{"id":2104,"date":"2025-11-21T10:59:58","date_gmt":"2025-11-21T13:59:58","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2104"},"modified":"2025-11-21T11:22:22","modified_gmt":"2025-11-21T14:22:22","slug":"guardadores-de-luz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2104","title":{"rendered":"Guardadores de luz"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2105\" aria-describedby=\"caption-attachment-2105\" style=\"width: 862px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2105\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Gisele-Bicalho-300x219.jpeg\" alt=\"\" width=\"862\" height=\"629\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Gisele-Bicalho-300x219.jpeg 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Gisele-Bicalho-1024x747.jpeg 1024w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Gisele-Bicalho-768x560.jpeg 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Gisele-Bicalho.jpeg 1184w\" sizes=\"(max-width: 862px) 100vw, 862px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2105\" class=\"wp-caption-text\">Imagem gerada por IA<\/figcaption><\/figure>\n<p>Na casa ancestral, a luz era visita inconstante. A energia el\u00e9trica era gerada pela Usina de Bento Lopes. Hoje est\u00e1 desativada. O sil\u00eancio de suas turbinas incomoda.<\/p>\n<p>O que ser\u00e1 feito desse patrim\u00f4nio da nossa regi\u00e3o?<\/p>\n<p>Se preservar a mem\u00f3ria viva e manter de p\u00e9 a hist\u00f3ria \u00e9 importante, aqui a prosa vai al\u00e9m e toma outro rumo. \u00c9 que no tempo da delicadeza bastava uma chuva mais forte ou um vento atravessado para que a cidade mergulhasse no escuro. Mas ali, entre paredes antigas e m\u00f3veis pesados, a escurid\u00e3o nunca reinava sozinha.<\/p>\n<p>Havia os casti\u00e7ais. Um, de lou\u00e7a, delicado, parecia feito para enfeitar o quarto da Vov\u00f3; o outro, de metal \u2014 n\u00e3o sei dizer qual \u2014 tinha a firmeza de quem nasceu para resistir ao tempo. Quando a noite se tornava mais densa, eram eles que se erguiam, guardi\u00f5es silenciosos da chama.<\/p>\n<p>Da parede de uma das salas, um lampi\u00e3o nos espreitava. Era como se vigiasse cada sombra que ousasse atravessar o corredor. Tamb\u00e9m havia lamparinas bruxuleantes que tremiam ao menor sopro de vento, desenhando fantasmas nas paredes e dando vida \u00e0s hist\u00f3rias que a casa guardava.<\/p>\n<p>Era uma coreografia de luzes fr\u00e1geis, mas persistentes. Cada chama carregava a mem\u00f3ria dos que j\u00e1 tinham passado por ali, iluminando n\u00e3o apenas o espa\u00e7o, mas tamb\u00e9m o tempo. A casa respirava diferente sob aquela claridade t\u00edmida, e at\u00e9 as conversas ganhavam outro tom. Mais lento, mais \u00edntimo, mais verdadeiro.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m era o cen\u00e1rio perfeito para a conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias de assombra\u00e7\u00e3o. Vov\u00f4 Nen\u00ea levava seres fant\u00e1sticos para o ambiente das ca\u00e7adas que ele conhecia como poucos. As palavras acendiam medos, sombras ganhavam corpo, o sil\u00eancio se tornava c\u00famplice. O cora\u00e7\u00e3o disparava, perdido no escuro. S\u00f3 voltava ao compasso normal quando a energia el\u00e9trica retornava, rasgando a noite e devolvendo luz \u00e0 casa centen\u00e1ria.<\/p>\n<p>Vov\u00f4 e Vov\u00f3 se foram h\u00e1 tempos. Certamente est\u00e3o em um lugar melhor. Mas dos casti\u00e7ais, lampi\u00e3o e lamparinas n\u00e3o se tem not\u00edcia. Se perderam ao longo dos anos. Volta e meia resgato uma mem\u00f3ria (agora dei pra isso; deve ser coisa do envelhecimento). Chega iluminada ora pela lamparina, ora pelo lampi\u00e3o. As mais doces me remetem ao casti\u00e7al. Talvez porque ficasse no quarto dos meus av\u00f3s. Esse canto da casa era puro aconchego. Cheirava \u00e0 p\u00f3 de arroz e a leite de rosas.<\/p>\n<p>Cheirava tamb\u00e9m \u00e0 Vick Vaporube. Vov\u00f3 Cocota frequentemente recorria ao medicamento para tratar o bando de netos de infinitas causas: do al\u00edvio da tosse \u00e0 congest\u00e3o nasal. Tamb\u00e9m servia para dor muscular, para amenizar sintomas relacionados a gripes e resfriados. Servia at\u00e9 para aliviar a coceira da picada de insetos.<\/p>\n<p>O casti\u00e7al tamb\u00e9m ornamentava altares e se mostrava majestoso, iluminando ladainhas e ter\u00e7os rezados com a frequ\u00eancia que as dores do mundo e a f\u00e9 exigem. Se era preciso apelar pela ajuda de Santo Ant\u00f4nio, o queridinho da minha av\u00f3, l\u00e1 estava ele, iluminando o caminho que levaria \u00e0 gra\u00e7a que certamente seria alcan\u00e7ada. Afinal, Santo Ant\u00f4nio n\u00e3o falhava nunca.<\/p>\n<p>Hoje, penso que as lamparinas, o casti\u00e7al e o lampi\u00e3o eram mais do que utilidades dom\u00e9sticas. Eram s\u00edmbolos de resist\u00eancia, de cuidado e de mem\u00f3ria. Cada vela acesa era um gesto de esperan\u00e7a, uma forma de dizer que, mesmo quando a cidade apagava, a vida seguia iluminada dentro de casa.<\/p>\n<p>Ah, e quanto \u00e0 Usina de Bento Lopes, algu\u00e9m sabe dizer o que ser\u00e1 feito desse patrim\u00f4nio que guarda parte importante da hist\u00f3ria da nossa cidade? H\u00e1 algum projeto voltado para a \u00e1rea cultural ou gastron\u00f4mica? Com a palavra, os empres\u00e1rios e as lideran\u00e7as pol\u00edticas locais.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1109\" aria-describedby=\"caption-attachment-1109\" style=\"width: 988px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-1109\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-300x171.png\" alt=\"\" width=\"988\" height=\"563\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-300x171.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-1024x585.png 1024w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-768x439.png 768w\" sizes=\"(max-width: 988px) 100vw, 988px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1109\" class=\"wp-caption-text\">Gisele Bicalho \u00e9 jornalista e escritora.<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na casa ancestral, a luz era visita inconstante. A energia el\u00e9trica era gerada pela Usina de Bento Lopes. Hoje est\u00e1 desativada. O sil\u00eancio de suas turbinas incomoda. O que ser\u00e1 feito desse patrim\u00f4nio da nossa regi\u00e3o? Se preservar a mem\u00f3ria viva e manter de p\u00e9 a hist\u00f3ria \u00e9 importante, aqui a prosa vai al\u00e9m e toma outro rumo. \u00c9 que no tempo da delicadeza bastava uma chuva mais forte ou um vento atravessado para que a cidade mergulhasse no escuro. Mas ali, entre paredes antigas e m\u00f3veis pesados, a escurid\u00e3o nunca reinava sozinha. Havia os casti\u00e7ais. Um, de lou\u00e7a, delicado, parecia feito para enfeitar o quarto da Vov\u00f3; o outro, de metal \u2014 n\u00e3o sei dizer qual \u2014 tinha a firmeza de quem nasceu para resistir ao tempo. Quando a noite se tornava mais densa, eram eles que se erguiam, guardi\u00f5es silenciosos da chama. Da parede de uma das salas, um lampi\u00e3o nos espreitava. Era como se vigiasse cada sombra que ousasse atravessar o corredor. Tamb\u00e9m havia lamparinas bruxuleantes que tremiam ao menor sopro de vento, desenhando fantasmas nas paredes e dando vida \u00e0s hist\u00f3rias que a casa guardava. Era uma coreografia de luzes fr\u00e1geis, mas persistentes. Cada chama carregava a mem\u00f3ria dos que j\u00e1 tinham passado por ali, iluminando n\u00e3o apenas o espa\u00e7o, mas tamb\u00e9m o tempo. A casa respirava diferente sob aquela claridade t\u00edmida, e at\u00e9 as conversas ganhavam outro tom. Mais lento, mais \u00edntimo, mais verdadeiro. Tamb\u00e9m era o cen\u00e1rio perfeito para a conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias de assombra\u00e7\u00e3o. Vov\u00f4 Nen\u00ea levava seres fant\u00e1sticos para o ambiente das ca\u00e7adas que ele conhecia como poucos. As palavras acendiam medos, sombras ganhavam corpo, o sil\u00eancio se tornava c\u00famplice. O cora\u00e7\u00e3o disparava, perdido no escuro. S\u00f3 voltava ao compasso normal quando a energia el\u00e9trica retornava, rasgando a noite e devolvendo luz \u00e0 casa centen\u00e1ria. Vov\u00f4 e Vov\u00f3 se foram h\u00e1 tempos. Certamente est\u00e3o em um lugar melhor. Mas dos casti\u00e7ais, lampi\u00e3o e lamparinas n\u00e3o se tem not\u00edcia. Se perderam ao longo dos anos. Volta e meia resgato uma mem\u00f3ria (agora dei pra isso; deve ser coisa do envelhecimento). Chega iluminada ora pela lamparina, ora pelo lampi\u00e3o. As mais doces me remetem ao casti\u00e7al. Talvez porque ficasse no quarto dos meus av\u00f3s. Esse canto da casa era puro aconchego. Cheirava \u00e0 p\u00f3 de arroz e a leite de rosas. Cheirava tamb\u00e9m \u00e0 Vick Vaporube. Vov\u00f3 Cocota frequentemente recorria ao medicamento para tratar o bando de netos de infinitas causas: do al\u00edvio da tosse \u00e0 congest\u00e3o nasal. Tamb\u00e9m servia para dor muscular, para amenizar sintomas relacionados a gripes e resfriados. Servia at\u00e9 para aliviar a coceira da picada de insetos. O casti\u00e7al tamb\u00e9m ornamentava altares e se mostrava majestoso, iluminando ladainhas e ter\u00e7os rezados com a frequ\u00eancia que as dores do mundo e a f\u00e9 exigem. Se era preciso apelar pela ajuda de Santo Ant\u00f4nio, o queridinho da minha av\u00f3, l\u00e1 estava ele, iluminando o caminho que levaria \u00e0 gra\u00e7a que certamente seria alcan\u00e7ada. Afinal, Santo Ant\u00f4nio n\u00e3o falhava nunca. Hoje, penso que as lamparinas, o casti\u00e7al e o lampi\u00e3o eram mais do que utilidades dom\u00e9sticas. Eram s\u00edmbolos de resist\u00eancia, de cuidado e de mem\u00f3ria. Cada vela acesa era um gesto de esperan\u00e7a, uma forma de dizer que, mesmo quando a cidade apagava, a vida seguia iluminada dentro de casa. Ah, e quanto \u00e0 Usina de Bento Lopes, algu\u00e9m sabe dizer o que ser\u00e1 feito desse patrim\u00f4nio que guarda parte importante da hist\u00f3ria da nossa cidade? 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Com a palavra, os empres\u00e1rios e as lideran\u00e7as pol\u00edticas locais.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1110,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[167],"tags":[293],"class_list":["post-2104","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-gisele-bicalho","tag-comportamento"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2104","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2104"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2104\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2107,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2104\/revisions\/2107"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1110"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2104"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2104"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2104"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}