{"id":2294,"date":"2025-12-26T15:19:56","date_gmt":"2025-12-26T18:19:56","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2294"},"modified":"2025-12-26T15:19:56","modified_gmt":"2025-12-26T18:19:56","slug":"pedacinhos-do-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2294","title":{"rendered":"Pedacinhos do Natal"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2295\" aria-describedby=\"caption-attachment-2295\" style=\"width: 914px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2295\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/GIsele-300x169.png\" alt=\"\" width=\"914\" height=\"515\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/GIsele-300x169.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/GIsele-768x432.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/GIsele.png 1024w\" sizes=\"(max-width: 914px) 100vw, 914px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2295\" class=\"wp-caption-text\">Imagem &#8211; Pixabay<\/figcaption><\/figure>\n<p>Conta a lenda que h\u00e1 mais de dois mil anos, para saudar o nascimento do Salvador, cada \u00e1rvore ofereceu frutos e flores ao Menino Jesus. O pinheiro, sem nada bonito para dar, ofereceu apenas sua exist\u00eancia. Deus se encantou com sua humildade e o cobriu de estrelas. Assim nasceu a tradi\u00e7\u00e3o da \u00e1rvore iluminada.<\/p>\n<p>Na nossa casa, seguindo a tradi\u00e7\u00e3o, h\u00e1 muitas luzes. Os enfeites s\u00e3o lindezas herdadas da Mam\u00e3e. Pequenos peda\u00e7os de saudade pendurados nos galhos. Outros vieram na mala, recortes de uma viagem inesquec\u00edvel. Imposs\u00edvel esquecer a Feira de Natal de Salzburgo. A \u00c1ustria inteira parece um pres\u00e9pio. N\u00e3o resisti aos enfeites de madeira pintados \u00e0 m\u00e3o. Trouxe alguns comigo. Hoje, a cada Natal, saem da caixa para dar vida \u00e0 \u00e1rvore e resgatar lembran\u00e7as.<\/p>\n<p>Lulu, em Bras\u00edlia, prefere sua \u00e1rvore com galhos secos do cerrado. Era como Mam\u00e3e fazia: flocos de algod\u00e3o para lembrar a neve e bolas coloridas para trazer vida. Sofia, minha sobrinha, discorda. Para ela, n\u00e3o faz sentido usar neve de algod\u00e3o. Prefere passarinhos, borboletas e flores. Eu sigo outra linha: gosto do pinheiro, mesmo que seja fake, cheio de enfeites herdados ou comprados em Salzburgo.<\/p>\n<p>Dessa vez, a \u00e1rvore da casa dos nossos pais foi montada pela Denise. Ficou linda. Mas faltava o toque da Jacq. \u00c9 ela quem transforma tudo em espet\u00e1culo. J\u00e1 sabemos: com ela vir\u00e3o os ursos. Muitos. E aquele bem grand\u00e3o. Deu trabalho para achar e mais ainda para comprar. Foram v\u00e1rias lojas, mam\u00e3e exausta, Ricardo irritado. At\u00e9 que encontramos um \u00fanico exemplar no Minas Shopping. Enfrentamos engarrafamento, filas e corredores lotados. Uma verdadeira saga (ou seria ca\u00e7a ao tesouro?). No fim, pelo sorriso, valeu a pena. O desafio agora, a exemplo dos anos anteriores, \u00e9 onde e como guard\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Por falar em grande, o que dizer do nosso Papai Noel? Um metro e oitenta de pura formosura. Custou uma pequena fortuna. O retorno vem dos olhinhos brilhantes e do encantamento dos sobrinhos netos. Dos adultos tamb\u00e9m. Virou atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica na varanda de casa.<\/p>\n<p>O pres\u00e9pio tamb\u00e9m j\u00e1 est\u00e1 instalado. Em lugar de destaque, pra ningu\u00e9m esquecer o sentido da festa. O Menino Jesus repousa na manjedoura. Tadinho, deve estar mortinho de frio. Continua \u00e0 espera das palhas que n\u00e3o vir\u00e3o. Era assim quando crescemos: cada boa a\u00e7\u00e3o rendia uma palha a mais. Ideia de g\u00eanio da Mam\u00e3e, que transformava bondade em aconchego. No Natal, havia tanta palha que o Menino quase desaparecia. Mam\u00e3e, ir\u00f4nica que s\u00f3 ela, elogiava:<\/p>\n<p>&#8211; Filhos de ouro. Uma legi\u00e3o de \u201canjinhos\u201d. S\u00f3 que com data de validade.<\/p>\n<p>Tentamos resgatar a tradi\u00e7\u00e3o com os sobrinhos. Nada feito. S\u00e3o outros tempos. Sem drama. \u00c9 assim mesmo.<\/p>\n<p>Por curiosidade, pesquisei os pre\u00e7os das cestas de Natal, outra tradi\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. Imposs\u00edvel: valores nas alturas. Mais uma vez, fica para o ano que vem. N\u00e3o tem problema. Vamos nos fartar com as lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia, dos presentes do Tio Chico, que vinham do Rio de Janeiro em uma cesta de vime enorme.<\/p>\n<p>A cesta chegava pelo Correio poucos dias antes do Natal. Vov\u00f4 Nenem fazia da abertura um ritual. No dia 25, logo ap\u00f3s o almo\u00e7o, reunia todos \u00e0 beira do rio Par\u00e1. A mesa com banquinhos virava palco. A gente se misturava com os brinquedos que Papai Noel havia deixado na \u00e1rvore. E, de dentro da cesta, sa\u00edam doces, biscoitos, castanhas e muitas outras gostosuras que vinham de longe. Tudo era uma del\u00edcia. Tudo era m\u00e1gico. Como o Natal.<\/p>\n<p>Talvez o segredo esteja justamente nisso: em guardar no cora\u00e7\u00e3o os gestos simples, os rituais que atravessam gera\u00e7\u00f5es e a certeza de que, enquanto houver lembran\u00e7a, haver\u00e1 tamb\u00e9m encantamento. Porque o Natal, no fundo, \u00e9 isso: mem\u00f3ria viva que insiste em nos reunir.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1109\" aria-describedby=\"caption-attachment-1109\" style=\"width: 1123px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-1109\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-300x171.png\" alt=\"\" width=\"1123\" height=\"640\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-300x171.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-1024x585.png 1024w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-768x439.png 768w\" sizes=\"(max-width: 1123px) 100vw, 1123px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1109\" class=\"wp-caption-text\">Gisele Bicalho \u00e9 jornalista e escritora.<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conta a lenda que h\u00e1 mais de dois mil anos, para saudar o nascimento do Salvador, cada \u00e1rvore ofereceu frutos e flores ao Menino Jesus. O pinheiro, sem nada bonito para dar, ofereceu apenas sua exist\u00eancia. Deus se encantou com sua humildade e o cobriu de estrelas. Assim nasceu a tradi\u00e7\u00e3o da \u00e1rvore iluminada. Na nossa casa, seguindo a tradi\u00e7\u00e3o, h\u00e1 muitas luzes. Os enfeites s\u00e3o lindezas herdadas da Mam\u00e3e. Pequenos peda\u00e7os de saudade pendurados nos galhos. Outros vieram na mala, recortes de uma viagem inesquec\u00edvel. Imposs\u00edvel esquecer a Feira de Natal de Salzburgo. A \u00c1ustria inteira parece um pres\u00e9pio. N\u00e3o resisti aos enfeites de madeira pintados \u00e0 m\u00e3o. Trouxe alguns comigo. Hoje, a cada Natal, saem da caixa para dar vida \u00e0 \u00e1rvore e resgatar lembran\u00e7as. Lulu, em Bras\u00edlia, prefere sua \u00e1rvore com galhos secos do cerrado. Era como Mam\u00e3e fazia: flocos de algod\u00e3o para lembrar a neve e bolas coloridas para trazer vida. Sofia, minha sobrinha, discorda. Para ela, n\u00e3o faz sentido usar neve de algod\u00e3o. Prefere passarinhos, borboletas e flores. Eu sigo outra linha: gosto do pinheiro, mesmo que seja fake, cheio de enfeites herdados ou comprados em Salzburgo. Dessa vez, a \u00e1rvore da casa dos nossos pais foi montada pela Denise. Ficou linda. Mas faltava o toque da Jacq. \u00c9 ela quem transforma tudo em espet\u00e1culo. J\u00e1 sabemos: com ela vir\u00e3o os ursos. Muitos. E aquele bem grand\u00e3o. Deu trabalho para achar e mais ainda para comprar. Foram v\u00e1rias lojas, mam\u00e3e exausta, Ricardo irritado. At\u00e9 que encontramos um \u00fanico exemplar no Minas Shopping. Enfrentamos engarrafamento, filas e corredores lotados. Uma verdadeira saga (ou seria ca\u00e7a ao tesouro?). No fim, pelo sorriso, valeu a pena. O desafio agora, a exemplo dos anos anteriores, \u00e9 onde e como guard\u00e1-lo. Por falar em grande, o que dizer do nosso Papai Noel? Um metro e oitenta de pura formosura. Custou uma pequena fortuna. O retorno vem dos olhinhos brilhantes e do encantamento dos sobrinhos netos. Dos adultos tamb\u00e9m. Virou atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica na varanda de casa. O pres\u00e9pio tamb\u00e9m j\u00e1 est\u00e1 instalado. Em lugar de destaque, pra ningu\u00e9m esquecer o sentido da festa. O Menino Jesus repousa na manjedoura. Tadinho, deve estar mortinho de frio. Continua \u00e0 espera das palhas que n\u00e3o vir\u00e3o. Era assim quando crescemos: cada boa a\u00e7\u00e3o rendia uma palha a mais. Ideia de g\u00eanio da Mam\u00e3e, que transformava bondade em aconchego. No Natal, havia tanta palha que o Menino quase desaparecia. Mam\u00e3e, ir\u00f4nica que s\u00f3 ela, elogiava: &#8211; Filhos de ouro. Uma legi\u00e3o de \u201canjinhos\u201d. S\u00f3 que com data de validade. Tentamos resgatar a tradi\u00e7\u00e3o com os sobrinhos. Nada feito. S\u00e3o outros tempos. Sem drama. \u00c9 assim mesmo. Por curiosidade, pesquisei os pre\u00e7os das cestas de Natal, outra tradi\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. Imposs\u00edvel: valores nas alturas. Mais uma vez, fica para o ano que vem. N\u00e3o tem problema. Vamos nos fartar com as lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia, dos presentes do Tio Chico, que vinham do Rio de Janeiro em uma cesta de vime enorme. A cesta chegava pelo Correio poucos dias antes do Natal. Vov\u00f4 Nenem fazia da abertura um ritual. No dia 25, logo ap\u00f3s o almo\u00e7o, reunia todos \u00e0 beira do rio Par\u00e1. A mesa com banquinhos virava palco. A gente se misturava com os brinquedos que Papai Noel havia deixado na \u00e1rvore. E, de dentro da cesta, sa\u00edam doces, biscoitos, castanhas e muitas outras gostosuras que vinham de longe. Tudo era uma del\u00edcia. Tudo era m\u00e1gico. Como o Natal. Talvez o segredo esteja justamente nisso: em guardar no cora\u00e7\u00e3o os gestos simples, os rituais que atravessam gera\u00e7\u00f5es e a certeza de que, enquanto houver lembran\u00e7a, haver\u00e1 tamb\u00e9m encantamento. 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