{"id":1819,"date":"2025-10-04T13:28:30","date_gmt":"2025-10-04T16:28:30","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=1819"},"modified":"2025-10-04T13:28:30","modified_gmt":"2025-10-04T16:28:30","slug":"o-grito-que-mora-no-peito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=1819","title":{"rendered":"O grito que mora no peito"},"content":{"rendered":"<h1><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1820 alignnone\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ChatGPT-Image-3-de-out.-de-2025-00_05_05-300x200.png\" alt=\"\" width=\"776\" height=\"517\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ChatGPT-Image-3-de-out.-de-2025-00_05_05-300x200.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ChatGPT-Image-3-de-out.-de-2025-00_05_05-1024x683.png 1024w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ChatGPT-Image-3-de-out.-de-2025-00_05_05-768x512.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ChatGPT-Image-3-de-out.-de-2025-00_05_05-150x100.png 150w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ChatGPT-Image-3-de-out.-de-2025-00_05_05-330x220.png 330w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ChatGPT-Image-3-de-out.-de-2025-00_05_05-420x280.png 420w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ChatGPT-Image-3-de-out.-de-2025-00_05_05-510x340.png 510w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ChatGPT-Image-3-de-out.-de-2025-00_05_05.png 1536w\" sizes=\"(max-width: 776px) 100vw, 776px\" \/><\/h1>\n<h1>O grito que mora no peito<\/h1>\n<h4><strong>Gisele Bicalho<\/strong><\/h4>\n<p>A minha \u00faltima cr\u00f4nica \u2013 \u201cCora\u00e7\u00e3o em campo\u201d \u2013 acreditem ou n\u00e3o, mexeu com algumas pessoas. Tenho recebido v\u00e1rios coment\u00e1rios (ops!). T\u00e1 bom, confesso: uns cinco ou seis abnegados. Brincadeiras \u00e0 parte, h\u00e1 algo no futebol que escapa \u00e0 l\u00f3gica.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 sobre bola na rede, tabela perfeita ou posse de bola. \u00c9 sobre aquele grito que mora no peito e sai sem pedir licen\u00e7a quando o juiz apita. Sobre o pai que ensinou o filho a torcer, o sobrinho que chora no banheiro ap\u00f3s a derrota do seu time do cora\u00e7\u00e3o, o amigo que desaparece depois do cl\u00e1ssico perdido. H\u00e1 at\u00e9 quem se deprima e leve tempo para se recompor. Tenho uma amiga querida que \u00e9 bem assim. Quem \u00e9? S\u00f3 vou dar uma dica: ela \u00e9 bem famosinha e cruzeirense raiz.<\/p>\n<p>O futebol \u00e9 mem\u00f3ria viva, \u00e9 identidade bordada na camisa, \u00e9 catarse coletiva em noventa minutos. Em Belo Horizonte, a cidade muda de humor conforme o calend\u00e1rio: se tem Galo e Cruzeiro, os bares ficam cheios, as ruas se dividem, os cora\u00e7\u00f5es aceleram. O atleticano carrega no peito a f\u00e9 de quem j\u00e1 sofreu e venceu. O cruzeirense, o orgulho de quem viu e v\u00ea craques desfilarem em azul. E mesmo quando a bola n\u00e3o rola, ela continua girando dentro da gente, nas m\u00fasicas de arquibancada, nas g\u00edrias de mineiro, nas hist\u00f3rias que atravessam gera\u00e7\u00f5es. Por aqui torcer \u00e9 mais que assistir. \u00c9 viver. S\u00f3 n\u00e3o vale soltar foguete. H\u00e1 lei que inibe a pr\u00e1tica. Autistas sofrem com o barulho, idosos e beb\u00eas ficam incomodados e os pets sofrem demais.<\/p>\n<p>Voltando ao meu seleto grupo de cinco ou seis seguidores, uma querida compartilhou que, na inf\u00e2ncia, morava na rua Levindo Lopes, em Beag\u00e1. Uma amiga dela tinha outra amiga cujo irm\u00e3o era ningu\u00e9m menos que o Ronaldo do Atl\u00e9tico, primo do Tost\u00e3o. Um dia acompanhou a amiga at\u00e9 a casa dele e nunca mais esqueceu: na sala havia uma estante repleta de trof\u00e9us do Tost\u00e3o, um verdadeiro altar ao futebol. Ah, e s\u00f3 pra constar: ela \u00e9 atleticana. A \u00fanica da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma fiel seguidora que me acompanha l\u00e1 do Rio de Janeiro. Depois de ler a cr\u00f4nica, comentou com carinho: \u201cAdorei a foto dos seus pais colorida pela IA!\u201d E aproveitou pra compartilhar um pouco da sua hist\u00f3ria. Na fam\u00edlia dela, futebol nunca foi assunto, nem time os pais tinham. Mas um dia ela assistiu um filme sobre Garrincha e foi arrebatada. \u201cQue ballet, que ginga, que dribles!\u201d, comentou encantada. Fora ele, nada mais nesse esporte a encanta. Hoje ent\u00e3o, menos ainda: critica as mutretas, os conchavos e a viol\u00eancia em campo. S\u00f3 se anima quando sai gol. Regras? N\u00e3o tem nenhuma ideia. Eu n\u00e3o critico. Demorei para entender o tal do impedimento. Ainda hoje tenho dificuldade.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia tem um peso decisivo no meu n\u00famero de seguidores. Gilda, por exemplo, \u00e9 uma das mais fi\u00e9is. Quando o assunto \u00e9 futebol, ela sempre se lembra de um epis\u00f3dio marcante: sua primeira ida ao Mineir\u00e3o para assistir Atl\u00e9tico x Corinthians.<\/p>\n<p>Aquilo foi uma verdadeira cerim\u00f4nia de inicia\u00e7\u00e3o cuidadosamente orquestrada pelos amigos. A turma, majoritariamente dividida entre atleticanos e cruzeirenses, teve que se unir no lado corintiano s\u00f3 pra acompanhar a novata.<\/p>\n<p>Mas o batismo n\u00e3o foi tranquilo. No meio do jogo, Gilda levou um jato de algo que pensou ser cerveja. Sem hesitar, levantou e encarou aquele mar de torcedores, perguntando quem tinha jogado aquilo nela. Entramos em p\u00e2nico, implorando pra que ela se sentasse e ficasse quieta.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o veio com um gesto estrat\u00e9gico: trocar de lugar com Dona Maria, m\u00e3e da M\u00f4nica, que assumiu o assento da Gilda. E assim, a paz foi restaurada.<br \/>\nOutra seguidora \u00e9 irm\u00e3 do cora\u00e7\u00e3o. Com generosidade e carinho, disse que ler os meus escritos \u00e9 como receber afago na alma, uma poesia que alimenta o esp\u00edrito. Eu dou conta de tanto carinho? Dou conta, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Outra querida comentou que um dos antigos jogadores do Flamengo de Concei\u00e7\u00e3o do Par\u00e1, o Tonico do Raul, era um gal\u00e3. Meus tios tamb\u00e9m n\u00e3o eram de jogar fora. Faziam muito sucesso com as mo\u00e7as daquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>E assim sigo, colecionando hist\u00f3rias como quem guarda figurinhas raras, porque no fim das contas, o futebol \u00e9 isso: um pretexto para falar de amor, de mem\u00f3ria, de pertencimento. N\u00e3o importa quantos me leem ou me seguem. Um mais um \u00e9 sempre mais que dois, torcida suficiente pra fazer meu cora\u00e7\u00e3o entrar em campo.<img decoding=\"async\" class=\" wp-image-1110\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/2-300x171.png\" alt=\"\" width=\"647\" height=\"369\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/2-300x171.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/2-1024x585.png 1024w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/2-768x439.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/2.png 1050w\" sizes=\"(max-width: 647px) 100vw, 647px\" \/><\/p>\n<p>Gisele Bicalho \u00e9 jornalista e escritora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O grito que mora no peito Gisele Bicalho A minha \u00faltima cr\u00f4nica \u2013 \u201cCora\u00e7\u00e3o em campo\u201d \u2013 acreditem ou n\u00e3o, mexeu com algumas pessoas. 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Em Belo Horizonte, a cidade muda de humor conforme o calend\u00e1rio: se tem Galo e Cruzeiro, os bares ficam cheios, as ruas se dividem, os cora\u00e7\u00f5es aceleram. O atleticano carrega no peito a f\u00e9 de quem j\u00e1 sofreu e venceu. O cruzeirense, o orgulho de quem viu e v\u00ea craques desfilarem em azul. E mesmo quando a bola n\u00e3o rola, ela continua girando dentro da gente, nas m\u00fasicas de arquibancada, nas g\u00edrias de mineiro, nas hist\u00f3rias que atravessam gera\u00e7\u00f5es. Por aqui torcer \u00e9 mais que assistir. \u00c9 viver. S\u00f3 n\u00e3o vale soltar foguete. H\u00e1 lei que inibe a pr\u00e1tica. Autistas sofrem com o barulho, idosos e beb\u00eas ficam incomodados e os pets sofrem demais. Voltando ao meu seleto grupo de cinco ou seis seguidores, uma querida compartilhou que, na inf\u00e2ncia, morava na rua Levindo Lopes, em Beag\u00e1. Uma amiga dela tinha outra amiga cujo irm\u00e3o era ningu\u00e9m menos que o Ronaldo do Atl\u00e9tico, primo do Tost\u00e3o. Um dia acompanhou a amiga at\u00e9 a casa dele e nunca mais esqueceu: na sala havia uma estante repleta de trof\u00e9us do Tost\u00e3o, um verdadeiro altar ao futebol. Ah, e s\u00f3 pra constar: ela \u00e9 atleticana. A \u00fanica da fam\u00edlia. H\u00e1 uma fiel seguidora que me acompanha l\u00e1 do Rio de Janeiro. Depois de ler a cr\u00f4nica, comentou com carinho: \u201cAdorei a foto dos seus pais colorida pela IA!\u201d E aproveitou pra compartilhar um pouco da sua hist\u00f3ria. Na fam\u00edlia dela, futebol nunca foi assunto, nem time os pais tinham. Mas um dia ela assistiu um filme sobre Garrincha e foi arrebatada. \u201cQue ballet, que ginga, que dribles!\u201d, comentou encantada. Fora ele, nada mais nesse esporte a encanta. Hoje ent\u00e3o, menos ainda: critica as mutretas, os conchavos e a viol\u00eancia em campo. S\u00f3 se anima quando sai gol. Regras? N\u00e3o tem nenhuma ideia. Eu n\u00e3o critico. Demorei para entender o tal do impedimento. Ainda hoje tenho dificuldade. A fam\u00edlia tem um peso decisivo no meu n\u00famero de seguidores. Gilda, por exemplo, \u00e9 uma das mais fi\u00e9is. Quando o assunto \u00e9 futebol, ela sempre se lembra de um epis\u00f3dio marcante: sua primeira ida ao Mineir\u00e3o para assistir Atl\u00e9tico x Corinthians. Aquilo foi uma verdadeira cerim\u00f4nia de inicia\u00e7\u00e3o cuidadosamente orquestrada pelos amigos. A turma, majoritariamente dividida entre atleticanos e cruzeirenses, teve que se unir no lado corintiano s\u00f3 pra acompanhar a novata. Mas o batismo n\u00e3o foi tranquilo. No meio do jogo, Gilda levou um jato de algo que pensou ser cerveja. Sem hesitar, levantou e encarou aquele mar de torcedores, perguntando quem tinha jogado aquilo nela. Entramos em p\u00e2nico, implorando pra que ela se sentasse e ficasse quieta. A solu\u00e7\u00e3o veio com um gesto estrat\u00e9gico: trocar de lugar com Dona Maria, m\u00e3e da M\u00f4nica, que assumiu o assento da Gilda. E assim, a paz foi restaurada. Outra seguidora \u00e9 irm\u00e3 do cora\u00e7\u00e3o. Com generosidade e carinho, disse que ler os meus escritos \u00e9 como receber afago na alma, uma poesia que alimenta o esp\u00edrito. Eu dou conta de tanto carinho? Dou conta, n\u00e3o. Outra querida comentou que um dos antigos jogadores do Flamengo de Concei\u00e7\u00e3o do Par\u00e1, o Tonico do Raul, era um gal\u00e3. Meus tios tamb\u00e9m n\u00e3o eram de jogar fora. Faziam muito sucesso com as mo\u00e7as daquela \u00e9poca. E assim sigo, colecionando hist\u00f3rias como quem guarda figurinhas raras, porque no fim das contas, o futebol \u00e9 isso: um pretexto para falar de amor, de mem\u00f3ria, de pertencimento. N\u00e3o importa quantos me leem ou me seguem. 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