{"id":2617,"date":"2026-03-21T09:15:24","date_gmt":"2026-03-21T12:15:24","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2617"},"modified":"2026-03-21T09:15:41","modified_gmt":"2026-03-21T12:15:41","slug":"entre-formigas-e-afetos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2617","title":{"rendered":"Entre formigas e afetos"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2618\" aria-describedby=\"caption-attachment-2618\" style=\"width: 813px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2618\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/brigadeiro-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"813\" height=\"542\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/brigadeiro-300x200.jpg 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/brigadeiro-768x512.jpg 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/brigadeiro-150x100.jpg 150w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/brigadeiro-330x220.jpg 330w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/brigadeiro-420x280.jpg 420w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/brigadeiro-510x340.jpg 510w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/brigadeiro.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 813px) 100vw, 813px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2618\" class=\"wp-caption-text\"><strong>O delicioso brigadeiro, uma paix\u00e3o nacional &#8211; Imagem &#8211; Pixabay<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p>Dizem que o brasileiro n\u00e3o nasce, ele estreia. E, geralmente, a estreia envolve um brigadeiro. Se voc\u00ea colocar um doce europeu ou asi\u00e1tico e um brasileiro lado a lado, a diferen\u00e7a \u00e9 clara: tanto o europeu quanto o asi\u00e1tico s\u00e3o contidos, sutis, quase t\u00edmidos. O brasileiro? Ah, o brasileiro chega chegando, brilhando na calda, gritando a\u00e7\u00facar e pedindo um copo d\u2019\u00e1gua logo em seguida.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o nos culpem. Nossa \u201cformiguice\u201d \u00e9 gen\u00e9tica, hist\u00f3rica e, curiosamente, pol\u00edtica. Tudo come\u00e7ou l\u00e1 atr\u00e1s, de quando o a\u00e7\u00facar era o dono do peda\u00e7o. Gilberto Freyre, nosso soci\u00f3logo-mor, explicava que o doce foi o grande pacificador da nossa hist\u00f3ria. O a\u00e7\u00facar \u201camaciava\u201d o Brasil. Antes do advento da geladeira, ou voc\u00ea mergulhava a fruta em uma calda pesad\u00edssima ou perdia a colheita. Aprendemos a gostar do doce muito doce porque era assim que a comida sobrevivia ao morma\u00e7o dos tr\u00f3picos.<\/p>\n<p>Essa do\u00e7ura era t\u00e3o valiosa que atravessava gera\u00e7\u00f5es como um tesouro de fam\u00edlia. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando o a\u00e7\u00facar branco era artigo de luxo e desaparecia das prateleiras, meu av\u00f4, que era agente de trem, conseguiu um punhadinho desse p\u00f3 precioso. Levou para casa com o cuidado de quem carrega uma joia rara para presentear minha av\u00f3. Ela, com sua sabedoria ancestral, tratou logo de transformar aqueles gr\u00e3os dulc\u00edssimos em um prato de sequilhos de coco \u2014 uma raridade naqueles tempos dif\u00edceis.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria, por\u00e9m, guarda sua pitada de amargura: para agradar a um compadre que apareceu sem convite para o caf\u00e9, vov\u00f3 ofereceu a iguaria, que rendeu um s\u00f3 prato. O homem n\u00e3o s\u00f3 se deliciou com v\u00e1rios como, num excesso de gentileza (alheia), levou o que sobrou para a comadre. Para a fam\u00edlia, que assistiu \u00e0 cena, ficou apenas o cheiro do coco e a decep\u00e7\u00e3o de ver o tesouro ir embora embrulhado em um guardanapo.<\/p>\n<p>Essa escassez do p\u00f3s-guerra tamb\u00e9m foi o ber\u00e7o do nosso maior \u00edcone: o brigadeiro. No auge da campanha de 1945, o leite condensado surgiu como o substituto moderno para o a\u00e7\u00facar que faltava. O Brigadeiro Eduardo Gomes perdeu a elei\u00e7\u00e3o, mas o doce ganhou o pa\u00eds. Trocamos o a\u00e7\u00facar de tacho pela lata de leite mo\u00e7a e criamos uma democracia de bolinhas de chocolate. Hoje, o brigadeiro \u00e9 o \u00fanico consenso nacional. Nossos sobrinhos e sobrinhos-netos representam bem essa prefer\u00eancia nacional.<\/p>\n<p>Por outro lado, meu irm\u00e3o Beto ama pudins; j\u00e1 o ca\u00e7ula da nossa fam\u00edlia grande e barulhenta gosta sem medida de todos. N\u00e3o por acaso\u2026 ihhhh, melhor abafar o caso. Quanto a n\u00f3s, habitantes da \u201ccasa das sete mulheres\u201d, n\u00e3o h\u00e1 consenso. Se \u00e9 para escolher, nos dividimos entre o manjar branco, a torta de amendoim, a torta morna de coco e outras del\u00edcias garimpadas dos cadernos ancestrais.<\/p>\n<p>No fim das contas, nossa do\u00e7ura exagerada \u00e9 um abra\u00e7o. \u00c9 o caf\u00e9 com colheres de a\u00e7\u00facar \u201cpara aguentar o tranco\u201d, \u00e9 o pudim de leite que escorre calda pelo queixo, \u00e9 a goiabada com queijo que resolve qualquer tristeza de domingo. Podemos at\u00e9 tentar ser \u201cfitness\u201d, mas o cora\u00e7\u00e3o do brasileiro s\u00f3 bate feliz mesmo quando encontra aquele doce que faz a alma suspirar e o dentista chorar. Somos um povo em ponto de fio: doce, grudento e imposs\u00edvel de resistir.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2467\" aria-describedby=\"caption-attachment-2467\" style=\"width: 709px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-2467\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-300x140.png\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"331\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-300x140.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-768x359.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888.png 994w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2467\" class=\"wp-caption-text\">Gisele Bicalho \u00e9 jornalista e escritora<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dizem que o brasileiro n\u00e3o nasce, ele estreia. E, geralmente, a estreia envolve um brigadeiro. Se voc\u00ea colocar um doce europeu ou asi\u00e1tico e um brasileiro lado a lado, a diferen\u00e7a \u00e9 clara: tanto o europeu quanto o asi\u00e1tico s\u00e3o contidos, sutis, quase t\u00edmidos. O brasileiro? Ah, o brasileiro chega chegando, brilhando na calda, gritando a\u00e7\u00facar e pedindo um copo d\u2019\u00e1gua logo em seguida. Mas n\u00e3o nos culpem. Nossa \u201cformiguice\u201d \u00e9 gen\u00e9tica, hist\u00f3rica e, curiosamente, pol\u00edtica. Tudo come\u00e7ou l\u00e1 atr\u00e1s, de quando o a\u00e7\u00facar era o dono do peda\u00e7o. Gilberto Freyre, nosso soci\u00f3logo-mor, explicava que o doce foi o grande pacificador da nossa hist\u00f3ria. O a\u00e7\u00facar \u201camaciava\u201d o Brasil. Antes do advento da geladeira, ou voc\u00ea mergulhava a fruta em uma calda pesad\u00edssima ou perdia a colheita. Aprendemos a gostar do doce muito doce porque era assim que a comida sobrevivia ao morma\u00e7o dos tr\u00f3picos. Essa do\u00e7ura era t\u00e3o valiosa que atravessava gera\u00e7\u00f5es como um tesouro de fam\u00edlia. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando o a\u00e7\u00facar branco era artigo de luxo e desaparecia das prateleiras, meu av\u00f4, que era agente de trem, conseguiu um punhadinho desse p\u00f3 precioso. Levou para casa com o cuidado de quem carrega uma joia rara para presentear minha av\u00f3. Ela, com sua sabedoria ancestral, tratou logo de transformar aqueles gr\u00e3os dulc\u00edssimos em um prato de sequilhos de coco \u2014 uma raridade naqueles tempos dif\u00edceis. A hist\u00f3ria, por\u00e9m, guarda sua pitada de amargura: para agradar a um compadre que apareceu sem convite para o caf\u00e9, vov\u00f3 ofereceu a iguaria, que rendeu um s\u00f3 prato. O homem n\u00e3o s\u00f3 se deliciou com v\u00e1rios como, num excesso de gentileza (alheia), levou o que sobrou para a comadre. Para a fam\u00edlia, que assistiu \u00e0 cena, ficou apenas o cheiro do coco e a decep\u00e7\u00e3o de ver o tesouro ir embora embrulhado em um guardanapo. Essa escassez do p\u00f3s-guerra tamb\u00e9m foi o ber\u00e7o do nosso maior \u00edcone: o brigadeiro. No auge da campanha de 1945, o leite condensado surgiu como o substituto moderno para o a\u00e7\u00facar que faltava. O Brigadeiro Eduardo Gomes perdeu a elei\u00e7\u00e3o, mas o doce ganhou o pa\u00eds. Trocamos o a\u00e7\u00facar de tacho pela lata de leite mo\u00e7a e criamos uma democracia de bolinhas de chocolate. Hoje, o brigadeiro \u00e9 o \u00fanico consenso nacional. Nossos sobrinhos e sobrinhos-netos representam bem essa prefer\u00eancia nacional. Por outro lado, meu irm\u00e3o Beto ama pudins; j\u00e1 o ca\u00e7ula da nossa fam\u00edlia grande e barulhenta gosta sem medida de todos. N\u00e3o por acaso\u2026 ihhhh, melhor abafar o caso. Quanto a n\u00f3s, habitantes da \u201ccasa das sete mulheres\u201d, n\u00e3o h\u00e1 consenso. Se \u00e9 para escolher, nos dividimos entre o manjar branco, a torta de amendoim, a torta morna de coco e outras del\u00edcias garimpadas dos cadernos ancestrais. No fim das contas, nossa do\u00e7ura exagerada \u00e9 um abra\u00e7o. \u00c9 o caf\u00e9 com colheres de a\u00e7\u00facar \u201cpara aguentar o tranco\u201d, \u00e9 o pudim de leite que escorre calda pelo queixo, \u00e9 a goiabada com queijo que resolve qualquer tristeza de domingo. Podemos at\u00e9 tentar ser \u201cfitness\u201d, mas o cora\u00e7\u00e3o do brasileiro s\u00f3 bate feliz mesmo quando encontra aquele doce que faz a alma suspirar e o dentista chorar. 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