{"id":2007,"date":"2025-11-07T13:50:05","date_gmt":"2025-11-07T16:50:05","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2007"},"modified":"2025-11-08T10:39:21","modified_gmt":"2025-11-08T13:39:21","slug":"o-poder-das-pequenas-coisas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=2007","title":{"rendered":"O poder das pequenas coisas"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2008\" aria-describedby=\"caption-attachment-2008\" style=\"width: 1037px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2008\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/o-poder-das-pequenas-coisas-300x169.jpeg\" alt=\"\" width=\"1037\" height=\"584\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/o-poder-das-pequenas-coisas-300x169.jpeg 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/o-poder-das-pequenas-coisas-768x432.jpeg 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/o-poder-das-pequenas-coisas.jpeg 1024w\" sizes=\"(max-width: 1037px) 100vw, 1037px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2008\" class=\"wp-caption-text\">X\u00edcara, pires e prato de bolo da cole\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia Bicalho, decorados com bolsas, sapatos, vestidos. Foto &#8211; arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>Voc\u00ea reparou nas lou\u00e7as que usei dia desses? Fiquei t\u00e3o encantada que at\u00e9 postei nas redes sociais. S\u00e3o x\u00edcaras, pires e pratos de bolo. A estampa traz bolsas, sapatos e vestidos. Lindas! Bem femininas. Tenho h\u00e1 anos. Ficam encaixotadas. S\u00f3 saem para brilhar em ocasi\u00f5es especiais. Ou n\u00e3o. Dessa vez, ganharam protagonismo porque eu queria enfeitar a tarde da minha fam\u00edlia. Para compor, passei um cafezinho. tamb\u00e9m servi um bolo de banana. Preparei enquanto a casa estava silenciosa e todos tiravam um cochilo.<\/p>\n<p>Imagino que voc\u00ea esteja a\u00ed pensando em voz alta:<\/p>\n<p>&#8211; Quanta bobagem! O que muda na vida dessas pessoas se a lou\u00e7a \u00e9 antiga, nova, bonita ou feia?<\/p>\n<p>Na verdade, essa conversa n\u00e3o \u00e9 sobre as lou\u00e7as, nem sobre o bolo. \u00c9 sobre o que est\u00e1 por tr\u00e1s do gesto. Est\u00e1 naquilo que mora no detalhe. Nas pequenas coisas que passam despercebidas na rotina. \u00c9 sobre tomar um f\u00f4lego e, no meio da pressa do dia a dia, botar reparo naquilo que quase ningu\u00e9m nota.<\/p>\n<p>Rubem Alves j\u00e1 escreveu sobre isso. Para ele, \u201ca beleza n\u00e3o est\u00e1 nas coisas, mas no modo como as vemos.\u201d Ou vai me dizer que voc\u00ea nunca reparou no baile da folha que caiu do alto da mangueira? Tem tamb\u00e9m aquele ninho de beija-flor que o vento insiste em derrubar e que sempre tem algu\u00e9m para recolar no galho. E, no meu caso, tem aquele dinheiro que certamente vai me fazer falta, mas que gastei sem pestanejar para comprar aquela x\u00edcara de peitos que era o meu objeto de desejo.<\/p>\n<p>&#8211; Para que diabos serve uma x\u00edcara com peitos?<\/p>\n<p>Uai, serve para trazer alegria \u00e0 minha vida. Olha o detalhe a\u00ed de novo. Uma pena que tenha gente que n\u00e3o perceba, que s\u00f3 acredite num mundo de grandes feitos, de conquistas gritadas, de an\u00fancios em caixa alta.<\/p>\n<p>Mas, \u00e2nimo: h\u00e1 tamb\u00e9m quem veja al\u00e9m do \u00f3bvio. H\u00e1 quem pare. H\u00e1 quem escute o sil\u00eancio entre uma palavra e outra e perceba que ali mora uma verdade.<br \/>\nDenise, minha irm\u00e3 do meio, \u00e9 um bom exemplo. S\u00f3 se sente plenamente feliz quando rega suas plantas. Tem a ver com o tempo que ela dedica a algo que n\u00e3o lhe exige nada em troca. Ou seja: o pequeno n\u00e3o \u00e9 menor. O pequeno \u00e9 o que sustenta. Um bilhete esquecido na bolsa. Um \u201cbom dia\u201d dito com o olho. Um cheiro que lembra a inf\u00e2ncia. Um abra\u00e7o que n\u00e3o resolve, mas acalma.<\/p>\n<p>O mundo nos ensina a correr, mas \u00e9 no passo lento que a vida se revela. Porque o que \u00e9 grande demais n\u00e3o cabe na alma. Mas o que \u00e9 pequeno, ah, esse cabe no bolso, no cora\u00e7\u00e3o, na mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Essa prosa toda me devolveu uma cole\u00e7\u00e3o de lembran\u00e7as. Do filme \u201cDias Perfeitos\u201d. Tem tamb\u00e9m uma cr\u00f4nica da Leila Ferreira, na qual ela fala sobre o fen\u00f4meno do boom de venda das panelas pequenas, das travessas mi\u00fadas e das tigelinhas que mal cabem um tomate. O crescimento da venda desses itens deixou no passado as travessas imensas da macarronada de domingo. Mais uma vez (olha eu aqui sendo repetitiva), n\u00e3o \u00e9 sobre a macarronada, mas sobre o encolhimento da conviv\u00eancia, do desencontro das fam\u00edlias e dos amigos. Nem faz tanto tempo assim, nessas panelonas imensas vinha mais que alimento; vinha afeto. Hoje, o sentimento encolheu. \u00c9 para poucos.<\/p>\n<p>No fim das contas, talvez a felicidade n\u00e3o esteja em ter mais, mas em ver melhor. Em apreciar o p\u00f4r do sol, em comer sem pressa, em assistir a um filme que nos convida a pensar sobre o mundo em que vivemos e sobre o papel que escolhemos ocupar nele.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, Dias Perfeitos, dispon\u00edvel na Netflix, conta a hist\u00f3ria de um limpador de banheiros p\u00fablicos no Jap\u00e3o. Algu\u00e9m invis\u00edvel para a maioria, mas que celebra, com delicadeza, a beleza das pequenas coisas. Ele descobriu que a cura dos males da vida pode estar nos gestos simples, aqueles que carregam magia, humanidade e sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse lugar que mora o sentido das coisas. No detalhe que quase ningu\u00e9m v\u00ea. No poder das coisas pequenas: uma m\u00fasica boa, um abra\u00e7o demorado, um caf\u00e9 servido com afeto.<\/p>\n<p>A vida n\u00e3o pede palco. A vida boa \u00e9 sussurrada. Conquistar o mundo talvez n\u00e3o nos leve a lugar algum. Mas reparar no que j\u00e1 est\u00e1 ao nosso redor \u2014 isso sim \u2014 pode nos devolver o que h\u00e1 de mais precioso: o encantamento.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1109\" aria-describedby=\"caption-attachment-1109\" style=\"width: 795px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-1109\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-300x171.png\" alt=\"\" width=\"795\" height=\"453\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-300x171.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-1024x585.png 1024w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-768x439.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1.png 1050w\" sizes=\"(max-width: 795px) 100vw, 795px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1109\" class=\"wp-caption-text\">Gisele Bicalho \u00e9 jornalista e escritora.<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea reparou nas lou\u00e7as que usei dia desses? Fiquei t\u00e3o encantada que at\u00e9 postei nas redes sociais. S\u00e3o x\u00edcaras, pires e pratos de bolo. A estampa traz bolsas, sapatos e vestidos. Lindas! Bem femininas. Tenho h\u00e1 anos. Ficam encaixotadas. S\u00f3 saem para brilhar em ocasi\u00f5es especiais. Ou n\u00e3o. Dessa vez, ganharam protagonismo porque eu queria enfeitar a tarde da minha fam\u00edlia. Para compor, passei um cafezinho. tamb\u00e9m servi um bolo de banana. Preparei enquanto a casa estava silenciosa e todos tiravam um cochilo. Imagino que voc\u00ea esteja a\u00ed pensando em voz alta: &#8211; Quanta bobagem! O que muda na vida dessas pessoas se a lou\u00e7a \u00e9 antiga, nova, bonita ou feia? Na verdade, essa conversa n\u00e3o \u00e9 sobre as lou\u00e7as, nem sobre o bolo. \u00c9 sobre o que est\u00e1 por tr\u00e1s do gesto. Est\u00e1 naquilo que mora no detalhe. Nas pequenas coisas que passam despercebidas na rotina. \u00c9 sobre tomar um f\u00f4lego e, no meio da pressa do dia a dia, botar reparo naquilo que quase ningu\u00e9m nota. Rubem Alves j\u00e1 escreveu sobre isso. Para ele, \u201ca beleza n\u00e3o est\u00e1 nas coisas, mas no modo como as vemos.\u201d Ou vai me dizer que voc\u00ea nunca reparou no baile da folha que caiu do alto da mangueira? Tem tamb\u00e9m aquele ninho de beija-flor que o vento insiste em derrubar e que sempre tem algu\u00e9m para recolar no galho. E, no meu caso, tem aquele dinheiro que certamente vai me fazer falta, mas que gastei sem pestanejar para comprar aquela x\u00edcara de peitos que era o meu objeto de desejo. &#8211; Para que diabos serve uma x\u00edcara com peitos? Uai, serve para trazer alegria \u00e0 minha vida. Olha o detalhe a\u00ed de novo. Uma pena que tenha gente que n\u00e3o perceba, que s\u00f3 acredite num mundo de grandes feitos, de conquistas gritadas, de an\u00fancios em caixa alta. Mas, \u00e2nimo: h\u00e1 tamb\u00e9m quem veja al\u00e9m do \u00f3bvio. H\u00e1 quem pare. H\u00e1 quem escute o sil\u00eancio entre uma palavra e outra e perceba que ali mora uma verdade. Denise, minha irm\u00e3 do meio, \u00e9 um bom exemplo. S\u00f3 se sente plenamente feliz quando rega suas plantas. Tem a ver com o tempo que ela dedica a algo que n\u00e3o lhe exige nada em troca. Ou seja: o pequeno n\u00e3o \u00e9 menor. O pequeno \u00e9 o que sustenta. Um bilhete esquecido na bolsa. Um \u201cbom dia\u201d dito com o olho. Um cheiro que lembra a inf\u00e2ncia. Um abra\u00e7o que n\u00e3o resolve, mas acalma. O mundo nos ensina a correr, mas \u00e9 no passo lento que a vida se revela. Porque o que \u00e9 grande demais n\u00e3o cabe na alma. Mas o que \u00e9 pequeno, ah, esse cabe no bolso, no cora\u00e7\u00e3o, na mem\u00f3ria. Essa prosa toda me devolveu uma cole\u00e7\u00e3o de lembran\u00e7as. Do filme \u201cDias Perfeitos\u201d. Tem tamb\u00e9m uma cr\u00f4nica da Leila Ferreira, na qual ela fala sobre o fen\u00f4meno do boom de venda das panelas pequenas, das travessas mi\u00fadas e das tigelinhas que mal cabem um tomate. O crescimento da venda desses itens deixou no passado as travessas imensas da macarronada de domingo. Mais uma vez (olha eu aqui sendo repetitiva), n\u00e3o \u00e9 sobre a macarronada, mas sobre o encolhimento da conviv\u00eancia, do desencontro das fam\u00edlias e dos amigos. Nem faz tanto tempo assim, nessas panelonas imensas vinha mais que alimento; vinha afeto. Hoje, o sentimento encolheu. \u00c9 para poucos. No fim das contas, talvez a felicidade n\u00e3o esteja em ter mais, mas em ver melhor. Em apreciar o p\u00f4r do sol, em comer sem pressa, em assistir a um filme que nos convida a pensar sobre o mundo em que vivemos e sobre o papel que escolhemos ocupar nele. A prop\u00f3sito, Dias Perfeitos, dispon\u00edvel na Netflix, conta a hist\u00f3ria de um limpador de banheiros p\u00fablicos no Jap\u00e3o. Algu\u00e9m invis\u00edvel para a maioria, mas que celebra, com delicadeza, a beleza das pequenas coisas. Ele descobriu que a cura dos males da vida pode estar nos gestos simples, aqueles que carregam magia, humanidade e sil\u00eancio. \u00c9 nesse lugar que mora o sentido das coisas. No detalhe que quase ningu\u00e9m v\u00ea. No poder das coisas pequenas: uma m\u00fasica boa, um abra\u00e7o demorado, um caf\u00e9 servido com afeto. A vida n\u00e3o pede palco. A vida boa \u00e9 sussurrada. Conquistar o mundo talvez n\u00e3o nos leve a lugar algum. 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