{"id":2320,"date":"2026-01-04T11:47:43","date_gmt":"2026-01-04T14:47:43","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2320"},"modified":"2026-01-04T11:48:31","modified_gmt":"2026-01-04T14:48:31","slug":"amizade-nao-exige-contrato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2320","title":{"rendered":"Amizade n\u00e3o exige contrato"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2321 alignnone\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/ai-generated-8956932_1280-1024x574-1-300x168.png\" alt=\"\" width=\"1052\" height=\"589\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/ai-generated-8956932_1280-1024x574-1-300x168.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/ai-generated-8956932_1280-1024x574-1-768x431.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/ai-generated-8956932_1280-1024x574-1.png 1024w\" sizes=\"(max-width: 1052px) 100vw, 1052px\" \/><\/p>\n<p>Na Coreia do Sul, solid\u00e3o n\u00e3o \u00e9 problema; \u00e9 neg\u00f3cio. Se falta companhia para uma festa, basta abrir o aplicativo: amigo sorridente, acompanhante elegante ou algu\u00e9m disposto a posar como par rom\u00e2ntico. Tudo profissional, com contrato e hora marcada.<\/p>\n<p>No fundo, n\u00e3o importa o continente: em qualquer lugar do mundo as pessoas querem a mesma coisa: n\u00e3o se sentirem sozinhas. Eu usaria um servi\u00e7o desses? Provavelmente n\u00e3o. Teria dificuldade em fingir costume. A mim bastam os poucos amigos que tenho, pr\u00f3ximos ou distantes, mas sempre verdadeiros. E se aparecem, mesmo que 25 anos depois, basta um olhar para que tudo se torne presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Marguerite Yourcenar escreveu sobre esse milagre: \u201c\u00c0s vezes vive-se anos, continuamente, com amigos; \u00e9 uma rara oportunidade. Outras vezes, de acordo com suas ocupa\u00e7\u00f5es ou as nossas, e o lugar onde se encontram ou nos encontramos, v\u00e3o e v\u00eam, presentes por semanas, ou meses, ou apenas dias. Mas toda amizade \u00e9 um bem duradouro. Mesmo depois de 25 anos de aus\u00eancia, abra\u00e7amo-nos da mesma forma. Creio, ali\u00e1s, que a amizade, como o amor de que ela participa, exige quase tanta arte como um passo de dan\u00e7a bem-sucedido. \u00c9 preciso muito \u00e9lan e muito comedimento, muitas trocas de palavras e muitos sil\u00eancios. E sobretudo muito respeito.\u201d<br \/>\nMontaigne, fil\u00f3sofo franc\u00eas do s\u00e9culo XVI, dizia que amizade n\u00e3o precisa de explica\u00e7\u00e3o. Se lhe perguntavam o porqu\u00ea de tanto amor, ele respondia: \u201cporque era ele, porque era eu\u201d. Simples, profundo. Ou seja, amizade n\u00e3o \u00e9 c\u00e1lculo, conveni\u00eancia ou troca de favores. \u00c9 encontro. Na vers\u00e3o coreana, seria mais: \u201c\u00e9 tamb\u00e9m porque estava dispon\u00edvel das 14h \u00e0s 18h\u201d.<\/p>\n<p>Hoje, em tempos de redes sociais e filtros, autenticidade virou artigo raro. Mostramos vers\u00f5es editadas de n\u00f3s mesmos, como se a vida fosse vitrine. Mas a amizade, quando \u00e9 de verdade, desmonta essas m\u00e1scaras. \u00c9 no olhar do amigo que podemos ser inteiros, sem medo de parecer fr\u00e1geis ou rid\u00edculos. Nada de filtros.<br \/>\nA amizade aut\u00eantica nos leva a rir de bobagens, confessar medos, celebrar vit\u00f3rias pequenas. N\u00e3o exige performance, apenas presen\u00e7a. \u00c0s vezes est\u00e1 em quem senta ao nosso lado no caf\u00e9, em quem liga sem motivo, em quem escuta sem pressa.<\/p>\n<p>Ser amigo \u00e9 escolher a verdade sobre a apar\u00eancia, o v\u00ednculo sobre a utilidade. \u00c9 aceitar o outro como ele \u00e9 e ser aceito do mesmo jeito.<br \/>\nToda essa prosa me lembra uma antiga prece portuguesa. Recebi pelo WhatsApp, presente da m\u00e3e de um amigo. Tem a ver com aquela conhecida lista de metas para o pr\u00f3ximo ano, mas \u00e9 tamb\u00e9m sobre amizade. Ela dizia: \u201cN\u00e3o quero que o pr\u00f3ximo ano me traga nada. S\u00f3 quero que n\u00e3o leve. Que n\u00e3o leve o teto que me protege, o prato que me alimenta, a manta que me aquece, o sorriso dos meus amados, a sa\u00fade como tesouro, a amizade, a companhia, os abra\u00e7os e os beijos. Que n\u00e3o leve os sonhos, nem os peda\u00e7os dos cora\u00e7\u00f5es que carrego dentro de mim\u201d.<\/p>\n<p>Que assim seja. Que 2026 seja tempo de perman\u00eancia e encontros memor\u00e1veis. De antigos e novos amigos, de v\u00ednculos fortalecidos. Tempo de vinhos ao entardecer, almo\u00e7os que se prolongam em tardes pregui\u00e7osas de domingo. Que haja sa\u00fade, paz, justi\u00e7a e muita f\u00e9, que \u00e9 para nos manter de p\u00e9.<\/p>\n<p>E se Montaigne nos ensinou que a amizade verdadeira n\u00e3o precisa de explica\u00e7\u00e3o, talvez o novo ano nos lembre que ela tamb\u00e9m n\u00e3o precisa de contrato. Que os encontros sejam espont\u00e2neos, os abra\u00e7os inteiros e as conversas sem hora marcada.<\/p>\n<p>Porque, no fim, o que permanece n\u00e3o s\u00e3o as fotos ensaiadas, mas os sorrisos que nascem sem aviso. Que seja um ano de v\u00ednculos reais, daqueles que nos permitem dizer, com simplicidade e verdade: \u201cporque era ele, porque era eu\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1109\" aria-describedby=\"caption-attachment-1109\" style=\"width: 1077px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-1109\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-300x171.png\" alt=\"\" width=\"1077\" height=\"614\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-300x171.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-1024x585.png 1024w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-768x439.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1.png 1050w\" sizes=\"(max-width: 1077px) 100vw, 1077px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1109\" class=\"wp-caption-text\">Gisele Bicalho \u00e9 jornalista e escritora.<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Coreia do Sul, solid\u00e3o n\u00e3o \u00e9 problema; \u00e9 neg\u00f3cio. Se falta companhia para uma festa, basta abrir o aplicativo: amigo sorridente, acompanhante elegante ou algu\u00e9m disposto a posar como par rom\u00e2ntico. Tudo profissional, com contrato e hora marcada. No fundo, n\u00e3o importa o continente: em qualquer lugar do mundo as pessoas querem a mesma coisa: n\u00e3o se sentirem sozinhas. Eu usaria um servi\u00e7o desses? Provavelmente n\u00e3o. Teria dificuldade em fingir costume. A mim bastam os poucos amigos que tenho, pr\u00f3ximos ou distantes, mas sempre verdadeiros. E se aparecem, mesmo que 25 anos depois, basta um olhar para que tudo se torne presen\u00e7a. Marguerite Yourcenar escreveu sobre esse milagre: \u201c\u00c0s vezes vive-se anos, continuamente, com amigos; \u00e9 uma rara oportunidade. Outras vezes, de acordo com suas ocupa\u00e7\u00f5es ou as nossas, e o lugar onde se encontram ou nos encontramos, v\u00e3o e v\u00eam, presentes por semanas, ou meses, ou apenas dias. Mas toda amizade \u00e9 um bem duradouro. Mesmo depois de 25 anos de aus\u00eancia, abra\u00e7amo-nos da mesma forma. Creio, ali\u00e1s, que a amizade, como o amor de que ela participa, exige quase tanta arte como um passo de dan\u00e7a bem-sucedido. \u00c9 preciso muito \u00e9lan e muito comedimento, muitas trocas de palavras e muitos sil\u00eancios. E sobretudo muito respeito.\u201d Montaigne, fil\u00f3sofo franc\u00eas do s\u00e9culo XVI, dizia que amizade n\u00e3o precisa de explica\u00e7\u00e3o. Se lhe perguntavam o porqu\u00ea de tanto amor, ele respondia: \u201cporque era ele, porque era eu\u201d. Simples, profundo. Ou seja, amizade n\u00e3o \u00e9 c\u00e1lculo, conveni\u00eancia ou troca de favores. \u00c9 encontro. Na vers\u00e3o coreana, seria mais: \u201c\u00e9 tamb\u00e9m porque estava dispon\u00edvel das 14h \u00e0s 18h\u201d. Hoje, em tempos de redes sociais e filtros, autenticidade virou artigo raro. Mostramos vers\u00f5es editadas de n\u00f3s mesmos, como se a vida fosse vitrine. Mas a amizade, quando \u00e9 de verdade, desmonta essas m\u00e1scaras. \u00c9 no olhar do amigo que podemos ser inteiros, sem medo de parecer fr\u00e1geis ou rid\u00edculos. Nada de filtros. A amizade aut\u00eantica nos leva a rir de bobagens, confessar medos, celebrar vit\u00f3rias pequenas. N\u00e3o exige performance, apenas presen\u00e7a. \u00c0s vezes est\u00e1 em quem senta ao nosso lado no caf\u00e9, em quem liga sem motivo, em quem escuta sem pressa. Ser amigo \u00e9 escolher a verdade sobre a apar\u00eancia, o v\u00ednculo sobre a utilidade. \u00c9 aceitar o outro como ele \u00e9 e ser aceito do mesmo jeito. Toda essa prosa me lembra uma antiga prece portuguesa. Recebi pelo WhatsApp, presente da m\u00e3e de um amigo. Tem a ver com aquela conhecida lista de metas para o pr\u00f3ximo ano, mas \u00e9 tamb\u00e9m sobre amizade. Ela dizia: \u201cN\u00e3o quero que o pr\u00f3ximo ano me traga nada. S\u00f3 quero que n\u00e3o leve. Que n\u00e3o leve o teto que me protege, o prato que me alimenta, a manta que me aquece, o sorriso dos meus amados, a sa\u00fade como tesouro, a amizade, a companhia, os abra\u00e7os e os beijos. Que n\u00e3o leve os sonhos, nem os peda\u00e7os dos cora\u00e7\u00f5es que carrego dentro de mim\u201d. Que assim seja. Que 2026 seja tempo de perman\u00eancia e encontros memor\u00e1veis. De antigos e novos amigos, de v\u00ednculos fortalecidos. Tempo de vinhos ao entardecer, almo\u00e7os que se prolongam em tardes pregui\u00e7osas de domingo. Que haja sa\u00fade, paz, justi\u00e7a e muita f\u00e9, que \u00e9 para nos manter de p\u00e9. E se Montaigne nos ensinou que a amizade verdadeira n\u00e3o precisa de explica\u00e7\u00e3o, talvez o novo ano nos lembre que ela tamb\u00e9m n\u00e3o precisa de contrato. Que os encontros sejam espont\u00e2neos, os abra\u00e7os inteiros e as conversas sem hora marcada. Porque, no fim, o que permanece n\u00e3o s\u00e3o as fotos ensaiadas, mas os sorrisos que nascem sem aviso. 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