{"id":1943,"date":"2025-10-31T17:42:01","date_gmt":"2025-10-31T20:42:01","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=1943"},"modified":"2025-10-31T17:42:01","modified_gmt":"2025-10-31T20:42:01","slug":"o-chamado-que-ainda-ecoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=1943","title":{"rendered":"O chamado que ainda ecoa"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1944\" aria-describedby=\"caption-attachment-1944\" style=\"width: 880px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1944\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/O-chamado-que-ecoa-300x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"880\" height=\"880\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/O-chamado-que-ecoa-300x300.jpeg 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/O-chamado-que-ecoa-150x150.jpeg 150w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/O-chamado-que-ecoa-768x768.jpeg 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/O-chamado-que-ecoa.jpeg 1024w\" sizes=\"(max-width: 880px) 100vw, 880px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1944\" class=\"wp-caption-text\">O Velho Osvaldo com seu indefect\u00edvel berrante. Imagem gerada por IA<\/figcaption><\/figure>\n<p>Papai foi homem de mil profiss\u00f5es. O que o manteve vivo e inteiro por mais de nove d\u00e9cadas talvez tenha sido essa sua incompletude. Ele sempre foi assim: inquieto. Conduziu boiadas guiado pelo som dos berrantes, dirigiu caminh\u00f5es Brasil afora, abriu trilhas em matas para que a Cemig instalasse torres de transmiss\u00e3o. Foi dono de padaria, mercadinho, serraria e servidor p\u00fablico. Foi at\u00e9 prefeito. E dos bons.<\/p>\n<p>N\u00e3o me espantaria se algu\u00e9m dissesse que Manoel de Barros se inspirou no Velho Osvaldo quando escreveu que ele n\u00e3o se contentava em ser apenas um sujeito que abria portas, que puxava v\u00e1lvulas, que olhava o rel\u00f3gio e que comprava p\u00e3o \u00e0s seis da tarde. \u201cPerdoai. Mas eu preciso ser Outros\u201d, eternizou o poeta, que, sem querer, traduziu nosso Velho Osvaldo ao p\u00e9 da letra.<\/p>\n<p>Para vencer o tempo, Papai se reinventava todos os dias. Mesmo que o fio condutor dessa reconstru\u00e7\u00e3o fossem as lembran\u00e7as. Nas m\u00faltiplas tarefas e of\u00edcios, talvez ele estivesse em busca desse \u201coutro eu\u201d.<\/p>\n<p>Era como uma corredeira volumosa avan\u00e7ando sobre as pedras do Rio Par\u00e1. Nada o parava. E a felicidade vinha quando o of\u00edcio o mantinha em comunh\u00e3o com a natureza. Papai era parte dela. Pra faz\u00ea-lo feliz, bastava o gorjear de um p\u00e1ssaro, o mugido de um boi, o tropel do cavalo, um milharal que despontava, fruta no pomar, canteiro que prometia verdura \u00e0 mesa, vento anunciando chuva.<\/p>\n<p>Volta e meia lembrava de quando campeava gado pelos campos. E n\u00e3o se cansava de contar (nem n\u00f3s de ouvir) que come\u00e7ou na lida ainda menino. Nem bem tinha completado quinze anos e j\u00e1 estava l\u00e1, no lombo de um cavalo, varando sert\u00e3o adentro ao som do berrante. Quando o sol se punha, o menino vaqueiro se juntava aos pe\u00f5es em volta da fogueira. A\u00ed era causo que n\u00e3o acabava mais. Comida farta, barriga cheia, nada de dormir. A tropa ainda tinha f\u00f4lego para muita cantoria. No dia seguinte, bem antes do sol raiar, todos estavam prontos para recome\u00e7ar. E Papai junto.<\/p>\n<p>Ouvi essa hist\u00f3ria dezenas de vezes. At\u00e9 j\u00e1 contei aqui. Mas sempre h\u00e1 algo mais por dizer: um detalhe, uma revela\u00e7\u00e3o, um nome, uma cidade, amizades que se perderam no tempo.<\/p>\n<p>Dia desses algu\u00e9m comentou sobre o som do berrante. A\u00ed n\u00e3o deu outra. O Beto foi certeiro: \u201cPapai era um profissional nessa arte.\u201d E n\u00e3o era pra menos. Afinal, o berrante tem link direto com a alma de quem nasceu no sert\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 instrumento. \u00c9 mem\u00f3ria, \u00e9 comando, \u00e9 poesia soprada com for\u00e7a e respeito. Quem toca \u00e9 guardi\u00e3o de uma cultura que resiste ao tempo.<\/p>\n<p>Hist\u00f3ria vai, hist\u00f3ria vem, a Jacq, irm\u00e3 que tem alma de vaqueira, comentou que o som do berrante varia de acordo com o momento. Beto comentou que cada toque tem uma finalidade. Fui pesquisar e confirmei. O da sa\u00edda da boiada \u00e9 como o nascer do dia: anuncia movimento, abre caminho. O estrad\u00e3o \u00e9 o compasso da jornada, firme e constante, como o cora\u00e7\u00e3o de quem guia. O rebatedouro \u00e9 alerta, \u00e9 freio, \u00e9 cuidado com o gado que se dispersa. O toque da queima do alho \u00e9 festa, cheiro de comida no ar, panela borbulhando hist\u00f3rias. E o floreio, ah, esse \u00e9 liberdade. \u00c9 arte pura, \u00e9 o berranteiro dizendo \u201ceu sou daqui\u201d. Papai conhecia todos.<\/p>\n<p>At\u00e9 posso ouvir nosso Pai dizer: \u201cPara tocar berrante n\u00e3o basta soprar. H\u00e1 que se ter as m\u00e3os firmes, l\u00e1bios semiabertos, respira\u00e7\u00e3o que vem do fundo do peito. \u00c9 preciso respeitar o sil\u00eancio antes do som, entender que cada nota carrega s\u00e9culos de tradi\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Se pare\u00e7o nost\u00e1lgica, \u00e9 porque o Velho Osvaldo anda fazendo muita falta nesse nosso mundo sem gra\u00e7a. Por aqui n\u00e3o h\u00e1 mais p\u00e9 de valsa chamando as filhas pra dan\u00e7ar com ele no quintal, nem quem convide os netos para conversas absolutamente encantadoras ao p\u00e9 do ouvido.<br \/>\nTalvez seja isso que o tempo n\u00e3o consiga apagar: o eco de um chamado que atravessa gera\u00e7\u00f5es. O som do berrante, que um dia guiou boiadas, hoje guia lembran\u00e7as. Porque h\u00e1 aus\u00eancias que n\u00e3o se calam. Elas se transformam em som, em vento, em saudade. E se um dia, por acaso, eu ouvir um berrante tocando ao longe, sei que n\u00e3o ser\u00e1 apenas um som. Ser\u00e1 ele. Atendendo ao chamado. Como sempre fez.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1109\" aria-describedby=\"caption-attachment-1109\" style=\"width: 623px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-1109\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-300x171.png\" alt=\"\" width=\"623\" height=\"355\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-300x171.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-1024x585.png 1024w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-768x439.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1.png 1050w\" sizes=\"(max-width: 623px) 100vw, 623px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1109\" class=\"wp-caption-text\">Gisele Bicalho \u00e9 jornalista e escritora.<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Papai foi homem de mil profiss\u00f5es. O que o manteve vivo e inteiro por mais de nove d\u00e9cadas talvez tenha sido essa sua incompletude. Ele sempre foi assim: inquieto. Conduziu boiadas guiado pelo som dos berrantes, dirigiu caminh\u00f5es Brasil afora, abriu trilhas em matas para que a Cemig instalasse torres de transmiss\u00e3o. Foi dono de padaria, mercadinho, serraria e servidor p\u00fablico. Foi at\u00e9 prefeito. E dos bons. N\u00e3o me espantaria se algu\u00e9m dissesse que Manoel de Barros se inspirou no Velho Osvaldo quando escreveu que ele n\u00e3o se contentava em ser apenas um sujeito que abria portas, que puxava v\u00e1lvulas, que olhava o rel\u00f3gio e que comprava p\u00e3o \u00e0s seis da tarde. \u201cPerdoai. Mas eu preciso ser Outros\u201d, eternizou o poeta, que, sem querer, traduziu nosso Velho Osvaldo ao p\u00e9 da letra. Para vencer o tempo, Papai se reinventava todos os dias. Mesmo que o fio condutor dessa reconstru\u00e7\u00e3o fossem as lembran\u00e7as. Nas m\u00faltiplas tarefas e of\u00edcios, talvez ele estivesse em busca desse \u201coutro eu\u201d. Era como uma corredeira volumosa avan\u00e7ando sobre as pedras do Rio Par\u00e1. Nada o parava. E a felicidade vinha quando o of\u00edcio o mantinha em comunh\u00e3o com a natureza. Papai era parte dela. Pra faz\u00ea-lo feliz, bastava o gorjear de um p\u00e1ssaro, o mugido de um boi, o tropel do cavalo, um milharal que despontava, fruta no pomar, canteiro que prometia verdura \u00e0 mesa, vento anunciando chuva. Volta e meia lembrava de quando campeava gado pelos campos. E n\u00e3o se cansava de contar (nem n\u00f3s de ouvir) que come\u00e7ou na lida ainda menino. Nem bem tinha completado quinze anos e j\u00e1 estava l\u00e1, no lombo de um cavalo, varando sert\u00e3o adentro ao som do berrante. Quando o sol se punha, o menino vaqueiro se juntava aos pe\u00f5es em volta da fogueira. A\u00ed era causo que n\u00e3o acabava mais. Comida farta, barriga cheia, nada de dormir. A tropa ainda tinha f\u00f4lego para muita cantoria. No dia seguinte, bem antes do sol raiar, todos estavam prontos para recome\u00e7ar. E Papai junto. Ouvi essa hist\u00f3ria dezenas de vezes. At\u00e9 j\u00e1 contei aqui. Mas sempre h\u00e1 algo mais por dizer: um detalhe, uma revela\u00e7\u00e3o, um nome, uma cidade, amizades que se perderam no tempo. Dia desses algu\u00e9m comentou sobre o som do berrante. A\u00ed n\u00e3o deu outra. O Beto foi certeiro: \u201cPapai era um profissional nessa arte.\u201d E n\u00e3o era pra menos. Afinal, o berrante tem link direto com a alma de quem nasceu no sert\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 instrumento. \u00c9 mem\u00f3ria, \u00e9 comando, \u00e9 poesia soprada com for\u00e7a e respeito. Quem toca \u00e9 guardi\u00e3o de uma cultura que resiste ao tempo. Hist\u00f3ria vai, hist\u00f3ria vem, a Jacq, irm\u00e3 que tem alma de vaqueira, comentou que o som do berrante varia de acordo com o momento. Beto comentou que cada toque tem uma finalidade. Fui pesquisar e confirmei. O da sa\u00edda da boiada \u00e9 como o nascer do dia: anuncia movimento, abre caminho. O estrad\u00e3o \u00e9 o compasso da jornada, firme e constante, como o cora\u00e7\u00e3o de quem guia. O rebatedouro \u00e9 alerta, \u00e9 freio, \u00e9 cuidado com o gado que se dispersa. O toque da queima do alho \u00e9 festa, cheiro de comida no ar, panela borbulhando hist\u00f3rias. E o floreio, ah, esse \u00e9 liberdade. \u00c9 arte pura, \u00e9 o berranteiro dizendo \u201ceu sou daqui\u201d. Papai conhecia todos. At\u00e9 posso ouvir nosso Pai dizer: \u201cPara tocar berrante n\u00e3o basta soprar. H\u00e1 que se ter as m\u00e3os firmes, l\u00e1bios semiabertos, respira\u00e7\u00e3o que vem do fundo do peito. \u00c9 preciso respeitar o sil\u00eancio antes do som, entender que cada nota carrega s\u00e9culos de tradi\u00e7\u00e3o.\u201d Se pare\u00e7o nost\u00e1lgica, \u00e9 porque o Velho Osvaldo anda fazendo muita falta nesse nosso mundo sem gra\u00e7a. Por aqui n\u00e3o h\u00e1 mais p\u00e9 de valsa chamando as filhas pra dan\u00e7ar com ele no quintal, nem quem convide os netos para conversas absolutamente encantadoras ao p\u00e9 do ouvido. Talvez seja isso que o tempo n\u00e3o consiga apagar: o eco de um chamado que atravessa gera\u00e7\u00f5es. O som do berrante, que um dia guiou boiadas, hoje guia lembran\u00e7as. Porque h\u00e1 aus\u00eancias que n\u00e3o se calam. Elas se transformam em som, em vento, em saudade. E se um dia, por acaso, eu ouvir um berrante tocando ao longe, sei que n\u00e3o ser\u00e1 apenas um som. Ser\u00e1 ele. Atendendo ao chamado. 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