{"id":2548,"date":"2026-02-28T10:42:34","date_gmt":"2026-02-28T13:42:34","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2548"},"modified":"2026-02-28T10:42:34","modified_gmt":"2026-02-28T13:42:34","slug":"do-caos-ao-encanto-um-achado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2548","title":{"rendered":"Do caos ao encanto: um achado"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2549\" aria-describedby=\"caption-attachment-2549\" style=\"width: 760px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2549\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Vovo-Cocota-224x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"760\" height=\"1018\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Vovo-Cocota-224x300.jpeg 224w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Vovo-Cocota-765x1024.jpeg 765w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Vovo-Cocota-768x1029.jpeg 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Vovo-Cocota.jpeg 896w\" sizes=\"(max-width: 760px) 100vw, 760px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2549\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Vov\u00f3 Cocota com seu caderno de preciosidades dos anos de 1930. Imagem gerada por IA<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p>Quem diria que uma quarta-feira que come\u00e7ou com pia entupida, cozinha molhada e tudo fora do lugar terminaria com um resgate precioso da minha hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, a chegada do bombeiro hidr\u00e1ulico trouxe al\u00edvio. Mas logo veio o aviso: para consertar, era preciso encontrar o registro geral. Procura daqui, procura dali e nada de achar o danadinho. At\u00e9 que, com a maior naturalidade, o mo\u00e7o disse: \u201cTire tudo dali. Deve estar a\u00ed atr\u00e1s.\u201d<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que o \u201ctire tudo dali\u201d significava remover uma montanha de livros, revistas, sapatos, apostilas e objetos n\u00e3o identificados. Ordem dada, tarefa cumprida. Mexe daqui, mexe dali, sobe na escada, desce da escada e eis que em meio \u00e0 bagun\u00e7a, surge uma preciosidade: o Livro de Anota\u00e7\u00f5es da Maria Luiza Bicalho.<br \/>\nEssa rel\u00edquia herdada da minha querida Vov\u00f3 Cocota estava guardada sabe-se l\u00e1 por quanto tempo. Intacta. Nem cheiro de mofo tinha.<\/p>\n<p>O caderno manuscrito \u00e9 um verdadeiro retrato de \u00e9poca. Os escritos dos anos 1930 e 1940 revelam receitas que ainda hoje est\u00e3o presentes nas mesas da fam\u00edlia, descri\u00e7\u00f5es de enxovais, ilustra\u00e7\u00f5es feitas pela pr\u00f3pria m\u00e3o da minha av\u00f3 e muitas refer\u00eancias \u00e0 religiosidade. Em uma das p\u00e1ginas, ela registra a b\u00ean\u00e7\u00e3o do Padre Jos\u00e9 Joaquim de Menezes e agradece a Jesus pela liquida\u00e7\u00e3o das presta\u00e7\u00f5es da casa, o que se deu, segundo o que est\u00e1 registrado no caderno, em 21 de janeiro de 1939.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m receitas pr\u00f3prias para o per\u00edodo de abstin\u00eancia, tra\u00e7os do machismo da \u00e9poca e registros minuciosos das despesas da \u201ccasa do Nen\u00ea\u201d, como ela chamava a resid\u00eancia da fam\u00edlia. Cada p\u00e1gina \u00e9 um encantamento, um mergulho no passado.<\/p>\n<p>A caligrafia firme, os desenhos delicados e at\u00e9 as contas meticulosamente anotadas revelavam muito mais que o simples cotidiano: eram sinais da for\u00e7a e da sensibilidade de uma mulher que, mesmo sem o protagonismo reservado a poucas de seu tempo, soube registrar sua vida com cuidado e devo\u00e7\u00e3o. Cada tra\u00e7o parecia pulsar como se desse voz a uma hist\u00f3ria silenciosa, mas profundamente presente.<\/p>\n<p>De repente, percebi que aquele achado n\u00e3o era apenas um caderno antigo esquecido no fundo de uma pilha, mas um elo vivo entre gera\u00e7\u00f5es. Um testemunho de que nossa mem\u00f3ria se constr\u00f3i nos detalhes, nas receitas repetidas, nos gestos de f\u00e9, nas pequenas vit\u00f3rias do dia a dia, que ao serem preservados, transformam-se em heran\u00e7a afetiva capaz de atravessar d\u00e9cadas e nos lembrar quem somos e de onde viemos.<\/p>\n<p>Ainda sob o impacto da descoberta do caderno, o universo voltou a conspirar a meu favor. \u00c9 que ontem, durante as minhas incurs\u00f5es aleat\u00f3rias pelas redes sociais, me deparei com um post sobre comidas que despertam lembran\u00e7as afetivas. Provocada pelo influencer @caiobrito_oficial, n\u00e3o resisti e deixei um coment\u00e1rio. Contei que os pratos que mais tocam o meu cora\u00e7\u00e3o s\u00e3o o arroz de forno da Vov\u00f3 (que, n\u00e3o por acaso, est\u00e1 registrado no caderno) e a torta de amendoim da minha m\u00e3e. O resultado? Uma enxurrada (olha eu aqui, de novo, exagerada como na can\u00e7\u00e3o do Cazuza) de gente pedindo as receitas.<\/p>\n<p>E quanto \u00e0 bagun\u00e7a que tirei do lugar? Ah, isso fica para depois. Agora estou em modo resgate e esse mergulho na mem\u00f3ria n\u00e3o tem hora para acabar.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2467\" aria-describedby=\"caption-attachment-2467\" style=\"width: 720px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-2467 \" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-300x140.png\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"336\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-300x140.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888-768x359.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-e1772286112888.png 994w\" sizes=\"(max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2467\" class=\"wp-caption-text\">Gisele Bicalho \u00e9 jornalista e escritora<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem diria que uma quarta-feira que come\u00e7ou com pia entupida, cozinha molhada e tudo fora do lugar terminaria com um resgate precioso da minha hist\u00f3ria. No in\u00edcio, a chegada do bombeiro hidr\u00e1ulico trouxe al\u00edvio. Mas logo veio o aviso: para consertar, era preciso encontrar o registro geral. Procura daqui, procura dali e nada de achar o danadinho. At\u00e9 que, com a maior naturalidade, o mo\u00e7o disse: \u201cTire tudo dali. Deve estar a\u00ed atr\u00e1s.\u201d O problema \u00e9 que o \u201ctire tudo dali\u201d significava remover uma montanha de livros, revistas, sapatos, apostilas e objetos n\u00e3o identificados. Ordem dada, tarefa cumprida. Mexe daqui, mexe dali, sobe na escada, desce da escada e eis que em meio \u00e0 bagun\u00e7a, surge uma preciosidade: o Livro de Anota\u00e7\u00f5es da Maria Luiza Bicalho. Essa rel\u00edquia herdada da minha querida Vov\u00f3 Cocota estava guardada sabe-se l\u00e1 por quanto tempo. Intacta. Nem cheiro de mofo tinha. O caderno manuscrito \u00e9 um verdadeiro retrato de \u00e9poca. Os escritos dos anos 1930 e 1940 revelam receitas que ainda hoje est\u00e3o presentes nas mesas da fam\u00edlia, descri\u00e7\u00f5es de enxovais, ilustra\u00e7\u00f5es feitas pela pr\u00f3pria m\u00e3o da minha av\u00f3 e muitas refer\u00eancias \u00e0 religiosidade. Em uma das p\u00e1ginas, ela registra a b\u00ean\u00e7\u00e3o do Padre Jos\u00e9 Joaquim de Menezes e agradece a Jesus pela liquida\u00e7\u00e3o das presta\u00e7\u00f5es da casa, o que se deu, segundo o que est\u00e1 registrado no caderno, em 21 de janeiro de 1939. H\u00e1 tamb\u00e9m receitas pr\u00f3prias para o per\u00edodo de abstin\u00eancia, tra\u00e7os do machismo da \u00e9poca e registros minuciosos das despesas da \u201ccasa do Nen\u00ea\u201d, como ela chamava a resid\u00eancia da fam\u00edlia. Cada p\u00e1gina \u00e9 um encantamento, um mergulho no passado. A caligrafia firme, os desenhos delicados e at\u00e9 as contas meticulosamente anotadas revelavam muito mais que o simples cotidiano: eram sinais da for\u00e7a e da sensibilidade de uma mulher que, mesmo sem o protagonismo reservado a poucas de seu tempo, soube registrar sua vida com cuidado e devo\u00e7\u00e3o. Cada tra\u00e7o parecia pulsar como se desse voz a uma hist\u00f3ria silenciosa, mas profundamente presente. De repente, percebi que aquele achado n\u00e3o era apenas um caderno antigo esquecido no fundo de uma pilha, mas um elo vivo entre gera\u00e7\u00f5es. Um testemunho de que nossa mem\u00f3ria se constr\u00f3i nos detalhes, nas receitas repetidas, nos gestos de f\u00e9, nas pequenas vit\u00f3rias do dia a dia, que ao serem preservados, transformam-se em heran\u00e7a afetiva capaz de atravessar d\u00e9cadas e nos lembrar quem somos e de onde viemos. Ainda sob o impacto da descoberta do caderno, o universo voltou a conspirar a meu favor. \u00c9 que ontem, durante as minhas incurs\u00f5es aleat\u00f3rias pelas redes sociais, me deparei com um post sobre comidas que despertam lembran\u00e7as afetivas. Provocada pelo influencer @caiobrito_oficial, n\u00e3o resisti e deixei um coment\u00e1rio. Contei que os pratos que mais tocam o meu cora\u00e7\u00e3o s\u00e3o o arroz de forno da Vov\u00f3 (que, n\u00e3o por acaso, est\u00e1 registrado no caderno) e a torta de amendoim da minha m\u00e3e. O resultado? Uma enxurrada (olha eu aqui, de novo, exagerada como na can\u00e7\u00e3o do Cazuza) de gente pedindo as receitas. E quanto \u00e0 bagun\u00e7a que tirei do lugar? Ah, isso fica para depois. 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