{"id":2179,"date":"2025-12-06T13:17:47","date_gmt":"2025-12-06T16:17:47","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2179"},"modified":"2025-12-06T13:19:04","modified_gmt":"2025-12-06T16:19:04","slug":"o-sabor-secreto-das-palavras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2179","title":{"rendered":"O sabor secreto das palavras"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2180 alignnone\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/gisele-300x224.jpeg\" alt=\"\" width=\"1146\" height=\"856\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/gisele-300x224.jpeg 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/gisele-768x573.jpeg 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/gisele.jpeg 1024w\" sizes=\"(max-width: 1146px) 100vw, 1146px\" \/><\/p>\n<p>Como a minha meia d\u00fazia de seguidores j\u00e1 sabe, sou a louca das palavras. Amo especialmente aquelas que carregam consigo sonoridade. O que dizer de \u201csubliminar\u201d? E de \u201censimesmado\u201d, a minha queridinha? J\u00e1 parou para refletir sobre a palavra sombrinha? Mais que proteger da chuva ou do sol, \u00e9 uma sombra pequena que se oferece como abrigo. Sou uma entusiasta. Saboreio cada s\u00edlaba.<br \/>\nEssa minha paix\u00e3o desenfreada j\u00e1 me conduziu a longas e produtivas conversas em torno de uma mesa. Nesse caso, de bar. Eventualmente acontecem em casa, naqueles almo\u00e7os pregui\u00e7os que se arrastam tarde adentro. Ali\u00e1s, amo \u201cadentro\u201d. Tem profundidade.<\/p>\n<p>Tem aquelas palavras que cantam? E se cantam \u00e9 a\u00ed que me apaixono de vez. Quer ver? Que tal \u201csaudade\u201d? Linda, n\u00e9? Tem mais: luar, entardecer, nostalgia, sabonete \u2026 A l\u00edngua portuguesa \u00e9 um abrigo perfeito para elas. H\u00e1 muitas outras. Vivo campeando por elas nos dicion\u00e1rios. Sigo essa trilha a conselho do mestre Drummond: \u201c(\u2026) chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terr\u00edvel que lhe deres: Trouxeste a chave? (\u2026)\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 palavras que quando se juntam beiram \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o por acaso amor e perfeito s\u00e3o duas delas. Uma palavra completa a outra pra traduzir a flor. Coisa mais linda. Era a preferida da minha m\u00e3e. Teve uma vez em Lisboa que vi minha m\u00e3e ajoelhada diante de um canteiro de amor perfeito. Repetiu o mesmo gesto em F\u00e1tima. Em ambos, agradecia por tanta beleza.<\/p>\n<p>Se nesse jardim de palavras tem amor-perfeito tem tamb\u00e9m malmequer, orqu\u00eddea, tulipa., hort\u00eansia, amarillis, cam\u00e9lia, d\u00e1lia, ac\u00e1cia. Muitas at\u00e9 viraram nome pr\u00f3prio. H\u00e1 Rosas, Margaridas, Iris, Melissas e muitos outros nomes que n\u00e3o me ocorrem agora. Aguardo sugest\u00f5es.<\/p>\n<p>Noite dessas, em um reencontro com amigos de longa data e novos afetos, a conversa acabou tomando esse rumo. Para minha surpresa, descobri que o prazer de saborear palavras n\u00e3o era exclusividade minha: outros tamb\u00e9m cultivam esse afeto. A partir de ensimesmado, foram brotando outras igualmente saborosas.<\/p>\n<p>A conversa seguiu leve e, quase sem perceber, chegamos \u00e0 conclus\u00e3o de que algumas palavras da nossa prosa, coincid\u00eancia ou n\u00e3o, j\u00e1 envelheceram. Sim, meus queridos e minhas queridas, as palavras tamb\u00e9m envelhecem e caem em desuso. Quem, hoje, ainda usa sujeito para se referir a algu\u00e9m? Ou fala em tabefe quando a discuss\u00e3o descamba para as vias de fato? E o que dizer de sacripanta? Curiosa, recorri \u00e0 IA e descobri que se trata daquele hip\u00f3crita, canalha e sem car\u00e1ter que, n\u00e3o raro, acabava levando uns bons tabefes.<\/p>\n<p>Se essas e outras palavras est\u00e3o caindo no esquecimento, outras s\u00e3o incorporadas do ingl\u00eas. Nesse caso h\u00e1 v\u00e1rias. Spoiler, backup, delivery s\u00e3o s\u00f3 uma pequena parcela. A lista \u00e9 t\u00e3o extensa que eu poderia me alongar por horas s\u00f3 com esse tema.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m os neologismos. Guimar\u00e3es Rosa e Mia Couto s\u00e3o mestres nessa artimanha (ops!). Personagens desses dois escritores magn\u00edficos s\u00e3o trestriste, sentem sonolentid\u00e3o, adoraram varandear e esvoa por a\u00ed. E s\u00e3o, em geral, sonhadeiros.<\/p>\n<p>Esse gosto peculiar se conecta ao livro O Dicion\u00e1rio das Palavras Perdidas, de Pip Williams, que narra a hist\u00f3ria de Esme, filha de um lexic\u00f3grafo do Scriptorium, onde se compilava o primeiro Dicion\u00e1rio Oxford da L\u00edngua Inglesa. Esme cresce colecionando palavras descartadas, questionando exclus\u00f5es e refletindo sobre desigualdades de g\u00eanero, at\u00e9 se envolver com movimentos sociais e vivenciar os impactos da Primeira Guerra Mundial. J\u00e1 falei desse livro aqui mais de uma vez. N\u00e3o por acaso, \u00e9 um dos meus preferidos.<\/p>\n<p>Apesar desse meu amor confesso pelas palavras, lamento que por vezes haja pouca reciprocidade por parte delas. A maioria foge de mim como o diabo foge da cruz. Drummond, pela sua grandeza e sabedoria, n\u00e3o entrou nesse jogo. Matou a charada e apontou aonde as danadinhas se escondem: \u201c(\u2026) ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite, as palavras. Ainda \u00famidas e impregnadas de sono, rolam num rio dif\u00edcil e se transformam em desprezo.\u201d Comigo \u00e9 bem assim. H\u00e1 dias que aquela regrinha de juntar sujeito, verbo e predicado \u00e9 tarefa de milh\u00f5es. E o que dizer dos adjetivos, substantivos e afins? Escorregam pelos dedos. E nada do texto fluir. J\u00e1 ouviu falar em inveja? Pois, ent\u00e3o! Haja aperreio (ops de novo!).<\/p>\n<p>Mas sigo tentando, porque cada palavra que me escapa \u00e9 tamb\u00e9m convite para outra que chega. E, no fim, \u00e9 nesse vaiv\u00e9m que descubro o sabor secreto das palavras. Sigo atr\u00e1s delas, mesmo quando se escondem. Porque, no fundo, sei que as palavras, como n\u00f3s, nunca est\u00e3o prontas: afinam, desafinam, se reinventam. A l\u00edngua \u00e9 viva, pol\u00edtica e profundamente humana.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1109\" aria-describedby=\"caption-attachment-1109\" style=\"width: 1195px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-1109\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-300x171.png\" alt=\"\" width=\"1195\" height=\"681\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-300x171.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-1024x585.png 1024w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-768x439.png 768w\" sizes=\"(max-width: 1195px) 100vw, 1195px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1109\" class=\"wp-caption-text\">Gisele Bicalho \u00e9 jornalista e escritora.<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como a minha meia d\u00fazia de seguidores j\u00e1 sabe, sou a louca das palavras. Amo especialmente aquelas que carregam consigo sonoridade. O que dizer de \u201csubliminar\u201d? E de \u201censimesmado\u201d, a minha queridinha? J\u00e1 parou para refletir sobre a palavra sombrinha? Mais que proteger da chuva ou do sol, \u00e9 uma sombra pequena que se oferece como abrigo. Sou uma entusiasta. Saboreio cada s\u00edlaba. Essa minha paix\u00e3o desenfreada j\u00e1 me conduziu a longas e produtivas conversas em torno de uma mesa. Nesse caso, de bar. Eventualmente acontecem em casa, naqueles almo\u00e7os pregui\u00e7os que se arrastam tarde adentro. Ali\u00e1s, amo \u201cadentro\u201d. Tem profundidade. Tem aquelas palavras que cantam? E se cantam \u00e9 a\u00ed que me apaixono de vez. Quer ver? Que tal \u201csaudade\u201d? Linda, n\u00e9? Tem mais: luar, entardecer, nostalgia, sabonete \u2026 A l\u00edngua portuguesa \u00e9 um abrigo perfeito para elas. H\u00e1 muitas outras. Vivo campeando por elas nos dicion\u00e1rios. Sigo essa trilha a conselho do mestre Drummond: \u201c(\u2026) chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terr\u00edvel que lhe deres: Trouxeste a chave? (\u2026)\u201d H\u00e1 palavras que quando se juntam beiram \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o por acaso amor e perfeito s\u00e3o duas delas. Uma palavra completa a outra pra traduzir a flor. Coisa mais linda. Era a preferida da minha m\u00e3e. Teve uma vez em Lisboa que vi minha m\u00e3e ajoelhada diante de um canteiro de amor perfeito. Repetiu o mesmo gesto em F\u00e1tima. Em ambos, agradecia por tanta beleza. Se nesse jardim de palavras tem amor-perfeito tem tamb\u00e9m malmequer, orqu\u00eddea, tulipa., hort\u00eansia, amarillis, cam\u00e9lia, d\u00e1lia, ac\u00e1cia. Muitas at\u00e9 viraram nome pr\u00f3prio. H\u00e1 Rosas, Margaridas, Iris, Melissas e muitos outros nomes que n\u00e3o me ocorrem agora. Aguardo sugest\u00f5es. Noite dessas, em um reencontro com amigos de longa data e novos afetos, a conversa acabou tomando esse rumo. Para minha surpresa, descobri que o prazer de saborear palavras n\u00e3o era exclusividade minha: outros tamb\u00e9m cultivam esse afeto. A partir de ensimesmado, foram brotando outras igualmente saborosas. A conversa seguiu leve e, quase sem perceber, chegamos \u00e0 conclus\u00e3o de que algumas palavras da nossa prosa, coincid\u00eancia ou n\u00e3o, j\u00e1 envelheceram. Sim, meus queridos e minhas queridas, as palavras tamb\u00e9m envelhecem e caem em desuso. Quem, hoje, ainda usa sujeito para se referir a algu\u00e9m? Ou fala em tabefe quando a discuss\u00e3o descamba para as vias de fato? E o que dizer de sacripanta? Curiosa, recorri \u00e0 IA e descobri que se trata daquele hip\u00f3crita, canalha e sem car\u00e1ter que, n\u00e3o raro, acabava levando uns bons tabefes. Se essas e outras palavras est\u00e3o caindo no esquecimento, outras s\u00e3o incorporadas do ingl\u00eas. Nesse caso h\u00e1 v\u00e1rias. Spoiler, backup, delivery s\u00e3o s\u00f3 uma pequena parcela. A lista \u00e9 t\u00e3o extensa que eu poderia me alongar por horas s\u00f3 com esse tema. H\u00e1 tamb\u00e9m os neologismos. Guimar\u00e3es Rosa e Mia Couto s\u00e3o mestres nessa artimanha (ops!). Personagens desses dois escritores magn\u00edficos s\u00e3o trestriste, sentem sonolentid\u00e3o, adoraram varandear e esvoa por a\u00ed. E s\u00e3o, em geral, sonhadeiros. Esse gosto peculiar se conecta ao livro O Dicion\u00e1rio das Palavras Perdidas, de Pip Williams, que narra a hist\u00f3ria de Esme, filha de um lexic\u00f3grafo do Scriptorium, onde se compilava o primeiro Dicion\u00e1rio Oxford da L\u00edngua Inglesa. Esme cresce colecionando palavras descartadas, questionando exclus\u00f5es e refletindo sobre desigualdades de g\u00eanero, at\u00e9 se envolver com movimentos sociais e vivenciar os impactos da Primeira Guerra Mundial. J\u00e1 falei desse livro aqui mais de uma vez. N\u00e3o por acaso, \u00e9 um dos meus preferidos. Apesar desse meu amor confesso pelas palavras, lamento que por vezes haja pouca reciprocidade por parte delas. A maioria foge de mim como o diabo foge da cruz. Drummond, pela sua grandeza e sabedoria, n\u00e3o entrou nesse jogo. Matou a charada e apontou aonde as danadinhas se escondem: \u201c(\u2026) ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite, as palavras. Ainda \u00famidas e impregnadas de sono, rolam num rio dif\u00edcil e se transformam em desprezo.\u201d Comigo \u00e9 bem assim. H\u00e1 dias que aquela regrinha de juntar sujeito, verbo e predicado \u00e9 tarefa de milh\u00f5es. E o que dizer dos adjetivos, substantivos e afins? Escorregam pelos dedos. E nada do texto fluir. J\u00e1 ouviu falar em inveja? Pois, ent\u00e3o! Haja aperreio (ops de novo!). Mas sigo tentando, porque cada palavra que me escapa \u00e9 tamb\u00e9m convite para outra que chega. E, no fim, \u00e9 nesse vaiv\u00e9m que descubro o sabor secreto das palavras. Sigo atr\u00e1s delas, mesmo quando se escondem. Porque, no fundo, sei que as palavras, como n\u00f3s, nunca est\u00e3o prontas: afinam, desafinam, se reinventam. A l\u00edngua \u00e9 viva, pol\u00edtica e profundamente humana.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1110,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[167],"tags":[293],"class_list":["post-2179","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-gisele-bicalho","tag-comportamento"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2179","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2179"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2179\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2181,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2179\/revisions\/2181"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1110"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2179"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2179"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2179"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}