{"id":2489,"date":"2026-02-14T19:59:32","date_gmt":"2026-02-14T22:59:32","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2489"},"modified":"2026-02-17T20:02:57","modified_gmt":"2026-02-17T23:02:57","slug":"o-peso-e-o-tropeco-dos-nomes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2489","title":{"rendered":"O peso e o trope\u00e7o dos nomes"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2490\" aria-describedby=\"caption-attachment-2490\" style=\"width: 944px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2490\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/certidao_de_nascimento_registro_civil_mcajr_abril-300x200.webp\" alt=\"\" width=\"944\" height=\"629\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/certidao_de_nascimento_registro_civil_mcajr_abril-300x200.webp 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/certidao_de_nascimento_registro_civil_mcajr_abril-768x512.webp 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/certidao_de_nascimento_registro_civil_mcajr_abril-150x100.webp 150w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/certidao_de_nascimento_registro_civil_mcajr_abril-330x220.webp 330w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/certidao_de_nascimento_registro_civil_mcajr_abril-420x280.webp 420w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/certidao_de_nascimento_registro_civil_mcajr_abril-510x340.webp 510w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/certidao_de_nascimento_registro_civil_mcajr_abril.webp 770w\" sizes=\"(max-width: 944px) 100vw, 944px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2490\" class=\"wp-caption-text\">C\u00f3pia de certid\u00e3o de nascimento Foto &#8211; Marcello Casal Jr &#8211; Ag\u00eancia Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<p>A \u00faltima cr\u00f4nica sobre nomes inusitados chamou a aten\u00e7\u00e3o da minha meia d\u00fazia de leitores. Alguns acabaram se manifestando. E foi assim que vieram novas hist\u00f3rias, cada uma revelando como um simples registro no cart\u00f3rio pode carregar vingan\u00e7a, devo\u00e7\u00e3o, inven\u00e7\u00e3o ou tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 nomes que carregam hist\u00f3rias, outros que carregam vingan\u00e7as, e alguns que parecem nascer de uma mistura de acaso e criatividade desmedida. O caso do <strong>Benedito Bosta (ops!!)<\/strong> \u00e9 desses que parecem sa\u00eddos de uma anedota, mas que se tornam realidade quando a teimosia se mistura com ressentimento.<\/p>\n<p>O pai, tomado por \u00f3dio ao ent\u00e3o governador Benedito Valadares, decidiu que o filho seria o retrato vivo da sua revolta. N\u00e3o bastava ignorar o Benedito, era preciso zombar dele. E assim, no cart\u00f3rio, nasceu o menino com nome de esc\u00e1rnio. O tempo passou, o menino cresceu, e com ele cresceu tamb\u00e9m o desconforto. Nome \u00e9 identidade, mas tamb\u00e9m \u00e9 fardo. Adulto, resolveu se libertar. Procurou advogado, foi ao juiz. O magistrado, curioso, perguntou:<\/p>\n<p>\u2013 E ent\u00e3o, como o senhor quer se chamar? A resposta veio seca, quase como um manifesto:<\/p>\n<p>\u2013 \u00a0Jos\u00e9 Bosta. Odeio esse nome Benedito.<\/p>\n<p>Anedotas \u00e0 parte, a verdade \u00e9 que o nome orienta a vida das pessoas; h\u00e1 casos em que ele parece mais atrapalhar do que guiar. Jorge, um amigo que conhece como poucos a hist\u00f3ria do futebol, conta que esse \u00e9 o caso de um garoto nascido em 1970, logo ap\u00f3s a Copa do Mundo. Brasil campe\u00e3o, e o pai, tomado pela euforia, resolveu homenagear os craques: Tost\u00e3o, Pel\u00e9, Rivelino, Carlos Alberto, G\u00e9rson e Jairzinho. Juntou s\u00edlabas, misturou sons, e batizou o menino de Tospericargerja. Nome complicado, quase um trava-l\u00edngua, que mais desorienta do que celebra.<\/p>\n<p>E h\u00e1 tamb\u00e9m o goleiro do Betim, conhecido simplesmente como Jori. Um nome singelo, f\u00e1cil de gritar da arquibancada. Mas atr\u00e1s desse apelido se esconde um registro civil com mais de vinte letras, uma sequ\u00eancia intermin\u00e1vel de nomes que ningu\u00e9m ousa reproduzir: Joriwinnyson. Ele, sabiamente, preferiu encurtar. No futebol, menos \u00e9 mais. E se fosse mais ousado, talvez trocasse tudo por um simples Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas nem todo nome nasce de vingan\u00e7a ou inven\u00e7\u00e3o. Alguns v\u00eam da f\u00e9 e da devo\u00e7\u00e3o. F\u00e1tima conta que sua m\u00e3e queria cham\u00e1-la de Maria das Gra\u00e7as por ter nascido no dia da Medalha Milagrosa. Uma freira, professora das irm\u00e3s, sugeriu ent\u00e3o F\u00e1tima, em homenagem \u00e0 imagem oficial de Nossa Senhora de F\u00e1tima, vinda de Portugal em visita ao Brasil. A m\u00e3e acatou. E assim, Maria de F\u00e1tima se juntou a centenas, talvez milhares de mulheres da mesma gera\u00e7\u00e3o, carregando n\u00e3o um fardo, mas uma tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 nomes que traduzem uma hist\u00f3ria de amor. \u00c9 o caso de J\u00e1ssia. Seu nome \u00e9 um abra\u00e7o entre dois: a jun\u00e7\u00e3o delicada de Jaime e C\u00e1ssia, pai e m\u00e3e, que decidiram eternizar no registro civil o pr\u00f3prio encontro de suas vidas.<\/p>\n<p>E h\u00e1 tamb\u00e9m os nomes que atravessam gera\u00e7\u00f5es. Lourdes lembra que Umbelina, citado por mim na \u00faltima cr\u00f4nica, n\u00e3o lhe soa estranho: era o nome de sua bisav\u00f3, e carrega consigo a mem\u00f3ria familiar. J\u00e1 Ig\u00eddio confessa n\u00e3o saber de onde veio o seu nome raro, t\u00e3o raro que at\u00e9 o Google insiste em corrigi-lo para Eg\u00eddio. Mas ele o assumiu, e hoje o transmite ao filho, como quem preserva uma marca \u00fanica, uma tradi\u00e7\u00e3o que desafia o esquecimento.<\/p>\n<p>No fim, nomes s\u00e3o como espelhos: revelam mais sobre quem os escolhe do que sobre quem os carrega. Alguns orientam, outros desorientam. Uns s\u00e3o cicatrizes, outros s\u00e3o bandeiras, outros ainda s\u00e3o heran\u00e7as. Mas todos, de alguma forma, marcam a vida de quem os leva, seja como esc\u00e1rnio, como trof\u00e9u, como devo\u00e7\u00e3o ou <strong>como mem\u00f3ria.<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_2467\" aria-describedby=\"caption-attachment-2467\" style=\"width: 535px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-2467 \" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Gisele-Bicalho-1-300x171.png\" alt=\"\" width=\"535\" height=\"305\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2467\" class=\"wp-caption-text\"><\/strong> <strong>Gisele Bicalho \u00e9 jornalista e escritora<\/strong>.<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00faltima cr\u00f4nica sobre nomes inusitados chamou a aten\u00e7\u00e3o da minha meia d\u00fazia de leitores. Alguns acabaram se manifestando. E foi assim que vieram novas hist\u00f3rias, cada uma revelando como um simples registro no cart\u00f3rio pode carregar vingan\u00e7a, devo\u00e7\u00e3o, inven\u00e7\u00e3o ou tradi\u00e7\u00e3o. H\u00e1 nomes que carregam hist\u00f3rias, outros que carregam vingan\u00e7as, e alguns que parecem nascer de uma mistura de acaso e criatividade desmedida. O caso do Benedito Bosta (ops!!) \u00e9 desses que parecem sa\u00eddos de uma anedota, mas que se tornam realidade quando a teimosia se mistura com ressentimento. O pai, tomado por \u00f3dio ao ent\u00e3o governador Benedito Valadares, decidiu que o filho seria o retrato vivo da sua revolta. N\u00e3o bastava ignorar o Benedito, era preciso zombar dele. E assim, no cart\u00f3rio, nasceu o menino com nome de esc\u00e1rnio. O tempo passou, o menino cresceu, e com ele cresceu tamb\u00e9m o desconforto. Nome \u00e9 identidade, mas tamb\u00e9m \u00e9 fardo. Adulto, resolveu se libertar. Procurou advogado, foi ao juiz. O magistrado, curioso, perguntou: \u2013 E ent\u00e3o, como o senhor quer se chamar? A resposta veio seca, quase como um manifesto: \u2013 \u00a0Jos\u00e9 Bosta. Odeio esse nome Benedito. Anedotas \u00e0 parte, a verdade \u00e9 que o nome orienta a vida das pessoas; h\u00e1 casos em que ele parece mais atrapalhar do que guiar. Jorge, um amigo que conhece como poucos a hist\u00f3ria do futebol, conta que esse \u00e9 o caso de um garoto nascido em 1970, logo ap\u00f3s a Copa do Mundo. Brasil campe\u00e3o, e o pai, tomado pela euforia, resolveu homenagear os craques: Tost\u00e3o, Pel\u00e9, Rivelino, Carlos Alberto, G\u00e9rson e Jairzinho. Juntou s\u00edlabas, misturou sons, e batizou o menino de Tospericargerja. Nome complicado, quase um trava-l\u00edngua, que mais desorienta do que celebra. E h\u00e1 tamb\u00e9m o goleiro do Betim, conhecido simplesmente como Jori. Um nome singelo, f\u00e1cil de gritar da arquibancada. Mas atr\u00e1s desse apelido se esconde um registro civil com mais de vinte letras, uma sequ\u00eancia intermin\u00e1vel de nomes que ningu\u00e9m ousa reproduzir: Joriwinnyson. Ele, sabiamente, preferiu encurtar. No futebol, menos \u00e9 mais. E se fosse mais ousado, talvez trocasse tudo por um simples Jo\u00e3o. Mas nem todo nome nasce de vingan\u00e7a ou inven\u00e7\u00e3o. Alguns v\u00eam da f\u00e9 e da devo\u00e7\u00e3o. F\u00e1tima conta que sua m\u00e3e queria cham\u00e1-la de Maria das Gra\u00e7as por ter nascido no dia da Medalha Milagrosa. Uma freira, professora das irm\u00e3s, sugeriu ent\u00e3o F\u00e1tima, em homenagem \u00e0 imagem oficial de Nossa Senhora de F\u00e1tima, vinda de Portugal em visita ao Brasil. A m\u00e3e acatou. E assim, Maria de F\u00e1tima se juntou a centenas, talvez milhares de mulheres da mesma gera\u00e7\u00e3o, carregando n\u00e3o um fardo, mas uma tradi\u00e7\u00e3o. H\u00e1 nomes que traduzem uma hist\u00f3ria de amor. \u00c9 o caso de J\u00e1ssia. Seu nome \u00e9 um abra\u00e7o entre dois: a jun\u00e7\u00e3o delicada de Jaime e C\u00e1ssia, pai e m\u00e3e, que decidiram eternizar no registro civil o pr\u00f3prio encontro de suas vidas. E h\u00e1 tamb\u00e9m os nomes que atravessam gera\u00e7\u00f5es. Lourdes lembra que Umbelina, citado por mim na \u00faltima cr\u00f4nica, n\u00e3o lhe soa estranho: era o nome de sua bisav\u00f3, e carrega consigo a mem\u00f3ria familiar. J\u00e1 Ig\u00eddio confessa n\u00e3o saber de onde veio o seu nome raro, t\u00e3o raro que at\u00e9 o Google insiste em corrigi-lo para Eg\u00eddio. Mas ele o assumiu, e hoje o transmite ao filho, como quem preserva uma marca \u00fanica, uma tradi\u00e7\u00e3o que desafia o esquecimento. No fim, nomes s\u00e3o como espelhos: revelam mais sobre quem os escolhe do que sobre quem os carrega. Alguns orientam, outros desorientam. 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