{"id":2692,"date":"2026-04-11T20:30:45","date_gmt":"2026-04-11T23:30:45","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2692"},"modified":"2026-04-13T20:34:55","modified_gmt":"2026-04-13T23:34:55","slug":"a-maratona-do-imposto-de-renda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2692","title":{"rendered":"A maratona do Imposto de Renda"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2693\" aria-describedby=\"caption-attachment-2693\" style=\"width: 1115px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2693\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/hans-elm-leaf-231847-1024x683-1-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"1115\" height=\"743\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/hans-elm-leaf-231847-1024x683-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/hans-elm-leaf-231847-1024x683-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/hans-elm-leaf-231847-1024x683-1-150x100.jpg 150w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/hans-elm-leaf-231847-1024x683-1-330x220.jpg 330w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/hans-elm-leaf-231847-1024x683-1-420x280.jpg 420w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/hans-elm-leaf-231847-1024x683-1-510x340.jpg 510w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/hans-elm-leaf-231847-1024x683-1.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 1115px) 100vw, 1115px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2693\" class=\"wp-caption-text\">Folhas de olmo secas &#8211; Imagem: Pixabay<\/figcaption><\/figure>\n<p>Abril chega com sua rotina ingrata: a ca\u00e7a aos recibos. Enquanto a vida acontece al\u00e9m da nossa porta, desaparecemos atr\u00e1s de uma pilha de pap\u00e9is, notas fiscais e comprovantes. A maior parte insiste em se esconder. \u00c9 o m\u00eas em que o contribuinte vira detetive, vasculha gavetas e pastas digitais em busca de provas da pr\u00f3pria vida financeira.<br \/>\nO desgaste \u00e9 inevit\u00e1vel. N\u00e3o h\u00e1 poesia no ato de preencher campos intermin\u00e1veis, nem encanto em calcular dedu\u00e7\u00f5es. \u00c9 chato, cansativo, quase um ritual de penit\u00eancia anual. Abril, que poderia ser celebra\u00e7\u00e3o da leveza, se transforma em maratona burocr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Este ano n\u00e3o est\u00e1 sendo diferente. Perdi um dia inteiro atr\u00e1s de recibos que acabei n\u00e3o encontrando. Num beco sem sa\u00edda, acionei meu lado \u201cPollyanna Mo\u00e7a\u201d. \u00c9 que nessa busca insana me vi encantada diante de tesouros guardados em caixas empoeiradas e gavetas entulhadas de coisas. A maior parte eu nem sei por que foram parar ali. J\u00e1 ouvi que sou acumuladora, que guardo contas de telefone e de energia pagas h\u00e1 anos. Pelo volume aqui, at\u00e9 pode ser, mas \u2026<\/p>\n<p>Nessa busca insana o passaporte vencido surgiu de dentro de uma bolsa como que para confirmar aquilo que em alguns momentos dif\u00edceis at\u00e9 eu mesma chego a duvidar: al\u00e9m do Chile, fui, sim, para outros lugares incr\u00edveis. Uma confirma\u00e7\u00e3o que minhas asas e os meus p\u00e9s j\u00e1 rodaram muito por esse mund\u00e3o de meu Deus.<\/p>\n<p>O Chile foi um desses destinos. Nessa ca\u00e7a n\u00e3o programada ao tesouro encontrei a folha de olmo que Mam\u00e3e recolheu em um parque de Santiago do Chile. Foi a nossa \u00faltima viagem. Juntas e maravilhadas percorremos a cidade a p\u00e9, com paradas estrat\u00e9gicas em cafeterias cheias de charme. Conhecemos tamb\u00e9m o Vale Nevado. Foi l\u00e1 que Mam\u00e3e se encantou com os flocos de neve.<\/p>\n<p>Outro destino foi a Vin\u00edcola Concha y Toro, lar do lend\u00e1rio Casillero del Diablo: mergulho em uma narrativa que mistura vinho e mito. Lembro como se fosse hoje. Come\u00e7amos o passeio por jardins impec\u00e1veis e seguimos pelas adegas hist\u00f3ricas, onde o guia nos contou sobre a lenda criada por Don Melchor. Para proteger seus r\u00f3tulos, o fundador da vin\u00edcola espalhou que o diabo guardava aquelas garrafas. Dito e feito: lenda espalhada, nunca mais algu\u00e9m ousou roubar uma garrafa sequer. Entre barris de carvalho e corredores de pedra, provamos diferentes vinhos, aprendemos sobre <em>terroir<\/em> chileno e sentimos o peso da tradi\u00e7\u00e3o que transformou a marca em uma das mais reconhecidas do pa\u00eds. Retornamos encantadas do Chile.<\/p>\n<p>De volta \u00e0 realidade e \u00e0 ca\u00e7a dos documentos, encontrei bilhetinhos delicados, um b\u00e1lsamo para aplacar dores que em algum momento afligiram minha alma. Alguns traziam mensagens otimistas. Sinalizavam por dias melhores; outros, enviados em datas festivas, encheram meu cora\u00e7\u00e3o de alegria.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m encontrei brincos, an\u00e9is e pulseiras perdidos, todos protagonistas de festas que ficaram registradas na gavetinha das boas mem\u00f3rias.<\/p>\n<p>Dentro de uma caixa, me deparei com dezenas de cartas escritas pelo tio Walter. Todas endere\u00e7adas \u00e0 minha m\u00e3e. Verdadeiros roteiros dos anos 50: relatos da rotina em Belo Horizonte, coment\u00e1rios sobre os filmes em cartaz e impress\u00f5es dos livros que devorava. Cada p\u00e1gina guarda o retrato vivo de uma \u00e9poca, como se fosse um di\u00e1rio compartilhado em forma de correspond\u00eancia.<\/p>\n<p>E foi assim que abril, com sua ingrata ca\u00e7a aos recibos, acabou me devolvendo algo inesperado: n\u00e3o apenas lembran\u00e7as, mas a certeza de que entre pap\u00e9is e gavetas se escondem hist\u00f3rias que nos sustentam. No fim, a burocracia me levou de volta \u00e0 poesia, aquela que insiste em sobreviver nos detalhes da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Quanto ao Imposto de Renda, depois dessa saga toda descobri que desde o ano passado m\u00e9dicos, dentistas e outros profissionais de sa\u00fade j\u00e1 emitem recibos digitais, integrados \u00e0 Receita Federal. Uma boa not\u00edcia: menos papel, menos perda de tempo, menos risco de erro. Abril continua sendo maratona, mas talvez agora com menos trope\u00e7os. E eu, entre recibos e lembran\u00e7as, sigo lembrando que at\u00e9 a burocracia pode abrir frestas para a vida.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2467\" aria-describedby=\"caption-attachment-2467\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2467\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-300x140.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"140\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-300x140.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-768x359.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888.png 994w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2467\" class=\"wp-caption-text\">Gisele Bicalho \u00e9 jornalista e escritora<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Abril chega com sua rotina ingrata: a ca\u00e7a aos recibos. Enquanto a vida acontece al\u00e9m da nossa porta, desaparecemos atr\u00e1s de uma pilha de pap\u00e9is, notas fiscais e comprovantes. A maior parte insiste em se esconder. \u00c9 o m\u00eas em que o contribuinte vira detetive, vasculha gavetas e pastas digitais em busca de provas da pr\u00f3pria vida financeira. O desgaste \u00e9 inevit\u00e1vel. N\u00e3o h\u00e1 poesia no ato de preencher campos intermin\u00e1veis, nem encanto em calcular dedu\u00e7\u00f5es. \u00c9 chato, cansativo, quase um ritual de penit\u00eancia anual. Abril, que poderia ser celebra\u00e7\u00e3o da leveza, se transforma em maratona burocr\u00e1tica. Este ano n\u00e3o est\u00e1 sendo diferente. Perdi um dia inteiro atr\u00e1s de recibos que acabei n\u00e3o encontrando. Num beco sem sa\u00edda, acionei meu lado \u201cPollyanna Mo\u00e7a\u201d. \u00c9 que nessa busca insana me vi encantada diante de tesouros guardados em caixas empoeiradas e gavetas entulhadas de coisas. A maior parte eu nem sei por que foram parar ali. J\u00e1 ouvi que sou acumuladora, que guardo contas de telefone e de energia pagas h\u00e1 anos. Pelo volume aqui, at\u00e9 pode ser, mas \u2026 Nessa busca insana o passaporte vencido surgiu de dentro de uma bolsa como que para confirmar aquilo que em alguns momentos dif\u00edceis at\u00e9 eu mesma chego a duvidar: al\u00e9m do Chile, fui, sim, para outros lugares incr\u00edveis. Uma confirma\u00e7\u00e3o que minhas asas e os meus p\u00e9s j\u00e1 rodaram muito por esse mund\u00e3o de meu Deus. O Chile foi um desses destinos. Nessa ca\u00e7a n\u00e3o programada ao tesouro encontrei a folha de olmo que Mam\u00e3e recolheu em um parque de Santiago do Chile. Foi a nossa \u00faltima viagem. Juntas e maravilhadas percorremos a cidade a p\u00e9, com paradas estrat\u00e9gicas em cafeterias cheias de charme. Conhecemos tamb\u00e9m o Vale Nevado. Foi l\u00e1 que Mam\u00e3e se encantou com os flocos de neve. Outro destino foi a Vin\u00edcola Concha y Toro, lar do lend\u00e1rio Casillero del Diablo: mergulho em uma narrativa que mistura vinho e mito. Lembro como se fosse hoje. Come\u00e7amos o passeio por jardins impec\u00e1veis e seguimos pelas adegas hist\u00f3ricas, onde o guia nos contou sobre a lenda criada por Don Melchor. Para proteger seus r\u00f3tulos, o fundador da vin\u00edcola espalhou que o diabo guardava aquelas garrafas. Dito e feito: lenda espalhada, nunca mais algu\u00e9m ousou roubar uma garrafa sequer. Entre barris de carvalho e corredores de pedra, provamos diferentes vinhos, aprendemos sobre terroir chileno e sentimos o peso da tradi\u00e7\u00e3o que transformou a marca em uma das mais reconhecidas do pa\u00eds. Retornamos encantadas do Chile. De volta \u00e0 realidade e \u00e0 ca\u00e7a dos documentos, encontrei bilhetinhos delicados, um b\u00e1lsamo para aplacar dores que em algum momento afligiram minha alma. Alguns traziam mensagens otimistas. Sinalizavam por dias melhores; outros, enviados em datas festivas, encheram meu cora\u00e7\u00e3o de alegria. Tamb\u00e9m encontrei brincos, an\u00e9is e pulseiras perdidos, todos protagonistas de festas que ficaram registradas na gavetinha das boas mem\u00f3rias. Dentro de uma caixa, me deparei com dezenas de cartas escritas pelo tio Walter. Todas endere\u00e7adas \u00e0 minha m\u00e3e. Verdadeiros roteiros dos anos 50: relatos da rotina em Belo Horizonte, coment\u00e1rios sobre os filmes em cartaz e impress\u00f5es dos livros que devorava. Cada p\u00e1gina guarda o retrato vivo de uma \u00e9poca, como se fosse um di\u00e1rio compartilhado em forma de correspond\u00eancia. E foi assim que abril, com sua ingrata ca\u00e7a aos recibos, acabou me devolvendo algo inesperado: n\u00e3o apenas lembran\u00e7as, mas a certeza de que entre pap\u00e9is e gavetas se escondem hist\u00f3rias que nos sustentam. No fim, a burocracia me levou de volta \u00e0 poesia, aquela que insiste em sobreviver nos detalhes da mem\u00f3ria. Quanto ao Imposto de Renda, depois dessa saga toda descobri que desde o ano passado m\u00e9dicos, dentistas e outros profissionais de sa\u00fade j\u00e1 emitem recibos digitais, integrados \u00e0 Receita Federal. Uma boa not\u00edcia: menos papel, menos perda de tempo, menos risco de erro. Abril continua sendo maratona, mas talvez agora com menos trope\u00e7os. 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