{"id":1879,"date":"2025-10-19T10:54:16","date_gmt":"2025-10-19T13:54:16","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=1879"},"modified":"2025-10-19T10:55:24","modified_gmt":"2025-10-19T13:55:24","slug":"um-brinde-a-memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=1879","title":{"rendered":"Um brinde \u00e0 mem\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1881\" aria-describedby=\"caption-attachment-1881\" style=\"width: 755px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1881\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Vovo-Nenem-219x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"755\" height=\"1034\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Vovo-Nenem-219x300.jpeg 219w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Vovo-Nenem-747x1024.jpeg 747w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Vovo-Nenem-768x1052.jpeg 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Vovo-Nenem.jpeg 864w\" sizes=\"(max-width: 755px) 100vw, 755px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1881\" class=\"wp-caption-text\">Vov\u00f4 Nen\u00ea n\u00e3o deixava faltar Coca-Cola nos almo\u00e7os familiares de domingo, para alegria da crian\u00e7ada -Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>Eu amo PonChic. Ah, voc\u00ea n\u00e3o conhece? Ent\u00e3o, n\u00e3o sabe o que est\u00e1 perdendo. PonChic \u00e9 um refrigerante produzido em Divin\u00f3polis. A base \u00e9 abacaxi e o sabor lembra os melhores momentos da inf\u00e2ncia. O primeiro copo tem gotinhas que fazem c\u00f3cegas no nariz. E quando o refri desce pela garganta refresca at\u00e9 a alma. Quem \u00e9 do Centro-Oeste de Minas conhece bem essa sensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se o PonChic, infelizmente e para seu azar, ainda n\u00e3o \u00e9 prefer\u00eancia nacional, desafio a levantar o dedo quem nunca tomou Coca-Cola. Eu duvido. Em toda fam\u00edlia h\u00e1 algu\u00e9m \u201cviciado\u201d nesse refrigerante. H\u00e1 d\u00e9cadas, a receita \u00e9 guardada a sete chaves. Vale milh\u00f5es de d\u00f3lares. Mas, c\u00e1 entre n\u00f3s, penso que todo esse mist\u00e9rio \u00e9 mercadol\u00f3gico, tem a ver com marketing, com estrat\u00e9gia de vendas.<\/p>\n<p>Ah, deixa pra l\u00e1. Isso n\u00e3o nos interessa. Aqui, nesse nosso mundinho, o que importa mesmo \u00e9, quando n\u00e3o temos um PonChic \u00e0 m\u00e3o, vale tomar uma Coca geladinha se o calor pede algo refrescante. O pshhht! da garrafa sendo aberta, o g\u00e1s escapando como se anunciasse: \u201cPreparem-se para a alegria.\u201d Tomar uma Coca quando o momento pede \u00e9 pura celebra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Lembrando que sempre h\u00e1 um estraga-prazeres para alertar sobre o excesso de a\u00e7\u00facar, sobre o mal que vem embalado em ado\u00e7antes. E agora, como se fosse roteiro de s\u00e9rie dist\u00f3pica, sobre uma \u201cposs\u00edvel\u201d contamina\u00e7\u00e3o por metanol. O gole virou risco. O afeto, suspeita. Neste cen\u00e1rio, os nossos almo\u00e7os domingueiros viraram palco de discuss\u00f5es acaloradas, por\u00e9m pac\u00edficas (gra\u00e7as a Deus), dividindo opini\u00f5es sobre se o refrigerante engorda, se aumenta o colesterol, se essa bebida tamb\u00e9m est\u00e1 contaminada.<\/p>\n<p>Indiferente aos riscos, se \u00e9 que eles existem, na nossa fam\u00edlia grande e barulhenta, a Coca-Cola \u00e9 de lei nos almo\u00e7os domingueiros. E n\u00e3o \u00e9 de hoje. O quintal dos nossos av\u00f3s j\u00e1 foi palco desse ritual sagrado. A mesa de madeira, marcada pelo tempo e pelas panelas quentes, se enchia de travessas fumegantes: lombo de panela, arroz de forno com camar\u00e3o seco, tutu e lasanha. Teve at\u00e9 aquela vez que uma manga sapatinha caiu bem no prato do Vov\u00f4. Se voc\u00ea conhece essa esp\u00e9cie de manga, sabe o tamanho dela e o estrago que essa queda acidental provocou. Hist\u00f3ria que arranca risadas at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Nesses almo\u00e7os as cadeiras eram poucas para tanta gente. Os mais novos se sentavam nas ra\u00edzes das mangueiras centen\u00e1rias, no ch\u00e3o, ou onde coubesse um prato equilibrado. Para n\u00f3s, o melhor momento era quando Vov\u00f4 Nen\u00ea chegava com as garrafas de Coca-Cola. E o que seria apenas um almo\u00e7o virava festa.<\/p>\n<p>Havia tamb\u00e9m os passeios com ele, verdadeiras celebra\u00e7\u00f5es em movimento. A festa come\u00e7ava no instante em que o vov\u00f4 anunciava: \u201cHora de ir a Pitangui!\u201d J\u00e1 sab\u00edamos o destino: o bar ao lado da Matriz de Nossa Senhora do Pilar. O Jeep se transformava num carnaval sobre rodas. E o motivo era simples e irresist\u00edvel: saborear uma vaca preta, aquela mistura m\u00e1gica de Coca-Cola com sorvete de creme. A ta\u00e7a, imensa, chegava espumando. A primeira colherada era puro encantamento. O l\u00edquido escuro dan\u00e7ava lentamente com o sorvete, criando uma coreografia doce e cremosa. A gente tomava aquilo como quem bebe a pr\u00f3pria inf\u00e2ncia, em estado l\u00edquido.<\/p>\n<p>E eu, que ainda abro a latinha com certa rever\u00eancia, me pego lembrando do bar em Pitangui, do sorvete derretendo devagar e das risadas f\u00e1ceis. E me pergunto: ser\u00e1 que o gosto da inf\u00e2ncia sobrevive ao gosto amargo da realidade? Talvez o \u201cv\u00edcio\u201d em Coca-Cola seja heredit\u00e1rio. Mas a saudade tamb\u00e9m \u00e9. E entre o afeto e o alerta, sigo brindando \u00e0 mem\u00f3ria.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1109\" aria-describedby=\"caption-attachment-1109\" style=\"width: 588px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-1109\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-300x171.png\" alt=\"\" width=\"588\" height=\"335\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-300x171.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-1024x585.png 1024w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-768x439.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1.png 1050w\" sizes=\"(max-width: 588px) 100vw, 588px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1109\" class=\"wp-caption-text\">Gisele Bicalho \u00e9 jornalista e escritora.<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu amo PonChic. Ah, voc\u00ea n\u00e3o conhece? Ent\u00e3o, n\u00e3o sabe o que est\u00e1 perdendo. PonChic \u00e9 um refrigerante produzido em Divin\u00f3polis. A base \u00e9 abacaxi e o sabor lembra os melhores momentos da inf\u00e2ncia. O primeiro copo tem gotinhas que fazem c\u00f3cegas no nariz. E quando o refri desce pela garganta refresca at\u00e9 a alma. Quem \u00e9 do Centro-Oeste de Minas conhece bem essa sensa\u00e7\u00e3o. Se o PonChic, infelizmente e para seu azar, ainda n\u00e3o \u00e9 prefer\u00eancia nacional, desafio a levantar o dedo quem nunca tomou Coca-Cola. Eu duvido. Em toda fam\u00edlia h\u00e1 algu\u00e9m \u201cviciado\u201d nesse refrigerante. H\u00e1 d\u00e9cadas, a receita \u00e9 guardada a sete chaves. Vale milh\u00f5es de d\u00f3lares. Mas, c\u00e1 entre n\u00f3s, penso que todo esse mist\u00e9rio \u00e9 mercadol\u00f3gico, tem a ver com marketing, com estrat\u00e9gia de vendas. Ah, deixa pra l\u00e1. Isso n\u00e3o nos interessa. Aqui, nesse nosso mundinho, o que importa mesmo \u00e9, quando n\u00e3o temos um PonChic \u00e0 m\u00e3o, vale tomar uma Coca geladinha se o calor pede algo refrescante. O pshhht! da garrafa sendo aberta, o g\u00e1s escapando como se anunciasse: \u201cPreparem-se para a alegria.\u201d Tomar uma Coca quando o momento pede \u00e9 pura celebra\u00e7\u00e3o. Lembrando que sempre h\u00e1 um estraga-prazeres para alertar sobre o excesso de a\u00e7\u00facar, sobre o mal que vem embalado em ado\u00e7antes. E agora, como se fosse roteiro de s\u00e9rie dist\u00f3pica, sobre uma \u201cposs\u00edvel\u201d contamina\u00e7\u00e3o por metanol. O gole virou risco. O afeto, suspeita. Neste cen\u00e1rio, os nossos almo\u00e7os domingueiros viraram palco de discuss\u00f5es acaloradas, por\u00e9m pac\u00edficas (gra\u00e7as a Deus), dividindo opini\u00f5es sobre se o refrigerante engorda, se aumenta o colesterol, se essa bebida tamb\u00e9m est\u00e1 contaminada. Indiferente aos riscos, se \u00e9 que eles existem, na nossa fam\u00edlia grande e barulhenta, a Coca-Cola \u00e9 de lei nos almo\u00e7os domingueiros. E n\u00e3o \u00e9 de hoje. O quintal dos nossos av\u00f3s j\u00e1 foi palco desse ritual sagrado. A mesa de madeira, marcada pelo tempo e pelas panelas quentes, se enchia de travessas fumegantes: lombo de panela, arroz de forno com camar\u00e3o seco, tutu e lasanha. Teve at\u00e9 aquela vez que uma manga sapatinha caiu bem no prato do Vov\u00f4. Se voc\u00ea conhece essa esp\u00e9cie de manga, sabe o tamanho dela e o estrago que essa queda acidental provocou. Hist\u00f3ria que arranca risadas at\u00e9 hoje. Nesses almo\u00e7os as cadeiras eram poucas para tanta gente. Os mais novos se sentavam nas ra\u00edzes das mangueiras centen\u00e1rias, no ch\u00e3o, ou onde coubesse um prato equilibrado. Para n\u00f3s, o melhor momento era quando Vov\u00f4 Nen\u00ea chegava com as garrafas de Coca-Cola. E o que seria apenas um almo\u00e7o virava festa. Havia tamb\u00e9m os passeios com ele, verdadeiras celebra\u00e7\u00f5es em movimento. A festa come\u00e7ava no instante em que o vov\u00f4 anunciava: \u201cHora de ir a Pitangui!\u201d J\u00e1 sab\u00edamos o destino: o bar ao lado da Matriz de Nossa Senhora do Pilar. O Jeep se transformava num carnaval sobre rodas. E o motivo era simples e irresist\u00edvel: saborear uma vaca preta, aquela mistura m\u00e1gica de Coca-Cola com sorvete de creme. A ta\u00e7a, imensa, chegava espumando. A primeira colherada era puro encantamento. O l\u00edquido escuro dan\u00e7ava lentamente com o sorvete, criando uma coreografia doce e cremosa. A gente tomava aquilo como quem bebe a pr\u00f3pria inf\u00e2ncia, em estado l\u00edquido. E eu, que ainda abro a latinha com certa rever\u00eancia, me pego lembrando do bar em Pitangui, do sorvete derretendo devagar e das risadas f\u00e1ceis. E me pergunto: ser\u00e1 que o gosto da inf\u00e2ncia sobrevive ao gosto amargo da realidade? Talvez o \u201cv\u00edcio\u201d em Coca-Cola seja heredit\u00e1rio. Mas a saudade tamb\u00e9m \u00e9. 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