{"id":2682,"date":"2026-04-04T04:42:05","date_gmt":"2026-04-04T07:42:05","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2682"},"modified":"2026-04-08T04:45:33","modified_gmt":"2026-04-08T07:45:33","slug":"quintal-onde-florescem-historias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2682","title":{"rendered":"Quintal onde florescem hist\u00f3rias"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2683\" aria-describedby=\"caption-attachment-2683\" style=\"width: 1010px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2683\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/8926-orchids-2471002-1024x724-1-300x212.jpg\" alt=\"\" width=\"1010\" height=\"714\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/8926-orchids-2471002-1024x724-1-300x212.jpg 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/8926-orchids-2471002-1024x724-1-768x543.jpg 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/8926-orchids-2471002-1024x724-1.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 1010px) 100vw, 1010px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2683\" class=\"wp-caption-text\">As orqu\u00eddeas est\u00e3o entre as flores preferidas da fam\u00edlia Bicalho &#8211; Foto: Pixabay<\/figcaption><\/figure>\n<p>Na minha fam\u00edlia, grande e barulhenta, as flores s\u00e3o testemunhas silenciosas dos nossos ciclos de vida. Elas brotam tanto em momentos de dor quanto de alegria; carregam significados que v\u00e3o muito al\u00e9m da beleza.<\/p>\n<p>H\u00e1 flores que chegam como b\u00e1lsamo em dias de tristeza; outras florescem em meio \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o. A pata-de-elefante que Denise comprou \u2014 rara e cara \u2014 na semana em que mam\u00e3e se despediu, guarda o peso da saudade. Ao lado dela, a vermelha vibrante que Guto, Bernardo e Juju presentearam \u00e0 Denise ilumina a mem\u00f3ria da alegria compartilhada. Entre p\u00e9talas e lembran\u00e7as, a vida se revela: ora luto, ora festa, sempre marcada pela delicadeza das flores.<\/p>\n<p>Nana, com sua generosidade, muitas vezes nos presenteia com orqu\u00eddeas. Al\u00e9m de lindas, elas se perpetuam, florescendo vez ap\u00f3s vez, como se devolvessem em cores o carinho que sentimos umas pelas outras.<\/p>\n<p>Mam\u00e3e adorava amor-perfeito. Jacq se encanta com girass\u00f3is. E Denise\u2026 ah, Denise \u00e9 a \u201clouca das plantas\u201d. Com seu \u201cdedo verde\u201d, semeia vida por onde passa. O resultado desse amor sem medida \u00e9 que nosso pequeno quintal virou quase uma selva. E ai de quem ousar disputar um palmo de terra para plantar uma erva, uma couve ou um mamoeiro. \u00c9 briga na certa! A solu\u00e7\u00e3o foi espalhar alecrim, manjeric\u00e3o e salsa em vasos. Sobrou at\u00e9 para a jabuticabeira e para o limoeiro, que seguem firmes, nos vasos, testemunhando nossa hist\u00f3ria. Nem a mangueira escapa da saga ocupacionista da Denise: o tronco abriga orqu\u00eddeas e brom\u00e9lias. Ambas n\u00e3o s\u00f3 se abrigam ali, como tamb\u00e9m se embelezam com sua presen\u00e7a. Lindo de se ter. Lindo de se ver.<\/p>\n<p>Esse amor n\u00e3o nasceu ontem. Teve um dia em que o papai saiu port\u00e3o afora e foi at\u00e9 a floricultura da Rosilene (repare que a propriet\u00e1ria j\u00e1 carrega nome de flor). Escolheu a muda mais bonita e, matreiro, j\u00e1 tinha em mente o vaso: um tronco marcado pelo tempo. Sabia que iria agradar. Com a ajuda do Beto, preparou a terra mais f\u00e9rtil, o esterco mais rico e transplantou a belezura. A ela deu o nome de \u201cFlor da Denisinha\u201d. Uma homenagem \u00e0 filha, companheira de todas as horas.<\/p>\n<p>E como quem pede desculpas sem precisar, achegou-se a mim e confidenciou:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea e suas irm\u00e3s tamb\u00e9m v\u00e3o ganhar flores. Estou preparando um canteiro igual \u00e0quele que voc\u00ea gostou, cheio de ondas como os pr\u00e9dios de Bras\u00edlia. Vou plantar as palmas que sua m\u00e3e tanto amava. Uma para cada filha.<\/p>\n<p>Foi esperto: usou Niemeyer e mam\u00e3e como refer\u00eancias. Justo os dois. Quem teria ci\u00fames depois disso?<\/p>\n<p>Essa prosa sobre flores e demonstra\u00e7\u00f5es de amor me trouxe saudades de uma infinidade de coisas. Uma delas \u00e9 o jardim da minha av\u00f3. Era lindo demais. Os canteiros, demarcados por tijolos, formavam desenhos geom\u00e9tricos. Nada crescia ao acaso. Havia losangos, ret\u00e2ngulos, quadrados e c\u00edrculos. Neles floresciam rosas, l\u00edrios, palmas e copos-de-leite.<\/p>\n<p>O meu preferido era o de hort\u00eansias. Talvez pela cor. Os buqu\u00eas azuis cresciam debaixo da janela do quarto dos meus tios. Abundantes, floresciam o ano inteiro. Talvez porque ali fosse mais frio e sombreado. N\u00e3o por acaso, hort\u00eansias s\u00e3o comuns nas geladas regi\u00f5es serranas, o que, diga-se de passagem, n\u00e3o \u00e9 o caso de Concei\u00e7\u00e3o do Par\u00e1. A cidade se estende pelo vale, acompanhando o curso do rio.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das hort\u00eansias, gostava \u2014 e ainda gosto \u2014 dos copos-de-leite e das margaridas. A beleza, o nome e o formato dessas flores me remetem \u00e0s manh\u00e3s frias da inf\u00e2ncia. Minhas amigas dizem que s\u00e3o flores de \u201cjovens senhoras\u201d. Eu concordo. S\u00e3o t\u00e3o antigas quanto a minha alma.<\/p>\n<p>Entre hort\u00eansias e margaridas, orqu\u00eddeas e girass\u00f3is, descubro que as flores n\u00e3o s\u00e3o apenas enfeites: s\u00e3o guardi\u00e3s dos nossos afetos. Carregam saudades, celebram alegrias e, silenciosamente, nos lembram que a vida floresce sempre. No quintal, cada p\u00e9tala \u00e9 mem\u00f3ria, cada raiz \u00e9 la\u00e7o e cada flor \u00e9 um gesto de amor que nunca se perde.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2467\" aria-describedby=\"caption-attachment-2467\" style=\"width: 619px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-2467\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-300x140.png\" alt=\"\" width=\"619\" height=\"289\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-300x140.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-768x359.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888.png 994w\" sizes=\"(max-width: 619px) 100vw, 619px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2467\" class=\"wp-caption-text\">Gisele Bicalho \u00e9 jornalista e escritora<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na minha fam\u00edlia, grande e barulhenta, as flores s\u00e3o testemunhas silenciosas dos nossos ciclos de vida. Elas brotam tanto em momentos de dor quanto de alegria; carregam significados que v\u00e3o muito al\u00e9m da beleza. H\u00e1 flores que chegam como b\u00e1lsamo em dias de tristeza; outras florescem em meio \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o. A pata-de-elefante que Denise comprou \u2014 rara e cara \u2014 na semana em que mam\u00e3e se despediu, guarda o peso da saudade. Ao lado dela, a vermelha vibrante que Guto, Bernardo e Juju presentearam \u00e0 Denise ilumina a mem\u00f3ria da alegria compartilhada. Entre p\u00e9talas e lembran\u00e7as, a vida se revela: ora luto, ora festa, sempre marcada pela delicadeza das flores. Nana, com sua generosidade, muitas vezes nos presenteia com orqu\u00eddeas. Al\u00e9m de lindas, elas se perpetuam, florescendo vez ap\u00f3s vez, como se devolvessem em cores o carinho que sentimos umas pelas outras. Mam\u00e3e adorava amor-perfeito. Jacq se encanta com girass\u00f3is. E Denise\u2026 ah, Denise \u00e9 a \u201clouca das plantas\u201d. Com seu \u201cdedo verde\u201d, semeia vida por onde passa. O resultado desse amor sem medida \u00e9 que nosso pequeno quintal virou quase uma selva. E ai de quem ousar disputar um palmo de terra para plantar uma erva, uma couve ou um mamoeiro. \u00c9 briga na certa! A solu\u00e7\u00e3o foi espalhar alecrim, manjeric\u00e3o e salsa em vasos. Sobrou at\u00e9 para a jabuticabeira e para o limoeiro, que seguem firmes, nos vasos, testemunhando nossa hist\u00f3ria. Nem a mangueira escapa da saga ocupacionista da Denise: o tronco abriga orqu\u00eddeas e brom\u00e9lias. Ambas n\u00e3o s\u00f3 se abrigam ali, como tamb\u00e9m se embelezam com sua presen\u00e7a. Lindo de se ter. Lindo de se ver. Esse amor n\u00e3o nasceu ontem. Teve um dia em que o papai saiu port\u00e3o afora e foi at\u00e9 a floricultura da Rosilene (repare que a propriet\u00e1ria j\u00e1 carrega nome de flor). Escolheu a muda mais bonita e, matreiro, j\u00e1 tinha em mente o vaso: um tronco marcado pelo tempo. Sabia que iria agradar. Com a ajuda do Beto, preparou a terra mais f\u00e9rtil, o esterco mais rico e transplantou a belezura. A ela deu o nome de \u201cFlor da Denisinha\u201d. Uma homenagem \u00e0 filha, companheira de todas as horas. E como quem pede desculpas sem precisar, achegou-se a mim e confidenciou: \u2014 Voc\u00ea e suas irm\u00e3s tamb\u00e9m v\u00e3o ganhar flores. Estou preparando um canteiro igual \u00e0quele que voc\u00ea gostou, cheio de ondas como os pr\u00e9dios de Bras\u00edlia. Vou plantar as palmas que sua m\u00e3e tanto amava. Uma para cada filha. Foi esperto: usou Niemeyer e mam\u00e3e como refer\u00eancias. Justo os dois. Quem teria ci\u00fames depois disso? Essa prosa sobre flores e demonstra\u00e7\u00f5es de amor me trouxe saudades de uma infinidade de coisas. Uma delas \u00e9 o jardim da minha av\u00f3. Era lindo demais. Os canteiros, demarcados por tijolos, formavam desenhos geom\u00e9tricos. Nada crescia ao acaso. Havia losangos, ret\u00e2ngulos, quadrados e c\u00edrculos. Neles floresciam rosas, l\u00edrios, palmas e copos-de-leite. O meu preferido era o de hort\u00eansias. Talvez pela cor. Os buqu\u00eas azuis cresciam debaixo da janela do quarto dos meus tios. Abundantes, floresciam o ano inteiro. Talvez porque ali fosse mais frio e sombreado. N\u00e3o por acaso, hort\u00eansias s\u00e3o comuns nas geladas regi\u00f5es serranas, o que, diga-se de passagem, n\u00e3o \u00e9 o caso de Concei\u00e7\u00e3o do Par\u00e1. A cidade se estende pelo vale, acompanhando o curso do rio. Al\u00e9m das hort\u00eansias, gostava \u2014 e ainda gosto \u2014 dos copos-de-leite e das margaridas. A beleza, o nome e o formato dessas flores me remetem \u00e0s manh\u00e3s frias da inf\u00e2ncia. Minhas amigas dizem que s\u00e3o flores de \u201cjovens senhoras\u201d. Eu concordo. S\u00e3o t\u00e3o antigas quanto a minha alma. Entre hort\u00eansias e margaridas, orqu\u00eddeas e girass\u00f3is, descubro que as flores n\u00e3o s\u00e3o apenas enfeites: s\u00e3o guardi\u00e3s dos nossos afetos. Carregam saudades, celebram alegrias e, silenciosamente, nos lembram que a vida floresce sempre. No quintal, cada p\u00e9tala \u00e9 mem\u00f3ria, cada raiz \u00e9 la\u00e7o e cada flor \u00e9 um gesto de amor que nunca se perde.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2467,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[167],"tags":[293],"class_list":["post-2682","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-gisele-bicalho","tag-comportamento"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2682","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2682"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2682\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2684,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2682\/revisions\/2684"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2467"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2682"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2682"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2682"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}