{"id":2213,"date":"2025-12-12T15:09:08","date_gmt":"2025-12-12T18:09:08","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2213"},"modified":"2025-12-13T15:13:20","modified_gmt":"2025-12-13T18:13:20","slug":"memorias-bordadas-em-lendas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2213","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias bordadas em lendas"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2214\" aria-describedby=\"caption-attachment-2214\" style=\"width: 875px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2214\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Gisele-1-300x157.jpeg\" alt=\"\" width=\"875\" height=\"458\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Gisele-1-300x157.jpeg 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Gisele-1-768x403.jpeg 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Gisele-1.jpeg 1024w\" sizes=\"(max-width: 875px) 100vw, 875px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2214\" class=\"wp-caption-text\">Imagem gerada por IA<\/figcaption><\/figure>\n<p>Naquele tempo, as noites eram povoadas por hist\u00f3rias que corriam de boca em boca. Diziam que durante a madrugada, uma jiboia assumia o lugar do beb\u00ea que ansiava pela mamada no colo da m\u00e3e adormecida. Era lenda ou verdade? Pouco importava. O que valia era o espanto nos olhos de quem ouvia.<\/p>\n<p>E a cobra que atravessava a avenida assustando as senhoras que voltavam da missa nas noites de domingo?<\/p>\n<p>Na verdade, uma arma\u00e7\u00e3o de um dos meus irm\u00e3os. Osvaldinho era famoso pelas suas brincadeiras e invencionices. Uma de suas melhores atua\u00e7\u00f5es foi quando ele criou uma \u201cfaca\u201d c\u00eanica, besuntou-se de tinta vermelha e passou a gemer. Jacqueline, que fazia parte da trama, passou a gritar, pedindo socorro \u00e0 Gyslaine. A irm\u00e3, desesperada, o encontrou deitado no quintal, esvaindo-se em \u201csangue\u201d. Dizia ter se ferido com uma faca. Gyslaine desesperou-se e s\u00f3 se acalmou quando as risadas substitu\u00edram o choro. Um ator nato. A \u201ctrupe\u201d idem.<\/p>\n<p>Havia ainda a madrinha destemida, capaz de arrancar o afilhado l\u00e1 de cima do coqueiro como se fosse m\u00e1gica. A hist\u00f3ria assustadora atravessou gera\u00e7\u00f5es da nossa fam\u00edlia. Os pais sempre recorriam \u00e0 lenda para inibir os pequenos, impedindo que vencessem os obst\u00e1culos do quintal e se aproximassem do rio.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o cheguem perto do rio. Se desobedecerem podem parar em cima do coqueiro, advertiam.<\/p>\n<p>Mas o mist\u00e9rio maior estava no cemit\u00e9rio. \u00c0 noite, chamas surgiam entre os caix\u00f5es fr\u00e1geis, feitos de pano e pouca madeira. Muitos juravam ver fantasmas. S\u00f3 muito mais tarde, nas aulas de Ci\u00eancia, o mist\u00e9rio ganhou uma explica\u00e7\u00e3o: eram gases da decomposi\u00e7\u00e3o, metano e fosfina, que se inflamavam sozinhos, criando o fogo-f\u00e1tuo, dan\u00e7a azulada que parecia alma errante.<\/p>\n<p>Tinha tamb\u00e9m as amantes das telenovelas, uma febre naquela \u00e9poca em que a internet n\u00e3o existia nem as mentes mais ousadas e criativas. Na sala pequena, na televis\u00e3o, a novela Sheik de Agadir ostentava beijos que incendiavam a imagina\u00e7\u00e3o da nossa vizinha fiel. Amiga da nossa m\u00e3e, estava sempre na nossa casa. N\u00e3o perdia um cap\u00edtulo. Quando os atores se beijavam na tela, a vizinha batia palmas, vibrava como se fosse parte da cena. A casa se enchia de risos e a fic\u00e7\u00e3o virava festa.<\/p>\n<p>E os namorados que caminhavam pelos trilhos da esta\u00e7\u00e3o, transformando ferro e madeira em cen\u00e1rio de romance. Nesse caso, hist\u00f3rias de amor reais que renderam casamentos que duraram d\u00e9cadas, daqueles que s\u00f3 a morte separa. Nesse caso, tenho provas. Meus pais namoravam trilhando os caminhos constru\u00eddos pela Ferrovia Oeste de Minas. E foi por esses mesmos trilhos que eles viajaram em lua de mel. Dois anos depois, com o nascimento da primeira filha, a vida ganhou outro ritmo. Depois dela vieram mais nove.<\/p>\n<p>Os trilhos permaneceram ali, testemunhas vivas daquela hist\u00f3ria de amor. At\u00e9 que, d\u00e9cadas depois, foram arrancados sem d\u00f3 nem piedade. Alegaram que as estradas cumpriam o mesmo papel, que eram coisa do passado, que a manuten\u00e7\u00e3o era onerosa. Ledo engano. Hoje j\u00e1 se sabe que a hist\u00f3ria foi mal contada, que nos pa\u00edses de dimens\u00f5es continentais como o Brasil, os trilhos encurtam os caminhos, transportam pessoas, alimentos e cargas. Movimentam a economia e que o modal rodovi\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 a melhor op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Poderia me alongar nessa prosa, contar o lado B da not\u00edcia, falar sobre o porqu\u00ea da substitui\u00e7\u00e3o dos trilhos, do ciclo da borracha, de Henry Ford e coisa e tal. Mas n\u00e3o \u00e9 esse o contexto. Me propus a conversar com voc\u00eas sobre lendas, mitos e hist\u00f3rias de amor que povoaram o nosso tempo da delicadeza.<\/p>\n<p>De quando, entre jiboias inventadas, fantasmas de fogo, beijos de novela e trilhos de ferro, a vida se bordava em lendas e risos. Cada mem\u00f3ria era uma chama breve, iluminando o passado e aquecendo o presente. Porque, no fundo, o que permanece n\u00e3o s\u00e3o os medos nem as inven\u00e7\u00f5es, mas o encanto de lembrar e transformar lembran\u00e7as em poesia.<\/p>\n<p>\u2013 Uai, mas voc\u00ea s\u00f3 sabe falar desse tal tempo da delicadeza?<\/p>\n<p>N\u00e3o. Gosto de falar tamb\u00e9m sobre o presente. S\u00f3 que o presente n\u00e3o se borda em lendas, e sim em urg\u00eancias. \u00c9 feito de telas que nunca se apagam, de mensagens que chegam antes do sil\u00eancio, de cidades que se reinventam em meio ao concreto e \u00e0 pressa.<\/p>\n<p>Ainda assim, h\u00e1 delicadeza: no sorriso apressado de quem atravessa a rua, no abra\u00e7o que resiste ao tempo, na chama breve que insiste em iluminar o agora. Est\u00e1 na amizade que se oferece inteira, no colo que aparece quando mais precisamos. E assim, entre pressa e ternura, a gente se reinventa diariamente no correr da vida.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1109\" aria-describedby=\"caption-attachment-1109\" style=\"width: 754px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-1109\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-300x171.png\" alt=\"\" width=\"754\" height=\"430\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-300x171.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-1024x585.png 1024w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-768x439.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1.png 1050w\" sizes=\"(max-width: 754px) 100vw, 754px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1109\" class=\"wp-caption-text\">Gisele Bicalho \u00e9 jornalista e escritora.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Naquele tempo, as noites eram povoadas por hist\u00f3rias que corriam de boca em boca. Diziam que durante a madrugada, uma jiboia assumia o lugar do beb\u00ea que ansiava pela mamada no colo da m\u00e3e adormecida. Era lenda ou verdade? Pouco importava. O que valia era o espanto nos olhos de quem ouvia. E a cobra que atravessava a avenida assustando as senhoras que voltavam da missa nas noites de domingo? Na verdade, uma arma\u00e7\u00e3o de um dos meus irm\u00e3os. Osvaldinho era famoso pelas suas brincadeiras e invencionices. Uma de suas melhores atua\u00e7\u00f5es foi quando ele criou uma \u201cfaca\u201d c\u00eanica, besuntou-se de tinta vermelha e passou a gemer. Jacqueline, que fazia parte da trama, passou a gritar, pedindo socorro \u00e0 Gyslaine. A irm\u00e3, desesperada, o encontrou deitado no quintal, esvaindo-se em \u201csangue\u201d. Dizia ter se ferido com uma faca. Gyslaine desesperou-se e s\u00f3 se acalmou quando as risadas substitu\u00edram o choro. Um ator nato. A \u201ctrupe\u201d idem. Havia ainda a madrinha destemida, capaz de arrancar o afilhado l\u00e1 de cima do coqueiro como se fosse m\u00e1gica. A hist\u00f3ria assustadora atravessou gera\u00e7\u00f5es da nossa fam\u00edlia. Os pais sempre recorriam \u00e0 lenda para inibir os pequenos, impedindo que vencessem os obst\u00e1culos do quintal e se aproximassem do rio. &#8211; N\u00e3o cheguem perto do rio. Se desobedecerem podem parar em cima do coqueiro, advertiam. Mas o mist\u00e9rio maior estava no cemit\u00e9rio. \u00c0 noite, chamas surgiam entre os caix\u00f5es fr\u00e1geis, feitos de pano e pouca madeira. Muitos juravam ver fantasmas. S\u00f3 muito mais tarde, nas aulas de Ci\u00eancia, o mist\u00e9rio ganhou uma explica\u00e7\u00e3o: eram gases da decomposi\u00e7\u00e3o, metano e fosfina, que se inflamavam sozinhos, criando o fogo-f\u00e1tuo, dan\u00e7a azulada que parecia alma errante. Tinha tamb\u00e9m as amantes das telenovelas, uma febre naquela \u00e9poca em que a internet n\u00e3o existia nem as mentes mais ousadas e criativas. Na sala pequena, na televis\u00e3o, a novela Sheik de Agadir ostentava beijos que incendiavam a imagina\u00e7\u00e3o da nossa vizinha fiel. Amiga da nossa m\u00e3e, estava sempre na nossa casa. N\u00e3o perdia um cap\u00edtulo. Quando os atores se beijavam na tela, a vizinha batia palmas, vibrava como se fosse parte da cena. A casa se enchia de risos e a fic\u00e7\u00e3o virava festa. E os namorados que caminhavam pelos trilhos da esta\u00e7\u00e3o, transformando ferro e madeira em cen\u00e1rio de romance. Nesse caso, hist\u00f3rias de amor reais que renderam casamentos que duraram d\u00e9cadas, daqueles que s\u00f3 a morte separa. Nesse caso, tenho provas. Meus pais namoravam trilhando os caminhos constru\u00eddos pela Ferrovia Oeste de Minas. E foi por esses mesmos trilhos que eles viajaram em lua de mel. Dois anos depois, com o nascimento da primeira filha, a vida ganhou outro ritmo. Depois dela vieram mais nove. Os trilhos permaneceram ali, testemunhas vivas daquela hist\u00f3ria de amor. At\u00e9 que, d\u00e9cadas depois, foram arrancados sem d\u00f3 nem piedade. Alegaram que as estradas cumpriam o mesmo papel, que eram coisa do passado, que a manuten\u00e7\u00e3o era onerosa. Ledo engano. Hoje j\u00e1 se sabe que a hist\u00f3ria foi mal contada, que nos pa\u00edses de dimens\u00f5es continentais como o Brasil, os trilhos encurtam os caminhos, transportam pessoas, alimentos e cargas. Movimentam a economia e que o modal rodovi\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 a melhor op\u00e7\u00e3o. Poderia me alongar nessa prosa, contar o lado B da not\u00edcia, falar sobre o porqu\u00ea da substitui\u00e7\u00e3o dos trilhos, do ciclo da borracha, de Henry Ford e coisa e tal. Mas n\u00e3o \u00e9 esse o contexto. Me propus a conversar com voc\u00eas sobre lendas, mitos e hist\u00f3rias de amor que povoaram o nosso tempo da delicadeza. De quando, entre jiboias inventadas, fantasmas de fogo, beijos de novela e trilhos de ferro, a vida se bordava em lendas e risos. Cada mem\u00f3ria era uma chama breve, iluminando o passado e aquecendo o presente. Porque, no fundo, o que permanece n\u00e3o s\u00e3o os medos nem as inven\u00e7\u00f5es, mas o encanto de lembrar e transformar lembran\u00e7as em poesia. \u2013 Uai, mas voc\u00ea s\u00f3 sabe falar desse tal tempo da delicadeza? N\u00e3o. Gosto de falar tamb\u00e9m sobre o presente. S\u00f3 que o presente n\u00e3o se borda em lendas, e sim em urg\u00eancias. \u00c9 feito de telas que nunca se apagam, de mensagens que chegam antes do sil\u00eancio, de cidades que se reinventam em meio ao concreto e \u00e0 pressa. Ainda assim, h\u00e1 delicadeza: no sorriso apressado de quem atravessa a rua, no abra\u00e7o que resiste ao tempo, na chama breve que insiste em iluminar o agora. Est\u00e1 na amizade que se oferece inteira, no colo que aparece quando mais precisamos. 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