3 convivia lado a lado com o funcho. Havia tamb\u00e9m alecrim, capim-cidreira e poejo.<\/p>\n<p>Essas lembran\u00e7as se ampliam nas hist\u00f3rias do meu irm\u00e3o Beto. As visitas ao Z\u00e9 do Vico eram \u201cde lei\u201d. Se adoecia, nem pensar em rem\u00e9dio de farm\u00e1cia: havia o saber ancestral. Papai ia junto. E entre doses de cacha\u00e7a envelhecida e a degusta\u00e7\u00e3o da carne de panela preparada por dona Carmen, Z\u00e9 do Vico indicava ch\u00e1s e ra\u00edzes para aliviar as dores do corpo. O cerrado era sua farm\u00e1cia viva. Cada visita era mais que consulta: era encontro de f\u00e9, conversa demorada e aprendizado silencioso sobre o poder das ervas arom\u00e1ticas e medicinais.<\/p>\n<p>Curioso \u00e9 que um dia desses reencontrei uma erva da inf\u00e2ncia em outro cen\u00e1rio. Na Galeria S\u00e3o Vicente, no centro de Belo Horizonte, os clientes do restaurante Tom s\u00e3o recebidos com um drink. A base da bebida \u00e9 o poejo. Confesso que nas duas vezes em que estive por l\u00e1 me senti acolhida com esse gesto. Uma delicadeza que poderia ser traduzida como: \u201caqui voc\u00ea \u00e9 bem-vinda; aqui h\u00e1 cuidado\u201d.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que esse drink n\u00e3o alco\u00f3lico mexeu comigo. Me levou direto para a horta da inf\u00e2ncia. O frescor do poejo desperta o paladar e carrega hist\u00f3rias de cura e acolhimento. O ch\u00e1 era \u201ctiro e queda\u201d para acalmar o choro dos beb\u00eas da fam\u00edlia. Milagre? Nada disso. O poejo, gra\u00e7as ao efeito expectorante, ajuda a aliviar sintomas de gripe, bronquite, coqueluche e tosse. E mais: melhora a digest\u00e3o, combate gases e pode aliviar c\u00f3licas intestinais.<\/p>\n<p>Assim como o poejo, a hortel\u00e3 tamb\u00e9m guardava segredos de cura e sabor na farm\u00e1cia da av\u00f3. O ch\u00e1 dessa folhinha arom\u00e1tica e mentolada era usado para aliviar dores de barriga, gases, m\u00e1 digest\u00e3o e at\u00e9 os sintomas de gripe dos netos. Se fazia parte da farm\u00e1cia ancestral, tamb\u00e9m brilhava na cozinha: seu sabor mentolado trazia, e ainda traz, frescor ao quibe. Cru, frito ou assado, n\u00e3o importa: a hortel\u00e3 continua sendo indispens\u00e1vel na nossa mesa.<\/p>\n<p>E se a hortel\u00e3 oferecia (e ainda oferece) frescor, o alecrim chegava com intensidade: perfume, mem\u00f3ria e cuidado. Mais que tempero, \u00e9 mem\u00f3ria. Na cozinha, d\u00e1 um toque a mais nas carnes, p\u00e3es e molhos, conferindo um sabor que aquece e desperta. No corpo, guarda propriedades terap\u00eauticas que fortalecem a mem\u00f3ria, aliviam a digest\u00e3o e estimulam a circula\u00e7\u00e3o. \u00c9 erva que atravessa gera\u00e7\u00f5es, presente tanto na horta da nossa av\u00f3 quanto nas receitas contempor\u00e2neas. Lembra que a simplicidade da natureza pode ser ao mesmo tempo rem\u00e9dio e poesia.<\/p>\n<p>Mas havia tamb\u00e9m as ervas da f\u00e9. A arruda sempre lembra Dona Izolina e suas rezas de prote\u00e7\u00e3o. Vov\u00f3 Cocota sempre recorria \u00e0 comadre para curar ventre virado, mau-olhado, espinhela ca\u00edda, quebrante e outras mazelas dos netos. A reza vinha acompanhada do perfume da arruda, do alecrim, da guin\u00e9 e do manjeric\u00e3o, ervas escolhidas n\u00e3o apenas por suas propriedades medicinais, mas tamb\u00e9m pelo poder simb\u00f3lico de prote\u00e7\u00e3o espiritual. Cada folha que ro\u00e7ava a pele era gesto de cuidado, cada aroma que se espalhava pela casa era promessa de equil\u00edbrio. No ritual simples e ancestral, a f\u00e9 se misturava \u00e0 natureza, e a ora\u00e7\u00e3o de cura se tornava poesia de afeto e equil\u00edbrio.<\/p>\n<p>Essas mesmas ervas atravessavam o cotidiano e chegavam \u00e0s celebra\u00e7\u00f5es religiosas. Na Semana Santa, enfeitavam o andor do Senhor Morto e, em maio, ap\u00f3s a coroa\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora, o perfume do alecrim e do manjeric\u00e3o se misturava ao cheiro das mexericas e laranjas leiloadas no adro da Igreja Matriz.<\/p>\n<p>Mas, voltando ao ch\u00e1, n\u00e3o se descuide. Seu consumo tamb\u00e9m pede cuidado. A automedica\u00e7\u00e3o pode transformar o afeto em risco: uma dose forte demais, uma planta confundida, uma intera\u00e7\u00e3o perigosa com outros rem\u00e9dios. O que era para ser abra\u00e7o pode se tornar espinho.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2467\" aria-describedby=\"caption-attachment-2467\" style=\"width: 879px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-2467\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-300x140.png\" alt=\"\" width=\"879\" height=\"410\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-300x140.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-768x359.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888.png 994w\" sizes=\"(max-width: 879px) 100vw, 879px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2467\" class=\"wp-caption-text\">Gisele Bicalho \u00e9 jornalista e escritora<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O outono chegou discretamente como quem convida ao recolhimento. \u00c9 nesse clima que o ch\u00e1 ganha protagonismo: uma x\u00edcara quente entre as m\u00e3os, o aroma que sobe e aquece a alma, o gesto simples que lembra colo de m\u00e3e, afago de av\u00f3. O ch\u00e1 me leva direto para o tempo da delicadeza. No quintal da casa centen\u00e1ria, as ervas eram protagonistas. Meus av\u00f3s cultivavam uma horta pequena a meio caminho do Rio Par\u00e1. A hortel\u00e3 convivia lado a lado com o funcho. Havia tamb\u00e9m alecrim, capim-cidreira e poejo. Essas lembran\u00e7as se ampliam nas hist\u00f3rias do meu irm\u00e3o Beto. As visitas ao Z\u00e9 do Vico eram \u201cde lei\u201d. Se adoecia, nem pensar em rem\u00e9dio de farm\u00e1cia: havia o saber ancestral. Papai ia junto. E entre doses de cacha\u00e7a envelhecida e a degusta\u00e7\u00e3o da carne de panela preparada por dona Carmen, Z\u00e9 do Vico indicava ch\u00e1s e ra\u00edzes para aliviar as dores do corpo. O cerrado era sua farm\u00e1cia viva. Cada visita era mais que consulta: era encontro de f\u00e9, conversa demorada e aprendizado silencioso sobre o poder das ervas arom\u00e1ticas e medicinais. Curioso \u00e9 que um dia desses reencontrei uma erva da inf\u00e2ncia em outro cen\u00e1rio. Na Galeria S\u00e3o Vicente, no centro de Belo Horizonte, os clientes do restaurante Tom s\u00e3o recebidos com um drink. A base da bebida \u00e9 o poejo. Confesso que nas duas vezes em que estive por l\u00e1 me senti acolhida com esse gesto. Uma delicadeza que poderia ser traduzida como: \u201caqui voc\u00ea \u00e9 bem-vinda; aqui h\u00e1 cuidado\u201d. A verdade \u00e9 que esse drink n\u00e3o alco\u00f3lico mexeu comigo. Me levou direto para a horta da inf\u00e2ncia. O frescor do poejo desperta o paladar e carrega hist\u00f3rias de cura e acolhimento. O ch\u00e1 era \u201ctiro e queda\u201d para acalmar o choro dos beb\u00eas da fam\u00edlia. Milagre? Nada disso. O poejo, gra\u00e7as ao efeito expectorante, ajuda a aliviar sintomas de gripe, bronquite, coqueluche e tosse. E mais: melhora a digest\u00e3o, combate gases e pode aliviar c\u00f3licas intestinais. Assim como o poejo, a hortel\u00e3 tamb\u00e9m guardava segredos de cura e sabor na farm\u00e1cia da av\u00f3. O ch\u00e1 dessa folhinha arom\u00e1tica e mentolada era usado para aliviar dores de barriga, gases, m\u00e1 digest\u00e3o e at\u00e9 os sintomas de gripe dos netos. Se fazia parte da farm\u00e1cia ancestral, tamb\u00e9m brilhava na cozinha: seu sabor mentolado trazia, e ainda traz, frescor ao quibe. Cru, frito ou assado, n\u00e3o importa: a hortel\u00e3 continua sendo indispens\u00e1vel na nossa mesa. E se a hortel\u00e3 oferecia (e ainda oferece) frescor, o alecrim chegava com intensidade: perfume, mem\u00f3ria e cuidado. Mais que tempero, \u00e9 mem\u00f3ria. Na cozinha, d\u00e1 um toque a mais nas carnes, p\u00e3es e molhos, conferindo um sabor que aquece e desperta. No corpo, guarda propriedades terap\u00eauticas que fortalecem a mem\u00f3ria, aliviam a digest\u00e3o e estimulam a circula\u00e7\u00e3o. \u00c9 erva que atravessa gera\u00e7\u00f5es, presente tanto na horta da nossa av\u00f3 quanto nas receitas contempor\u00e2neas. Lembra que a simplicidade da natureza pode ser ao mesmo tempo rem\u00e9dio e poesia. Mas havia tamb\u00e9m as ervas da f\u00e9. A arruda sempre lembra Dona Izolina e suas rezas de prote\u00e7\u00e3o. Vov\u00f3 Cocota sempre recorria \u00e0 comadre para curar ventre virado, mau-olhado, espinhela ca\u00edda, quebrante e outras mazelas dos netos. A reza vinha acompanhada do perfume da arruda, do alecrim, da guin\u00e9 e do manjeric\u00e3o, ervas escolhidas n\u00e3o apenas por suas propriedades medicinais, mas tamb\u00e9m pelo poder simb\u00f3lico de prote\u00e7\u00e3o espiritual. Cada folha que ro\u00e7ava a pele era gesto de cuidado, cada aroma que se espalhava pela casa era promessa de equil\u00edbrio. No ritual simples e ancestral, a f\u00e9 se misturava \u00e0 natureza, e a ora\u00e7\u00e3o de cura se tornava poesia de afeto e equil\u00edbrio. Essas mesmas ervas atravessavam o cotidiano e chegavam \u00e0s celebra\u00e7\u00f5es religiosas. Na Semana Santa, enfeitavam o andor do Senhor Morto e, em maio, ap\u00f3s a coroa\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora, o perfume do alecrim e do manjeric\u00e3o se misturava ao cheiro das mexericas e laranjas leiloadas no adro da Igreja Matriz. Mas, voltando ao ch\u00e1, n\u00e3o se descuide. Seu consumo tamb\u00e9m pede cuidado. A automedica\u00e7\u00e3o pode transformar o afeto em risco: uma dose forte demais, uma planta confundida, uma intera\u00e7\u00e3o perigosa com outros rem\u00e9dios. 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