{"id":1912,"date":"2025-10-24T08:44:34","date_gmt":"2025-10-24T11:44:34","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=1912"},"modified":"2025-10-24T08:44:34","modified_gmt":"2025-10-24T11:44:34","slug":"por-aqui-ninguem-cai-sozinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=1912","title":{"rendered":"Por aqui, ningu\u00e9m cai sozinho"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1913\" aria-describedby=\"caption-attachment-1913\" style=\"width: 645px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1913\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/falling-151850_1280-1024x836-1-300x245.png\" alt=\"\" width=\"645\" height=\"527\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/falling-151850_1280-1024x836-1-300x245.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/falling-151850_1280-1024x836-1-768x627.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/falling-151850_1280-1024x836-1.png 1024w\" sizes=\"(max-width: 645px) 100vw, 645px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1913\" class=\"wp-caption-text\">Imagem &#8211; Pixabay<\/figcaption><\/figure>\n<p>N\u00e3o me lembro da minha primeira queda. Talvez tenha sido no quintal da minha av\u00f3, tentando alcan\u00e7ar uma jabuticaba teimosa. Mas de uma coisa eu tenho certeza: ca\u00ed com dignidade e me levantei como uma lady. Provavelmente pagando mico. Quanto a admitir? Jamais.<\/p>\n<p>Se as primeiras quedas se perderam na mem\u00f3ria, as \u00faltimas est\u00e3o vivas demais para serem esquecidas. Em uma delas, quebrei o pulso. Desci uma ladeira na velocidade da luz e, num raro lampejo de lucidez, protegi o rosto com o bra\u00e7o antes de ir de encontro ao muro. Resultado: dias de interna\u00e7\u00e3o e uma placa de platina como lembran\u00e7a. Essa hist\u00f3ria tem v\u00e1rias camadas, mas \u00e9 melhor deixar pra l\u00e1. Uma hora eu conto.<\/p>\n<p>Teve tamb\u00e9m a queda de helic\u00f3ptero. Sobrevivi sem um arranh\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 eu. Todos os outros passageiros e o tripulante tamb\u00e9m. Hist\u00f3ria que d\u00e1 pano pra manga. Conto em outro momento. Nesse caso \u00e9 preciso organizar as mem\u00f3rias.<\/p>\n<p>Mais recentemente, tropecei ao atravessar a rua. Rolei pelo asfalto como quem ensaia para um n\u00famero de circo. Me esfolei toda, mas o prato lindo que eu havia acabado de comprar sobreviveu quase intacto, salvo por uma lasquinha de nada. Prioridades, n\u00e9?<\/p>\n<p>Por falar em prioridades, esse tamb\u00e9m foi o caso da Denise. Em um dia de festa, ao descer a rampa que leva ao quintal, desequilibrou-se e n\u00e3o deu outra: estatelou-se no cimento grosso. Mas e a ta\u00e7a de vinho que ela, orgulhosamente, ostentava em uma das m\u00e3os? Salvou-se. Detalhe importante: sem derramar uma gota sequer da bebida. \u00c9 daquelas lembran\u00e7as que viram piada interna e nunca perdem a gra\u00e7a.<\/p>\n<p>E se \u00e9 pra rir da \u201ctrag\u00e9dia\u201d alheia, que seja em fam\u00edlia. Jacqueline ainda hoje \u00e9 alvo de gargalhadas sempre que algu\u00e9m lembra daquela manh\u00e3 de Natal chuvosa, em que ela travou a coluna e ficou estatelada no piso da sala de visitas, im\u00f3vel como uma escultura. Como ningu\u00e9m conseguia mov\u00ea-la, foi levada ao hospital enrolada no tapete enlameado, que, por sorte, algu\u00e9m havia esquecido de guardar. O detalhe mais surreal? Ela era grande demais para a ambul\u00e2ncia. Por isso, viajou com os p\u00e9s para fora, como quem desafia a l\u00f3gica e a eleg\u00e2ncia em pleno socorro.<\/p>\n<p>Gyslaine tamb\u00e9m n\u00e3o fica de fora dessa lista. Foi lavar as escadas, escorregou e rolou pelos degraus. Ao fazer o balan\u00e7o do estrago, n\u00e3o se preocupou com ossos quebrados, S\u00f3 queria saber sobre os dentes novos e caros. Ser\u00e1 que quebrei meus dentes, repetia a quem perguntava se estava bem.<\/p>\n<p>Agora, se for para fazer um ranking das quedas da fam\u00edlia, Gilda \u00e9 a campe\u00e3. Talvez seja hors concours do tanto que cai. Lembro de uma vez, quando fomos \u00e0s compras em Divin\u00f3polis, Gilda, sabe-se l\u00e1 por qu\u00ea, caiu com o rosto de encontro ao ch\u00e3o. Sobrou muito choro, horas no dentista e uma hist\u00f3ria pra contar.Mais recentemente, na festa de anivers\u00e1rio de uma amiga, pisou em falso e l\u00e1 se foi o tornozelo. Muita dor, muitos exames e recupera\u00e7\u00e3o lenta. Uma semana antes, j\u00e1 havia ca\u00eddo em uma das alamedas da Cidade Administrativa. Dessa vez, a areia que sobrou de uma obra foi a causadora da quase trag\u00e9dia. Balan\u00e7o dos dois eventos: Gilda ainda reclama de dores e de incha\u00e7o, mas j\u00e1 voltou a caminhar sem mancar. Altiva como de costume.<\/p>\n<p>Voc\u00ea deve estar a\u00ed matutando que, nessa nossa fam\u00edlia grande e barulhenta, as quedas est\u00e3o restritas ao universo feminino. Que os homens n\u00e3o caem jamais. Ledo engano. H\u00e1 v\u00e1rios casos. Beto ainda est\u00e1 de molho. No \u00faltimo fim de semana, ao campear um bezerro fuj\u00e3o, enfiou o p\u00e9 num buraco de tatu. N\u00e3o deu outra: tornozelo torcido, muita dor, gelo para diminuir o incha\u00e7o e falta de tempo para se recuperar.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que a gente vive caindo. As quedas j\u00e1 viraram quase tradi\u00e7\u00e3o. Trope\u00e7os f\u00edsicos, emocionais, silenciosos. Cada um com seu tombo, cada um com seu jeito de levantar. Cair e levantar \u00e9 quase um ritual, um pacto n\u00e3o dito. Entre o degrau e o ch\u00e3o, cai tamb\u00e9m um pouco da certeza de invencibilidade que carregamos desde os tempos de meninice.<br \/>\nH\u00e1 quem j\u00e1 tenha ca\u00eddo no banheiro. A lembran\u00e7a de que o tempo escorrega tamb\u00e9m \u2014 e que a casa precisa se adaptar ao corpo que muda \u2014 est\u00e1 nos guarda-corpos espalhados por todo lado.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem caia por dentro. Eu, por exemplo, j\u00e1 tropecei em palavras mal ditas, escorreguei em sil\u00eancios longos demais. Essas quedas n\u00e3o deixam hematomas, mas deixam marcas. E \u00e0s vezes, \u00e9 preciso que algu\u00e9m nos levante com um gesto, um caf\u00e9 ou apenas com um \u201ct\u00f4 aqui\u201d.<\/p>\n<p>O lado bom? Sempre tem. Na minha fam\u00edlia, ningu\u00e9m cai sozinho. H\u00e1 sempre uma m\u00e3o estendida, um riso nervoso, um cuidado improvisado. Tem sempre algu\u00e9m que corre, mesmo que seja s\u00f3 com o cora\u00e7\u00e3o. Porque cair, na verdade, \u00e9 s\u00f3 mais uma forma de lembrar que somos humanos \u2014 e que o ch\u00e3o, por mais duro que seja, pode ser tamb\u00e9m ponto de partida. E quando algu\u00e9m cai, sempre tem quem estenda a m\u00e3o, segure o riso, prepare o ch\u00e1 e diga: \u201cFoi s\u00f3 um susto. Amanh\u00e3 voc\u00ea j\u00e1 vai estar de p\u00e9.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_1109\" aria-describedby=\"caption-attachment-1109\" style=\"width: 616px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-1109\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-300x171.png\" alt=\"\" width=\"616\" height=\"351\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-300x171.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-1024x585.png 1024w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-768x439.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1.png 1050w\" sizes=\"(max-width: 616px) 100vw, 616px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1109\" class=\"wp-caption-text\">Gisele Bicalho \u00e9 jornalista e escritora.<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o me lembro da minha primeira queda. Talvez tenha sido no quintal da minha av\u00f3, tentando alcan\u00e7ar uma jabuticaba teimosa. Mas de uma coisa eu tenho certeza: ca\u00ed com dignidade e me levantei como uma lady. Provavelmente pagando mico. Quanto a admitir? Jamais. Se as primeiras quedas se perderam na mem\u00f3ria, as \u00faltimas est\u00e3o vivas demais para serem esquecidas. Em uma delas, quebrei o pulso. Desci uma ladeira na velocidade da luz e, num raro lampejo de lucidez, protegi o rosto com o bra\u00e7o antes de ir de encontro ao muro. Resultado: dias de interna\u00e7\u00e3o e uma placa de platina como lembran\u00e7a. Essa hist\u00f3ria tem v\u00e1rias camadas, mas \u00e9 melhor deixar pra l\u00e1. Uma hora eu conto. Teve tamb\u00e9m a queda de helic\u00f3ptero. Sobrevivi sem um arranh\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 eu. Todos os outros passageiros e o tripulante tamb\u00e9m. Hist\u00f3ria que d\u00e1 pano pra manga. Conto em outro momento. Nesse caso \u00e9 preciso organizar as mem\u00f3rias. Mais recentemente, tropecei ao atravessar a rua. Rolei pelo asfalto como quem ensaia para um n\u00famero de circo. Me esfolei toda, mas o prato lindo que eu havia acabado de comprar sobreviveu quase intacto, salvo por uma lasquinha de nada. Prioridades, n\u00e9? Por falar em prioridades, esse tamb\u00e9m foi o caso da Denise. Em um dia de festa, ao descer a rampa que leva ao quintal, desequilibrou-se e n\u00e3o deu outra: estatelou-se no cimento grosso. Mas e a ta\u00e7a de vinho que ela, orgulhosamente, ostentava em uma das m\u00e3os? Salvou-se. Detalhe importante: sem derramar uma gota sequer da bebida. \u00c9 daquelas lembran\u00e7as que viram piada interna e nunca perdem a gra\u00e7a. E se \u00e9 pra rir da \u201ctrag\u00e9dia\u201d alheia, que seja em fam\u00edlia. Jacqueline ainda hoje \u00e9 alvo de gargalhadas sempre que algu\u00e9m lembra daquela manh\u00e3 de Natal chuvosa, em que ela travou a coluna e ficou estatelada no piso da sala de visitas, im\u00f3vel como uma escultura. Como ningu\u00e9m conseguia mov\u00ea-la, foi levada ao hospital enrolada no tapete enlameado, que, por sorte, algu\u00e9m havia esquecido de guardar. O detalhe mais surreal? Ela era grande demais para a ambul\u00e2ncia. Por isso, viajou com os p\u00e9s para fora, como quem desafia a l\u00f3gica e a eleg\u00e2ncia em pleno socorro. Gyslaine tamb\u00e9m n\u00e3o fica de fora dessa lista. Foi lavar as escadas, escorregou e rolou pelos degraus. Ao fazer o balan\u00e7o do estrago, n\u00e3o se preocupou com ossos quebrados, S\u00f3 queria saber sobre os dentes novos e caros. Ser\u00e1 que quebrei meus dentes, repetia a quem perguntava se estava bem. Agora, se for para fazer um ranking das quedas da fam\u00edlia, Gilda \u00e9 a campe\u00e3. Talvez seja hors concours do tanto que cai. Lembro de uma vez, quando fomos \u00e0s compras em Divin\u00f3polis, Gilda, sabe-se l\u00e1 por qu\u00ea, caiu com o rosto de encontro ao ch\u00e3o. Sobrou muito choro, horas no dentista e uma hist\u00f3ria pra contar.Mais recentemente, na festa de anivers\u00e1rio de uma amiga, pisou em falso e l\u00e1 se foi o tornozelo. Muita dor, muitos exames e recupera\u00e7\u00e3o lenta. Uma semana antes, j\u00e1 havia ca\u00eddo em uma das alamedas da Cidade Administrativa. Dessa vez, a areia que sobrou de uma obra foi a causadora da quase trag\u00e9dia. Balan\u00e7o dos dois eventos: Gilda ainda reclama de dores e de incha\u00e7o, mas j\u00e1 voltou a caminhar sem mancar. Altiva como de costume. Voc\u00ea deve estar a\u00ed matutando que, nessa nossa fam\u00edlia grande e barulhenta, as quedas est\u00e3o restritas ao universo feminino. Que os homens n\u00e3o caem jamais. Ledo engano. H\u00e1 v\u00e1rios casos. Beto ainda est\u00e1 de molho. No \u00faltimo fim de semana, ao campear um bezerro fuj\u00e3o, enfiou o p\u00e9 num buraco de tatu. N\u00e3o deu outra: tornozelo torcido, muita dor, gelo para diminuir o incha\u00e7o e falta de tempo para se recuperar. A verdade \u00e9 que a gente vive caindo. As quedas j\u00e1 viraram quase tradi\u00e7\u00e3o. Trope\u00e7os f\u00edsicos, emocionais, silenciosos. Cada um com seu tombo, cada um com seu jeito de levantar. Cair e levantar \u00e9 quase um ritual, um pacto n\u00e3o dito. Entre o degrau e o ch\u00e3o, cai tamb\u00e9m um pouco da certeza de invencibilidade que carregamos desde os tempos de meninice. H\u00e1 quem j\u00e1 tenha ca\u00eddo no banheiro. A lembran\u00e7a de que o tempo escorrega tamb\u00e9m \u2014 e que a casa precisa se adaptar ao corpo que muda \u2014 est\u00e1 nos guarda-corpos espalhados por todo lado. H\u00e1 quem caia por dentro. Eu, por exemplo, j\u00e1 tropecei em palavras mal ditas, escorreguei em sil\u00eancios longos demais. Essas quedas n\u00e3o deixam hematomas, mas deixam marcas. E \u00e0s vezes, \u00e9 preciso que algu\u00e9m nos levante com um gesto, um caf\u00e9 ou apenas com um \u201ct\u00f4 aqui\u201d. O lado bom? Sempre tem. Na minha fam\u00edlia, ningu\u00e9m cai sozinho. H\u00e1 sempre uma m\u00e3o estendida, um riso nervoso, um cuidado improvisado. Tem sempre algu\u00e9m que corre, mesmo que seja s\u00f3 com o cora\u00e7\u00e3o. Porque cair, na verdade, \u00e9 s\u00f3 mais uma forma de lembrar que somos humanos \u2014 e que o ch\u00e3o, por mais duro que seja, pode ser tamb\u00e9m ponto de partida. E quando algu\u00e9m cai, sempre tem quem estenda a m\u00e3o, segure o riso, prepare o ch\u00e1 e diga: \u201cFoi s\u00f3 um susto. 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