{"id":1917,"date":"2025-10-24T19:07:46","date_gmt":"2025-10-24T22:07:46","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=1917"},"modified":"2025-10-24T19:08:29","modified_gmt":"2025-10-24T22:08:29","slug":"o-dia-dos-gerais-uma-travessia-pelo-velho-chico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=1917","title":{"rendered":"O Dia dos Gerais: uma travessia pelo Velho Chico"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1918\" aria-describedby=\"caption-attachment-1918\" style=\"width: 905px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1918\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Velho-Chico-3-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"905\" height=\"679\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Velho-Chico-3-300x225.jpg 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Velho-Chico-3-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Velho-Chico-3-768x576.jpg 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Velho-Chico-3-640x480.jpg 640w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Velho-Chico-3-1000x750.jpg 1000w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Velho-Chico-3.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 905px) 100vw, 905px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1918\" class=\"wp-caption-text\">Rio S\u00e3o Francisco, entre as cidades de Manga e Matias Cardoso &#8211; Foto: DER &#8211; MG<\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"elementor-element elementor-element-955089f the-content elementor-widget elementor-widget-theme-post-content\" data-id=\"955089f\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"theme-post-content.default\">\n<div class=\"elementor-widget-container\">\n<p>Dizem que h\u00e1 momentos na pol\u00edtica mineira em que a Hist\u00f3ria, cansada de ser lida em pap\u00e9is amarelados, resolve levantar-se e caminhar de chap\u00e9u de palha, tomando sol na moleira. Foi assim, num dia de dezembro de 2010, que o ent\u00e3o governador de Minas Gerais, <strong>Antonio Anastasia<\/strong>, desceu o <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Rio_S%C3%A3o_Francisco\">Rio S\u00e3o Francisco<\/a> em uma embarca\u00e7\u00e3o abarrotada de autoridades, assessores, prefeitos e sonhadores \u2014 todos com o mesmo prop\u00f3sito nobre: garantir a cria\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/www.almg.gov.br\/acompanhe\/noticias\/arquivos\/2011\/12\/20_dia_dos_gerais_promulgacao.html\">Dia dos Gerais<\/a>.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio era digno de um realismo m\u00e1gico sertanejo. O sol, em f\u00faria, fazia o merc\u00fario beirar 40 graus. Os ternos, que outrora simbolizavam poder, tornaram-se armaduras de tortura. O governador, homem de fala calma e modos brit\u00e2nicos, enxugava o suor da testa enquanto disfar\u00e7ava admirar a paisagem. Ao seu redor, o coro un\u00edssono dos mosquitos lembrava que, nas Gerais, at\u00e9 os insetos participam das grandes causas.<\/p>\n<p>Os prefeitos, suando e abanando-se com os papeis de seus programas de governo, lamentavam o calor e a sorte. \u201c<em>Se o ouro das Minas tivesse brotado aqui, talvez houvesse um toldo<\/em>\u201d, resmungou um deles. E outro, mais otimista, o prefeito de Patis, <strong>Valmir Morais<\/strong>, respondeu: \u201c<em>Mas se o ouro tivesse brotado aqui, n\u00e3o haveria esse rio, nem esse povo teimoso que faz da aridez prosa<\/em>.\u201d<\/p>\n<h2 id=\"h-ah-minas-querida\" class=\"wp-block-heading\">Ah, Minas querida!<\/h2>\n<p>Com tempero de anedota, contam que um certo deputado federal \u2014 de nome Jairo \u2014 teve participa\u00e7\u00e3o destacada, ainda que involunt\u00e1ria, naquele calor hist\u00f3rico. Sua careca, rubra como brasa de fog\u00e3o a lenha, refletia o sol em todas as dire\u00e7\u00f5es, aumentando o j\u00e1 abrasador clima da embarca\u00e7\u00e3o. Suando como se quisesse irrigar o S\u00e3o Francisco com esfor\u00e7o pr\u00f3prio, Jairo insistia em manter o ar tranquilo de quem nascera acostumado com o rio \u2014 embora, a cada balan\u00e7o do barco, seu semblante tra\u00edsse uma leve esperan\u00e7a de que o trajeto fosse curto.<\/p>\n<p>Entre o brilho reluzente de sua cabe\u00e7a, o zumbido dos mosquitos e o vaiv\u00e9m pregui\u00e7oso das \u00e1guas, todos ali compreenderam que a epopeia dos Gerais se fazia n\u00e3o s\u00f3 de bravura e hist\u00f3ria, mas tamb\u00e9m de suor, humanidade e um bom tanto de humor mineiro.<\/p>\n<p>E assim seguiram, entre bufadas e picadas, como bandeirantes tardios, em busca n\u00e3o de metais preciosos, mas de um s\u00edmbolo \u2014 a consagra\u00e7\u00e3o dos Gerais, essa parte esquecida do corpo mineiro que pulsa como cora\u00e7\u00e3o interiorano e sustenta, desde o s\u00e9culo XVII, atrav\u00e9s do com\u00e9rcio com Salvador e a partir de 1702 o com\u00e9rcio com a regi\u00e3o mineradora, o alimento, a cultura e a alma das Minas e dos Gerais.<\/p>\n<h2 id=\"h-cheiros-e-sabores\" class=\"wp-block-heading\">Cheiros e sabores<\/h2>\n<p>O <strong>velho Chico<\/strong> corria espelhando o c\u00e9u azul e as risadas do grupo que se aventurava em sua travessia. A embarca\u00e7\u00e3o, mais afeita \u00e0 pressa, rangia contente, levando consigo a conversa solta, o vento quente no rosto e o cheiro promissor do outro lado. Diziam que no s\u00edtio, onde o almo\u00e7o seria servido, os p\u00e9s de manga j\u00e1 tinham visto mais ver\u00f5es do que qualquer um ali \u2014 testemunhas silenciosas de festejos, amores e prosas antigas.<\/p>\n<p>\u00c0 sombra deles, um leit\u00e3o \u00e0 pururuca reluzia feito ouro de Minas, cercado por doses de cacha\u00e7a tilintando em brinde \u00e0 vida simples e boa. E, como se n\u00e3o bastasse, o doce de leite e a ambrosia esperavam o final da saga \u2014 promessas a\u00e7ucaradas de que toda travessia, com boa companhia e boa mesa, vale sempre a pena.<\/p>\n<p>Desde 2005, o Norte de Minas vinha se movendo em torno desse sonho: resgatar o valor simb\u00f3lico de sua hist\u00f3ria, t\u00e3o antiga quanto o som dos aboios que ecoam nas veredas. Institui\u00e7\u00f5es como a <a href=\"https:\/\/unimontes.br\/\">Universidade Estadual de Montes Claros<\/a> (Unimontes), a AMAMS, o Judici\u00e1rio de Montes Claros, as prefeituras de Matias Cardoso e Montes Claros, e a bancada de deputados norte-mineiros articularam o <strong>Movimento Catrumano<\/strong>, esse bravo esfor\u00e7o de mem\u00f3ria coletiva.<\/p>\n<h2 id=\"h-uniao-e-amor-pela-historia\" class=\"wp-block-heading\">Uni\u00e3o e amor pela Hist\u00f3ria<\/h2>\n<p>A AMAGIS, a Funda\u00e7\u00e3o Darcy Ribeiro, a Funda\u00e7\u00e3o Genival Tourinho, o Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico de Montes Claros e o de Minas Gerais emprestaram-lhe corpo e voz, reconhecendo que era tempo de devolver \u00e0 regi\u00e3o pastoril o brilho que a Hist\u00f3ria insistira em ofuscar.<\/p>\n<p>Dos estudos e teses da Unimontes emergiu uma nova vis\u00e3o: a de que o Norte de Minas foi, na porosidade dos s\u00e9culos XVII e XVIII, o alicerce econ\u00f4mico e humano da forma\u00e7\u00e3o mineira. Foram os Currais do S\u00e3o Francisco, divididos entre Bahia e Pernambuco, que alimentaram as primeiras minas de ouro. Foram seus vaqueiros e lavradores que, sem pretens\u00e3o de gl\u00f3ria, sustentaram a epopeia aur\u00edfera que fundaria Minas Gerais.<\/p>\n<p>Mas, com o tempo, o ouro eclipsou o couro; e o brilho dos Gerais, nascidos do gado e da terra, foi ofuscado pelo reluzir das Minas. Como escreveu <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jo%C3%A3o_Camilo_de_Oliveira_Torres\">Jo\u00e3o Camilo de Oliveira Torres<\/a>, o mineiro nasceu dessa dupla natureza \u2014 a mineradora e a geralista \u2014 e negar uma delas \u00e9 mutilar a pr\u00f3pria alma de Minas.<\/p>\n<h2 id=\"h-nosso-dia-nosso-orgulho\" class=\"wp-block-heading\">Nosso dia, nosso orgulho<\/h2>\n<p>Por isso, instituir o Dia dos Gerais n\u00e3o era mero capricho simb\u00f3lico: era um ato de justi\u00e7a hist\u00f3rica. Desde 2008, o dia 8 de dezembro \u2014 <strong>data da instala\u00e7\u00e3o da Freguesia de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o de Morrinhos em Matias Cardoso<\/strong> \u2014 foi escolhido para celebrar essa mem\u00f3ria. Uma data luminosa que, teimosamente, resistia a ser esquecida.<\/p>\n<p>O <strong>Movimento Catrumano<\/strong> espalhou-se como fogo na vereda: universidades, artistas, prefeitos e sertanejos transformaram o orgulho norte-mineiro em bandeira. Vieram a Expedi\u00e7\u00e3o Caminhos dos Gerais, a Revista Verde Grande, o Mesonorte e at\u00e9 uma pe\u00e7a teatral, \u201c<strong><em>Exerc\u00edcio n\u00ba 1: Os Catrumanos<\/em><\/strong>\u201d, em que estudantes da Unimontes mostravam no palco o elo vivo entre as Minas e os Gerais.<\/p>\n<p>E assim, naquele dia ins\u00f3lito, sob sol de chumbo, o <strong>governador Anastasia<\/strong>, tostado, risonho e talvez arrependido de n\u00e3o ter trazido um chap\u00e9u mais largo e de palha, ouviu um pescador dizer: \u201c<em>Governador, o senhor est\u00e1 descendo o mesmo rio em que subiram os sonhos desse povo. Aqui, o calor \u00e9 o mesmo de tr\u00eas s\u00e9culos atr\u00e1s, mas a esperan\u00e7a continua fresca<\/em>.\u201d<\/p>\n<h2 id=\"h-o-mineiro-anastasia\" class=\"wp-block-heading\">O mineiro Anastasia<\/h2>\n<p>O governador sorriu e, talvez, ali, entre o suor e os mosquitos, tenha compreendido que Minas n\u00e3o \u00e9 uma, mas duas:<strong> as Minas do ouro e os Gerais do descampado<\/strong>. E se a travessia foi longa e o calor impiedoso, a recompensa foi simb\u00f3lica e eterna.<\/p>\n<p>Em 2011, a <a href=\"https:\/\/www.almg.gov.br\/\">Assembleia Legislativa de Minas Gerais<\/a> aprovou, em vota\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, a Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o Estadual que instituiu oficialmente o Dia dos Gerais, consagrado \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o das origens e da identidade norte-mineira. O novo dispositivo foi inclu\u00eddo no artigo 256, inciso III, par\u00e1grafos 1\u00ba e 2\u00ba da Constitui\u00e7\u00e3o do Estado, reconhecendo a import\u00e2ncia simb\u00f3lica e cultural da regi\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o do atual estado de Minas Gerais.<\/p>\n<p>Pouco tempo depois, o <strong>Governador Ant\u00f4nio Anastasia<\/strong> sancionou a emenda, transformando em lei o que durante anos havia sido sonho e luta das institui\u00e7\u00f5es e lideran\u00e7as do Norte de Minas. Assim, o dia 8 de dezembro passou a integrar o calend\u00e1rio c\u00edvico mineiro, com transfer\u00eancia simb\u00f3lica da capital para a cidade de <strong>Matias Cardoso<\/strong>, ber\u00e7o hist\u00f3rico dos Gerais e marco fundador da civiliza\u00e7\u00e3o sanfranciscana.<\/p>\n<p>O ato representou n\u00e3o apenas um gesto pol\u00edtico, mas um reconhecimento de justi\u00e7a hist\u00f3rica, unindo, sob o mesmo sol das veredas, as Minas e os Gerais em uma s\u00f3 mem\u00f3ria, uma s\u00f3 identidade e um mesmo cora\u00e7\u00e3o mineiro.<\/p>\n<\/div>\n<figure id=\"attachment_1106\" aria-describedby=\"caption-attachment-1106\" style=\"width: 516px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-1106\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Beatriz-Morais-1-300x171.png\" alt=\"\" width=\"516\" height=\"294\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Beatriz-Morais-1-300x171.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Beatriz-Morais-1-1024x585.png 1024w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Beatriz-Morais-1-768x439.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Beatriz-Morais-1.png 1050w\" sizes=\"(max-width: 516px) 100vw, 516px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1106\" class=\"wp-caption-text\">Beatriz Coelho Morais de S\u00e1 \u00e9 Advogada e Mestre em Ci\u00eancias Sociais. Associada Efetiva do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico de Minas Gerais<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dizem que h\u00e1 momentos na pol\u00edtica mineira em que a Hist\u00f3ria, cansada de ser lida em pap\u00e9is amarelados, resolve levantar-se e caminhar de chap\u00e9u de palha, tomando sol na moleira. Foi assim, num dia de dezembro de 2010, que o ent\u00e3o governador de Minas Gerais, Antonio Anastasia, desceu o Rio S\u00e3o Francisco em uma embarca\u00e7\u00e3o abarrotada de autoridades, assessores, prefeitos e sonhadores \u2014 todos com o mesmo prop\u00f3sito nobre: garantir a cria\u00e7\u00e3o do Dia dos Gerais. O cen\u00e1rio era digno de um realismo m\u00e1gico sertanejo. O sol, em f\u00faria, fazia o merc\u00fario beirar 40 graus. Os ternos, que outrora simbolizavam poder, tornaram-se armaduras de tortura. O governador, homem de fala calma e modos brit\u00e2nicos, enxugava o suor da testa enquanto disfar\u00e7ava admirar a paisagem. Ao seu redor, o coro un\u00edssono dos mosquitos lembrava que, nas Gerais, at\u00e9 os insetos participam das grandes causas. Os prefeitos, suando e abanando-se com os papeis de seus programas de governo, lamentavam o calor e a sorte. \u201cSe o ouro das Minas tivesse brotado aqui, talvez houvesse um toldo\u201d, resmungou um deles. E outro, mais otimista, o prefeito de Patis, Valmir Morais, respondeu: \u201cMas se o ouro tivesse brotado aqui, n\u00e3o haveria esse rio, nem esse povo teimoso que faz da aridez prosa.\u201d Ah, Minas querida! Com tempero de anedota, contam que um certo deputado federal \u2014 de nome Jairo \u2014 teve participa\u00e7\u00e3o destacada, ainda que involunt\u00e1ria, naquele calor hist\u00f3rico. Sua careca, rubra como brasa de fog\u00e3o a lenha, refletia o sol em todas as dire\u00e7\u00f5es, aumentando o j\u00e1 abrasador clima da embarca\u00e7\u00e3o. Suando como se quisesse irrigar o S\u00e3o Francisco com esfor\u00e7o pr\u00f3prio, Jairo insistia em manter o ar tranquilo de quem nascera acostumado com o rio \u2014 embora, a cada balan\u00e7o do barco, seu semblante tra\u00edsse uma leve esperan\u00e7a de que o trajeto fosse curto. Entre o brilho reluzente de sua cabe\u00e7a, o zumbido dos mosquitos e o vaiv\u00e9m pregui\u00e7oso das \u00e1guas, todos ali compreenderam que a epopeia dos Gerais se fazia n\u00e3o s\u00f3 de bravura e hist\u00f3ria, mas tamb\u00e9m de suor, humanidade e um bom tanto de humor mineiro. E assim seguiram, entre bufadas e picadas, como bandeirantes tardios, em busca n\u00e3o de metais preciosos, mas de um s\u00edmbolo \u2014 a consagra\u00e7\u00e3o dos Gerais, essa parte esquecida do corpo mineiro que pulsa como cora\u00e7\u00e3o interiorano e sustenta, desde o s\u00e9culo XVII, atrav\u00e9s do com\u00e9rcio com Salvador e a partir de 1702 o com\u00e9rcio com a regi\u00e3o mineradora, o alimento, a cultura e a alma das Minas e dos Gerais. Cheiros e sabores O velho Chico corria espelhando o c\u00e9u azul e as risadas do grupo que se aventurava em sua travessia. A embarca\u00e7\u00e3o, mais afeita \u00e0 pressa, rangia contente, levando consigo a conversa solta, o vento quente no rosto e o cheiro promissor do outro lado. Diziam que no s\u00edtio, onde o almo\u00e7o seria servido, os p\u00e9s de manga j\u00e1 tinham visto mais ver\u00f5es do que qualquer um ali \u2014 testemunhas silenciosas de festejos, amores e prosas antigas. \u00c0 sombra deles, um leit\u00e3o \u00e0 pururuca reluzia feito ouro de Minas, cercado por doses de cacha\u00e7a tilintando em brinde \u00e0 vida simples e boa. E, como se n\u00e3o bastasse, o doce de leite e a ambrosia esperavam o final da saga \u2014 promessas a\u00e7ucaradas de que toda travessia, com boa companhia e boa mesa, vale sempre a pena. Desde 2005, o Norte de Minas vinha se movendo em torno desse sonho: resgatar o valor simb\u00f3lico de sua hist\u00f3ria, t\u00e3o antiga quanto o som dos aboios que ecoam nas veredas. 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Foram seus vaqueiros e lavradores que, sem pretens\u00e3o de gl\u00f3ria, sustentaram a epopeia aur\u00edfera que fundaria Minas Gerais. Mas, com o tempo, o ouro eclipsou o couro; e o brilho dos Gerais, nascidos do gado e da terra, foi ofuscado pelo reluzir das Minas. Como escreveu Jo\u00e3o Camilo de Oliveira Torres, o mineiro nasceu dessa dupla natureza \u2014 a mineradora e a geralista \u2014 e negar uma delas \u00e9 mutilar a pr\u00f3pria alma de Minas. Nosso dia, nosso orgulho Por isso, instituir o Dia dos Gerais n\u00e3o era mero capricho simb\u00f3lico: era um ato de justi\u00e7a hist\u00f3rica. Desde 2008, o dia 8 de dezembro \u2014 data da instala\u00e7\u00e3o da Freguesia de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o de Morrinhos em Matias Cardoso \u2014 foi escolhido para celebrar essa mem\u00f3ria. Uma data luminosa que, teimosamente, resistia a ser esquecida. O Movimento Catrumano espalhou-se como fogo na vereda: universidades, artistas, prefeitos e sertanejos transformaram o orgulho norte-mineiro em bandeira. Vieram a Expedi\u00e7\u00e3o Caminhos dos Gerais, a Revista Verde Grande, o Mesonorte e at\u00e9 uma pe\u00e7a teatral, \u201cExerc\u00edcio n\u00ba 1: Os Catrumanos\u201d, em que estudantes da Unimontes mostravam no palco o elo vivo entre as Minas e os Gerais. E assim, naquele dia ins\u00f3lito, sob sol de chumbo, o governador Anastasia, tostado, risonho e talvez arrependido de n\u00e3o ter trazido um chap\u00e9u mais largo e de palha, ouviu um pescador dizer: \u201cGovernador, o senhor est\u00e1 descendo o mesmo rio em que subiram os sonhos desse povo. 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