{"id":2613,"date":"2026-03-16T09:11:18","date_gmt":"2026-03-16T12:11:18","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2613"},"modified":"2026-03-21T09:13:13","modified_gmt":"2026-03-21T12:13:13","slug":"nunca-deixe-o-seu-fogao-apagado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2613","title":{"rendered":"Nunca deixe o seu fog\u00e3o apagado"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2614 alignnone\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Gisele-300x187.jpg\" alt=\"\" width=\"817\" height=\"509\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Gisele-300x187.jpg 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Gisele-768x479.jpg 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Gisele.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 817px) 100vw, 817px\" \/><\/p>\n<p>Existe um prazer silencioso em terminar um prato. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 sobre saciar a fome; \u00e9 sobre sentir que se fez algo por algu\u00e9m. Na cozinha de casa n\u00e3o se forma apenas repert\u00f3rio alimentar: formam-se mem\u00f3rias. Cada receita repetida vira refer\u00eancia, cada tempero ensina o paladar, cada mesa posta fortalece v\u00ednculos.<\/p>\n<p>Quando a gente cozinha, abre espa\u00e7o para lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia, para hist\u00f3rias contadas entre colheradas, para risadas que se misturam ao cheiro do alho refogado. Nada disso \u00e9 por acaso.<\/p>\n<p>A cozinha \u00e9 cultural antes de ser funcional. \u00c9 territ\u00f3rio de afeto, de conviv\u00eancia, de amor traduzido em comida. Como no caso da empada de frango. Cansada de procurar o sabor da inf\u00e2ncia nas empadas que insistimos em comprar, minha irm\u00e3 prop\u00f4s uma viagem pelos cadernos de receitas herdados da Vov\u00f3 e da Mam\u00e3e.<\/p>\n<p>Foi assim que reencontramos n\u00e3o apenas o sabor, mas tamb\u00e9m a hist\u00f3ria. Minha av\u00f3 havia ensinado a uma das noras o segredo da empada de \u201cmassa podre\u201d. Desse gesto simples nasceu muito mais do que uma receita: nasceu uma empresa. Com a coragem, determina\u00e7\u00e3o e o esp\u00edrito empreendedor da nora, aquela receita de fam\u00edlia se transformou em oportunidade e tradi\u00e7\u00e3o, levando o sabor da nossa cozinha para v\u00e1rias regi\u00f5es de Minas Gerais.<\/p>\n<p>De volta \u00e0 cozinha aqui de casa, se insisto em preparar o jantar depois de um dia exaustivo, \u00e9 porque odeio fog\u00e3o apagado. Fog\u00e3o apagado deixa a casa sem alma. Reunir a fam\u00edlia em torno da mesa devolve a sensa\u00e7\u00e3o de lar, de casa, de ancestralidade.<\/p>\n<p>Na cozinha caseira, tudo se transforma em conviv\u00eancia. H\u00e1 quem fa\u00e7a o <em>mise en place<\/em> \u2014 no caso, eu. H\u00e1 quem mexa as panelas, tempere os pratos, arrume a mesa. E por aqui vale aquela m\u00e1xima (nem sempre cumprida) de que quem cozinha n\u00e3o lava, e quem lava n\u00e3o cozinha. Cada gesto \u00e9 parte de um ritual que vai muito al\u00e9m da comida: \u00e9 sobre dividir espa\u00e7o, dividir tempo, dividir vida.<\/p>\n<p>O mesmo vale para o caf\u00e9 da manh\u00e3. Preparar a mesa com uma toalha bonita, usar as melhores x\u00edcaras, pires, pratos de sobremesa e talheres; colocar o p\u00e3o, o bolo, os biscoitos, o queijo, o caf\u00e9 fresco, a fruta cortada. Tudo isso faz parte desse exerc\u00edcio de manter os v\u00ednculos familiares e amorosos. \u00c9 nesse gesto simples que se reafirma o cuidado, a presen\u00e7a e o amor que sustentam a vida em comum.<\/p>\n<p>Talvez por isso a cozinha nunca tenha sido detalhe na vida de quem gosta de receber bem. Porque receber \u00e9 mais do que abrir a porta: \u00e9 abrir o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 t\u00e9cnica como em cozinhas de <em>chef<\/em>. Tudo \u00e9 emp\u00edrico. Inclui observa\u00e7\u00e3o, troca, repert\u00f3rio e conviv\u00eancia. Tudo isso se encontra para transformar o ato de cozinhar em algo maior do que a soma dos ingredientes. \u00c9 sobre gente, sobre companhia, sobre o calor que s\u00f3 uma mesa cheia pode dar.<\/p>\n<p>E o caf\u00e9? O caf\u00e9 quase nunca \u00e9 s\u00f3 caf\u00e9. \u00c9 desculpa para conversar, para rever algu\u00e9m, para encurtar dist\u00e2ncias. \u00c9 pausa no meio do caos; \u00e9 presen\u00e7a no sil\u00eancio. No fundo, ningu\u00e9m precisa de mais caf\u00e9; precisa de mais encontros. Seja em casa, seja no trabalho, seja na vida. No tempo da delicadeza, depois do almo\u00e7o, uma de n\u00f3s preparava o caf\u00e9 na cafeteira italiana e, ao lado da Mam\u00e3e, fic\u00e1vamos horas conversando \u00e0 mesa. Era um ritual simples, mas cheio de afeto. Nossa querida j\u00e1 se foi para onde s\u00f3 est\u00e3o os bons de cora\u00e7\u00e3o. Em mem\u00f3ria dela, e para o nosso prazer, mantemos o ritual. Mesmo que seja s\u00f3 aos finais de semana.<\/p>\n<p>E voc\u00ea? Com quem seu caf\u00e9 est\u00e1 pendente?<\/p>\n<figure id=\"attachment_2467\" aria-describedby=\"caption-attachment-2467\" style=\"width: 544px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-2467\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-300x140.png\" alt=\"\" width=\"544\" height=\"254\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-300x140.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-768x359.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888.png 994w\" sizes=\"(max-width: 544px) 100vw, 544px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2467\" class=\"wp-caption-text\">Gisele Bicalho \u00e9 jornalista e escritora<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existe um prazer silencioso em terminar um prato. 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Minha av\u00f3 havia ensinado a uma das noras o segredo da empada de \u201cmassa podre\u201d. Desse gesto simples nasceu muito mais do que uma receita: nasceu uma empresa. Com a coragem, determina\u00e7\u00e3o e o esp\u00edrito empreendedor da nora, aquela receita de fam\u00edlia se transformou em oportunidade e tradi\u00e7\u00e3o, levando o sabor da nossa cozinha para v\u00e1rias regi\u00f5es de Minas Gerais. De volta \u00e0 cozinha aqui de casa, se insisto em preparar o jantar depois de um dia exaustivo, \u00e9 porque odeio fog\u00e3o apagado. Fog\u00e3o apagado deixa a casa sem alma. Reunir a fam\u00edlia em torno da mesa devolve a sensa\u00e7\u00e3o de lar, de casa, de ancestralidade. Na cozinha caseira, tudo se transforma em conviv\u00eancia. H\u00e1 quem fa\u00e7a o mise en place \u2014 no caso, eu. H\u00e1 quem mexa as panelas, tempere os pratos, arrume a mesa. E por aqui vale aquela m\u00e1xima (nem sempre cumprida) de que quem cozinha n\u00e3o lava, e quem lava n\u00e3o cozinha. Cada gesto \u00e9 parte de um ritual que vai muito al\u00e9m da comida: \u00e9 sobre dividir espa\u00e7o, dividir tempo, dividir vida. O mesmo vale para o caf\u00e9 da manh\u00e3. Preparar a mesa com uma toalha bonita, usar as melhores x\u00edcaras, pires, pratos de sobremesa e talheres; colocar o p\u00e3o, o bolo, os biscoitos, o queijo, o caf\u00e9 fresco, a fruta cortada. Tudo isso faz parte desse exerc\u00edcio de manter os v\u00ednculos familiares e amorosos. \u00c9 nesse gesto simples que se reafirma o cuidado, a presen\u00e7a e o amor que sustentam a vida em comum. Talvez por isso a cozinha nunca tenha sido detalhe na vida de quem gosta de receber bem. Porque receber \u00e9 mais do que abrir a porta: \u00e9 abrir o cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 t\u00e9cnica como em cozinhas de chef. Tudo \u00e9 emp\u00edrico. 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