{"id":2653,"date":"2026-03-28T15:51:39","date_gmt":"2026-03-28T18:51:39","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2653"},"modified":"2026-03-30T15:56:09","modified_gmt":"2026-03-30T18:56:09","slug":"2653","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2653","title":{"rendered":"O sabor dos encontros"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2654\" aria-describedby=\"caption-attachment-2654\" style=\"width: 985px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2654\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/gisele-bicalho-300x272.jpeg\" alt=\"\" width=\"985\" height=\"893\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/gisele-bicalho-300x272.jpeg 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/gisele-bicalho-768x696.jpeg 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/gisele-bicalho.jpeg 1024w\" sizes=\"(max-width: 985px) 100vw, 985px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2654\" class=\"wp-caption-text\"><strong>La\u00eds, Gisele, Fl\u00e1via e Maiara compartilham da ideia de que almo\u00e7o bom \u00e9 aquele temperado com amizade e risadas. Foto: Fabiano Domingues<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p>A hora do almo\u00e7o \u00e9 mais que refei\u00e7\u00e3o; \u00e9 encontro. No meio da correria do trabalho, quando os prazos apertam, as mensagens de celular n\u00e3o param e os e-mails se acumulam, a mesa vira ref\u00fagio. \u00c9 ali que respiramos, dividimos hist\u00f3rias, soltamos risadas e descobrimos que a comida \u00e9 apenas pano de fundo para algo maior: o afeto que circula entre colegas, amigos e familiares.<\/p>\n<p>No intervalo, os la\u00e7os se fortalecem. Um colega vira confidente, uma conversa descontrai, uma lembran\u00e7a aproxima. O almo\u00e7o \u00e9 pausa, \u00e9 fuga da rotina, \u00e9 aquele momento em que o cora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se alimenta. Corpo e alma nutridos, seguimos o dia at\u00e9 o reencontro da noite, quando o jantar em fam\u00edlia devolve o aconchego do ninho. Cada mesa guarda mem\u00f3rias. No fim das contas, n\u00e3o se trata apenas de matar a fome, mas de estar junto e de perceber que a vida fica mais leve quando compartilhamos cada instante.<\/p>\n<p>E se voc\u00ea me permite um conselho: nada de deixar para depois. A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 que a vida corre r\u00e1pida demais, escorre pelos dedos. Outro dia mesmo \u00e9ramos crian\u00e7as. N\u00e3o h\u00e1 como esquecer das noites mornas de maio, das irm\u00e3s e amigas que passavam horas no telhado observando estrelas, longe do olhar atento da nossa m\u00e3e. Ou das f\u00e9rias intensas com primas e amigas. Teve at\u00e9 aquela que perdeu os cachos dourados nas m\u00e3os da Gyslaine. Durante meses fugimos da irm\u00e3 mais velha, disposta a nos \u201ctosquiar\u201d tamb\u00e9m. Melhor abafar o caso.<\/p>\n<p>Nessa mesma \u00e9poca, eu e essa mesma amiga passamos a praticar uma esp\u00e9cie de arqueologia dom\u00e9stica: revir\u00e1vamos os livros escondidos na estante da minha m\u00e3e em busca de pistas sobre o mundo secreto dos adultos. Foi assim que encontramos <em>A trag\u00e9dia biol\u00f3gica da mulher<\/em>. O t\u00edtulo, t\u00e3o dram\u00e1tico, nos ati\u00e7ava mais do que qualquer sinopse. Que trag\u00e9dia era essa que morava dentro da gente e que ningu\u00e9m explicava com todas as letras?<\/p>\n<p>Escondidas entre as sombras das \u00e1rvores do quintal, lemos aquelas p\u00e1ginas como quem decifra um mapa. E embora n\u00e3o entend\u00eassemos tudo, havia um peso ali, como se ser mulher viesse com manual de sofrimento inclu\u00eddo.<\/p>\n<p>Na mesma \u00e9poca, minha irm\u00e3, dois anos mais velha, ficou menstruada. O primeiro absorvente foi presente do nosso av\u00f4. Sim, do av\u00f4. Em um gesto discreto, quase cerimonioso, ele entregou \u00e0 neta o item como um rito de passagem: \u201cAgora, minha querida, voc\u00ea pertence ao mundo das mulheres\u201d.<br \/>\nN\u00e3o se espante. Vov\u00f4 era assim: amoroso e pr\u00f3ximo. Por mais desafiador que fosse o momento, estava sempre por perto.<\/p>\n<p>Quanto a mim, sofri muito na transi\u00e7\u00e3o para a adolesc\u00eancia. Recusava-me a crescer. Gostava das coisas como estavam. A ideia de menstruar me assombrava: significava abrir m\u00e3o das bonecas, das brincadeiras no quintal, da minha goiabeira de estima\u00e7\u00e3o e de tantos privil\u00e9gios reservados \u00e0 inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Depois vieram os amigos da adolesc\u00eancia e, com eles, o encantamento das horas dan\u00e7antes na casa paroquial ao som de Norberto e seu Conjunto, os mesmos m\u00fasicos que animavam os bailes da igreja. Como esquecer dos beijos roubados longe dos olhares atentos dos pais? Ainda hoje posso ouvir a voz firme de Papai, que, no auge do baile, bradava em alto e bom som:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos embora!<\/p>\n<p>E era da cama, entre risos e protestos silenciosos, que a gente continuava ouvindo bem baixinho as can\u00e7\u00f5es at\u00e9 que a banda do Norberto parasse de tocar.<\/p>\n<p>At\u00e9 que chegou a juventude e, com ela, a Universidade. Tempo de conquistas e novos amigos. Muitos permaneceram. Se os la\u00e7os s\u00e3o fortes, a tecnologia impede a dispers\u00e3o: seguimos juntos em um grupo de WhatsApp. Com a maturidade, os irreverentes e inquietos \u201cFilhos e Filhas da PUC\u201d tornaram-se os amorosos \u201cAmigos e Amigas da PUC\u201d. E esses vieram para ficar.<\/p>\n<p>E \u00e9 nesse reencontro constante, ponte que une passado e presente, que ecoa a can\u00e7\u00e3o de Lulu Santos: \u201cHoje o tempo voa, amor, escorre pelas m\u00e3os. Vamos viver tudo que h\u00e1 pra viver, vamos nos permitir\u201d. Sim, mas com modera\u00e7\u00e3o. Afinal, na idade em que estamos, o corpo j\u00e1 n\u00e3o faz tantas concess\u00f5es. A exaust\u00e3o da mat\u00e9ria se revela na can\u00e7\u00e3o do Legi\u00e3o Urbana: \u201cn\u00e3o h\u00e1 tempo que volte\u201d.<\/p>\n<p>As duas vozes se entrela\u00e7am para nos lembrar que, se a mem\u00f3ria aquece o cora\u00e7\u00e3o, \u00e9 o estar junto que verdadeiramente nos alimenta. Partilhar hist\u00f3rias, abra\u00e7os e afetos \u00e9 o que d\u00e1 sentido ao tempo que corre. No fim, n\u00e3o \u00e9 apenas sobre refei\u00e7\u00f5es, encontros ou lembran\u00e7as: \u00e9 sobre reconhecer que a vida se sustenta naquilo que dividimos uns com os outros. E que cada instante compartilhado \u00e9 um sabor que permanece, mesmo quando o tempo insiste em voar.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2467\" aria-describedby=\"caption-attachment-2467\" style=\"width: 806px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-2467\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-300x140.png\" alt=\"\" width=\"806\" height=\"376\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-300x140.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-768x359.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888.png 994w\" sizes=\"(max-width: 806px) 100vw, 806px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2467\" class=\"wp-caption-text\">Gisele Bicalho \u00e9 jornalista e escritora<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hora do almo\u00e7o \u00e9 mais que refei\u00e7\u00e3o; \u00e9 encontro. 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A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 que a vida corre r\u00e1pida demais, escorre pelos dedos. Outro dia mesmo \u00e9ramos crian\u00e7as. N\u00e3o h\u00e1 como esquecer das noites mornas de maio, das irm\u00e3s e amigas que passavam horas no telhado observando estrelas, longe do olhar atento da nossa m\u00e3e. Ou das f\u00e9rias intensas com primas e amigas. Teve at\u00e9 aquela que perdeu os cachos dourados nas m\u00e3os da Gyslaine. Durante meses fugimos da irm\u00e3 mais velha, disposta a nos \u201ctosquiar\u201d tamb\u00e9m. Melhor abafar o caso. Nessa mesma \u00e9poca, eu e essa mesma amiga passamos a praticar uma esp\u00e9cie de arqueologia dom\u00e9stica: revir\u00e1vamos os livros escondidos na estante da minha m\u00e3e em busca de pistas sobre o mundo secreto dos adultos. Foi assim que encontramos A trag\u00e9dia biol\u00f3gica da mulher. O t\u00edtulo, t\u00e3o dram\u00e1tico, nos ati\u00e7ava mais do que qualquer sinopse. Que trag\u00e9dia era essa que morava dentro da gente e que ningu\u00e9m explicava com todas as letras? Escondidas entre as sombras das \u00e1rvores do quintal, lemos aquelas p\u00e1ginas como quem decifra um mapa. E embora n\u00e3o entend\u00eassemos tudo, havia um peso ali, como se ser mulher viesse com manual de sofrimento inclu\u00eddo. Na mesma \u00e9poca, minha irm\u00e3, dois anos mais velha, ficou menstruada. O primeiro absorvente foi presente do nosso av\u00f4. Sim, do av\u00f4. Em um gesto discreto, quase cerimonioso, ele entregou \u00e0 neta o item como um rito de passagem: \u201cAgora, minha querida, voc\u00ea pertence ao mundo das mulheres\u201d. N\u00e3o se espante. Vov\u00f4 era assim: amoroso e pr\u00f3ximo. Por mais desafiador que fosse o momento, estava sempre por perto. Quanto a mim, sofri muito na transi\u00e7\u00e3o para a adolesc\u00eancia. Recusava-me a crescer. Gostava das coisas como estavam. A ideia de menstruar me assombrava: significava abrir m\u00e3o das bonecas, das brincadeiras no quintal, da minha goiabeira de estima\u00e7\u00e3o e de tantos privil\u00e9gios reservados \u00e0 inf\u00e2ncia. Depois vieram os amigos da adolesc\u00eancia e, com eles, o encantamento das horas dan\u00e7antes na casa paroquial ao som de Norberto e seu Conjunto, os mesmos m\u00fasicos que animavam os bailes da igreja. Como esquecer dos beijos roubados longe dos olhares atentos dos pais? Ainda hoje posso ouvir a voz firme de Papai, que, no auge do baile, bradava em alto e bom som: &#8211; Vamos embora! E era da cama, entre risos e protestos silenciosos, que a gente continuava ouvindo bem baixinho as can\u00e7\u00f5es at\u00e9 que a banda do Norberto parasse de tocar. At\u00e9 que chegou a juventude e, com ela, a Universidade. Tempo de conquistas e novos amigos. Muitos permaneceram. Se os la\u00e7os s\u00e3o fortes, a tecnologia impede a dispers\u00e3o: seguimos juntos em um grupo de WhatsApp. Com a maturidade, os irreverentes e inquietos \u201cFilhos e Filhas da PUC\u201d tornaram-se os amorosos \u201cAmigos e Amigas da PUC\u201d. E esses vieram para ficar. E \u00e9 nesse reencontro constante, ponte que une passado e presente, que ecoa a can\u00e7\u00e3o de Lulu Santos: \u201cHoje o tempo voa, amor, escorre pelas m\u00e3os. Vamos viver tudo que h\u00e1 pra viver, vamos nos permitir\u201d. Sim, mas com modera\u00e7\u00e3o. Afinal, na idade em que estamos, o corpo j\u00e1 n\u00e3o faz tantas concess\u00f5es. A exaust\u00e3o da mat\u00e9ria se revela na can\u00e7\u00e3o do Legi\u00e3o Urbana: \u201cn\u00e3o h\u00e1 tempo que volte\u201d. As duas vozes se entrela\u00e7am para nos lembrar que, se a mem\u00f3ria aquece o cora\u00e7\u00e3o, \u00e9 o estar junto que verdadeiramente nos alimenta. 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