{"id":1689,"date":"2025-09-19T15:10:20","date_gmt":"2025-09-19T18:10:20","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=1689"},"modified":"2025-09-19T15:10:20","modified_gmt":"2025-09-19T18:10:20","slug":"charuto-de-repolho-ou-de-uva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=1689","title":{"rendered":"Charuto de repolho ou de uva?"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1690\" aria-describedby=\"caption-attachment-1690\" style=\"width: 699px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1690 \" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/arabe-1024x683-1-300x200.png\" alt=\"\" width=\"699\" height=\"466\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/arabe-1024x683-1-300x200.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/arabe-1024x683-1-768x512.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/arabe-1024x683-1-150x100.png 150w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/arabe-1024x683-1-330x220.png 330w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/arabe-1024x683-1-420x280.png 420w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/arabe-1024x683-1-510x340.png 510w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/arabe-1024x683-1.png 1024w\" sizes=\"(max-width: 699px) 100vw, 699px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1690\" class=\"wp-caption-text\">Charutos de repolho e de uva, acompanhados de quibe, piment\u00e3o recheado, homus e tabule: tradi\u00e7\u00e3o s\u00edrio-libanesa que ganhou sabor mineiro &#8211; Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>H\u00e1 uma pergunta recorrente nas nossas rodas de conversa, sempre surgindo entre uma garfada de quibe e uma colherada generosa de pasta de gr\u00e3o-de-bico. A resposta, invariavelmente, vem com um sorriso:<\/p>\n<p>&#8211; Uai, a sua fam\u00edlia tem descend\u00eancia s\u00edrio-libanesa?<\/p>\n<p>N\u00e3o temos, n\u00e3o. Mas temos hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O cunhado da minha bisav\u00f3, um descendente s\u00edrio-liban\u00eas, ensinou as receitas que, sem cerim\u00f4nia, se instalaram na nossa cozinha como se sempre tivessem estado ali. E essa sensa\u00e7\u00e3o de perman\u00eancia tem explica\u00e7\u00e3o: na cozinha da Vov\u00f3 Cocota, tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o vinha de sobrenome nem de ascend\u00eancia. Vinha de afeto.<\/p>\n<p>Era ali, entre panelas fumegantes e conversas a perder de vista, que o charuto ganhava forma. Outras vezes, era o quibe assado que sa\u00eda do forno com aquela casquinha crocante. E o frito? Era degustado ainda fumegante. Se, naquela iguaria, o parente usava carne de cordeiro, Vov\u00f3 optava pela carne bovina. Afinal, era o que tinha \u00e0 m\u00e3o. Piment\u00e3o recheado? Tinha tamb\u00e9m. E a pasta de gr\u00e3o-de-bico, batida com alho, lim\u00e3o e tahine, era servida numa tigela de vidro que colecionava mais hist\u00f3ria do que receitas.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m a\u00ed falou em reaproveitamento? Tinha tamb\u00e9m. A latinha de tahine virava farinheira e era presen\u00e7a constante na mesa da copa.<br \/>\nSe a Vov\u00f3 Cocota aprendeu com o tio torto, Mam\u00e3e aprendeu com ela. E n\u00f3s, incluindo Papai, herdamos dessa nossa querida o conhecimento e o amor por essas iguarias. Papai foi um \u00f3timo aluno. Fazia charutos como um leg\u00edtimo descendente que nunca foi. Piment\u00f5es recheados e quibes tamb\u00e9m. Ningu\u00e9m o superava no sabor.<\/p>\n<p>O Velho Osvaldo, a exemplo da Mam\u00e3e, n\u00e3o era novidadeiro. Tinha apego ao tradicional. Nada de mudar o tempero do quibe ou o formato dos charutos. E o piment\u00e3o? Ai de mim se sugerisse coloc\u00e1-lo no forno em vez de cozido em um molho espesso e saboroso, como manda a tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dos meus irm\u00e3os, o Beto, movido pela curiosidade, at\u00e9 convenceu Papai a experimentar a receita do charuto com folha de uva. Argumentou que era mais aut\u00eantico, mais pr\u00f3ximo da tradi\u00e7\u00e3o original. Papai, mesmo resistente a novidades, cedeu. Mas foi s\u00f3 dessa vez. Como n\u00e3o se convenceu, logo voltou ao conforto da folha de repolho.<\/p>\n<p>Mas o que tinha, e ainda tem, de t\u00e3o especial nessa comida? No nosso caso, naquela \u00e9poca, um bando de crian\u00e7as com apetite de sobra, al\u00e9m do sabor, havia a curiosidade pela terra de origem das iguarias. Os pratos que sa\u00edam com frequ\u00eancia das nossas cozinhas remetiam ao desconhecido, ao deserto, \u00e0s terras distantes, aos causos do parente que n\u00e3o conhecemos, repetidos durante as refei\u00e7\u00f5es. E isso nos encantava.<br \/>\nNaqueles tempos poucos sabiam pronunciar \u201czaatar\u201d direito, mas todo mundo reconhecia o gosto que aquele tempero deixava na alma. Se na inf\u00e2ncia o nome e a especiaria (ou um conjunto delas) eram raridade na nossa cozinha, hoje est\u00e1 incorporado \u00e0 nossa lida. Veio se juntar ao cravo, \u00e0 canela, ao zimbro. Usamos tamb\u00e9m muita hortel\u00e3 para trazer frescor e perfume aos pratos.<\/p>\n<p>A experimenta\u00e7\u00e3o desses pratos n\u00e3o se resumia \u00e0 cozinha da fam\u00edlia. Nas viagens que meus av\u00f3s e meus pais faziam a Belo Horizonte, uma visita \u00e0 Rua dos Caet\u00e9s era programa de lei. N\u00e3o fazia sentido estar na capital e n\u00e3o comer um quibe fresquinho, degustar hummus, tabule e o charuto de folha de uva de um restaurante tradicional que, por anos, sobreviveu nesse endere\u00e7o do centro da cidade.<\/p>\n<p>Anos mais tarde, o estabelecimento foi comprado por um filho de uma das fam\u00edlias tradicionais de Concei\u00e7\u00e3o do Par\u00e1. Hoje, meus av\u00f3s e meus pais teriam muito mais op\u00e7\u00f5es. Aos estabelecimentos originais se juntaram aqueles criados pelos refugiados s\u00edrios que, ap\u00f3s a guerra civil iniciada em 2011, encontraram em Beag\u00e1 um lugar seguro para recome\u00e7ar. Para essas pessoas a gastronomia se tornou forma de sustento, mas tamb\u00e9m de preservar a cultura e compartilhar hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Pra encurtar essa nossa conversa, uma constata\u00e7\u00e3o: a comida s\u00edrio-libanesa nunca foi s\u00f3 um prato. Era, e ainda \u00e9, ponte. Uma ponte entre o que veio de fora e o que virou nosso. E mesmo sem descend\u00eancia, a gente carrega essas receitas como quem carrega sobrenome: com respeito, com carinho, com fome de pertencimento.<\/p>\n<p>Ah, a prop\u00f3sito, algu\u00e9m a\u00ed sabe dizer qual \u00e9 a imagem que uso no descanso de tela do meu celular? As apostas est\u00e3o na mesa. Valendo um quibe quentinho.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1109\" aria-describedby=\"caption-attachment-1109\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1109\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-300x171.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"171\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-300x171.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-1024x585.png 1024w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1-768x439.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1.png 1050w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1109\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Gisele Bicalho \u00e9 jornalista e escritora.<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma pergunta recorrente nas nossas rodas de conversa, sempre surgindo entre uma garfada de quibe e uma colherada generosa de pasta de gr\u00e3o-de-bico. 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E a pasta de gr\u00e3o-de-bico, batida com alho, lim\u00e3o e tahine, era servida numa tigela de vidro que colecionava mais hist\u00f3ria do que receitas. Algu\u00e9m a\u00ed falou em reaproveitamento? Tinha tamb\u00e9m. A latinha de tahine virava farinheira e era presen\u00e7a constante na mesa da copa. Se a Vov\u00f3 Cocota aprendeu com o tio torto, Mam\u00e3e aprendeu com ela. E n\u00f3s, incluindo Papai, herdamos dessa nossa querida o conhecimento e o amor por essas iguarias. Papai foi um \u00f3timo aluno. Fazia charutos como um leg\u00edtimo descendente que nunca foi. Piment\u00f5es recheados e quibes tamb\u00e9m. Ningu\u00e9m o superava no sabor. O Velho Osvaldo, a exemplo da Mam\u00e3e, n\u00e3o era novidadeiro. Tinha apego ao tradicional. Nada de mudar o tempero do quibe ou o formato dos charutos. E o piment\u00e3o? Ai de mim se sugerisse coloc\u00e1-lo no forno em vez de cozido em um molho espesso e saboroso, como manda a tradi\u00e7\u00e3o. Um dos meus irm\u00e3os, o Beto, movido pela curiosidade, at\u00e9 convenceu Papai a experimentar a receita do charuto com folha de uva. Argumentou que era mais aut\u00eantico, mais pr\u00f3ximo da tradi\u00e7\u00e3o original. Papai, mesmo resistente a novidades, cedeu. Mas foi s\u00f3 dessa vez. Como n\u00e3o se convenceu, logo voltou ao conforto da folha de repolho. Mas o que tinha, e ainda tem, de t\u00e3o especial nessa comida? No nosso caso, naquela \u00e9poca, um bando de crian\u00e7as com apetite de sobra, al\u00e9m do sabor, havia a curiosidade pela terra de origem das iguarias. Os pratos que sa\u00edam com frequ\u00eancia das nossas cozinhas remetiam ao desconhecido, ao deserto, \u00e0s terras distantes, aos causos do parente que n\u00e3o conhecemos, repetidos durante as refei\u00e7\u00f5es. E isso nos encantava. Naqueles tempos poucos sabiam pronunciar \u201czaatar\u201d direito, mas todo mundo reconhecia o gosto que aquele tempero deixava na alma. 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Aos estabelecimentos originais se juntaram aqueles criados pelos refugiados s\u00edrios que, ap\u00f3s a guerra civil iniciada em 2011, encontraram em Beag\u00e1 um lugar seguro para recome\u00e7ar. Para essas pessoas a gastronomia se tornou forma de sustento, mas tamb\u00e9m de preservar a cultura e compartilhar hist\u00f3rias. Pra encurtar essa nossa conversa, uma constata\u00e7\u00e3o: a comida s\u00edrio-libanesa nunca foi s\u00f3 um prato. Era, e ainda \u00e9, ponte. Uma ponte entre o que veio de fora e o que virou nosso. E mesmo sem descend\u00eancia, a gente carrega essas receitas como quem carrega sobrenome: com respeito, com carinho, com fome de pertencimento. Ah, a prop\u00f3sito, algu\u00e9m a\u00ed sabe dizer qual \u00e9 a imagem que uso no descanso de tela do meu celular? As apostas est\u00e3o na mesa. 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