{"id":1493,"date":"2025-09-13T08:10:08","date_gmt":"2025-09-13T11:10:08","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=1493"},"modified":"2025-09-13T11:36:35","modified_gmt":"2025-09-13T14:36:35","slug":"1493","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=1493","title":{"rendered":"Os dedos das m\u00e3os n\u00e3o s\u00e3o iguais"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1494\" aria-describedby=\"caption-attachment-1494\" style=\"width: 782px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1494\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Gisele-Bicalho-300x300.png\" alt=\"\" width=\"782\" height=\"782\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Gisele-Bicalho-300x300.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Gisele-Bicalho-150x150.png 150w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Gisele-Bicalho-768x768.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Gisele-Bicalho.png 1024w\" sizes=\"(max-width: 782px) 100vw, 782px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1494\" class=\"wp-caption-text\">Celebre a diversidade familiar e a harmonia que surge do encaixe \u00fanico de cada um &#8211; Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Os dedos das m\u00e3os n\u00e3o s\u00e3o iguais. Minha av\u00f3 dizia isso; minha m\u00e3e tamb\u00e9m. Recentemente ouvi de um amigo querido. Ele se referia \u00e0 escolha da mulher que \u00e9 sua parceira de uma vida toda. Daqui a alguns dias o casal vai comemorar Bodas de Ouro. Mas a festa vai ter que ser adiada. A data coincide com outro compromisso inadi\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; A comemora\u00e7\u00e3o vai acontecer em outro dia qualquer, me disse ele.<\/p>\n<p>Calma! Essa fala dele n\u00e3o \u00e9 motivo para cancelamento. A metade da laranja s\u00f3 quis dizer que o amor n\u00e3o precisa de calend\u00e1rio. Al\u00e9m de rom\u00e2ntico, ele demonstrou ser tamb\u00e9m muito criativo. A ideia para a festan\u00e7a surgiu durante uma visita \u00e0 Igrejinha da Pampulha. Aquela curva modernista da lavra de Oscar Niemayer inspirou outra: a de recasar com a mesma mulher, com a mesma roupa, meio s\u00e9culo depois. Uma cal\u00e7a clara e uma camisa vermelha de manga curta, porque, na \u00e9poca, n\u00e3o havia dinheiro nem para um terno. E a esposa, com seu vestido azul, claro como o c\u00e9u de setembro.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, e os dedos das m\u00e3os?<\/p>\n<p>Tem a ver com o que ele me confidenciou: antes do namoro, se pudesse escolher entre as irm\u00e3s de esposa, teria casado com a mais velha. N\u00e3o por paix\u00e3o, mas por compatibilidade de g\u00eanios. A primog\u00eanita (ops!) era a\u00e9rea, leve, sem picuinhas. Uma mulher que vivia em paralelo, sem cobrar, sem corrigir, sem amolar. Um dedo que n\u00e3o cutuca, s\u00f3 acompanha.<\/p>\n<p>Para meu espanto, l\u00e1 veio ele com a novidade: essa hist\u00f3ria \u00e9 famosa na fam\u00edlia e a cada vez que \u00e9 contada a esposa apenas sorri. No m\u00e1ximo, o chama de cara de pau. Sabe que se trata de uma \u201cavalia\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, porque, no fundo, ela sabe o dedo que ele escolheu, ou que o escolheu, era aquele que, mesmo sendo diferente, encaixava. Era c\u00famplice. Era parceria. Era o dedo que, junto ao seu, formava o gesto mais bonito: o de seguir em frente.<\/p>\n<p>E a partir dessa hist\u00f3ria de fam\u00edlia a caixa da mem\u00f3ria foi destampada e ele passou a citar as primas, as irm\u00e3s, mulheres que ao longo da vida cruzaram o seu caminho. Uma, sempre rindo, sempre achando gra\u00e7a do mundo pela janela. A outra que via a vida como um espet\u00e1culo c\u00f4mico. E outras, mais sisudas, mais cheias de verdades e cobran\u00e7as. Cada uma, um dedo. Cada uma, uma fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No fim, ele percebeu que o segredo n\u00e3o era escolher o dedo mais bonito, mais forte ou mais leve. Era aceitar que, para segurar o copo da vida, todos s\u00e3o necess\u00e1rios. E que, mesmo com diferen\u00e7as, \u00e9 poss\u00edvel brindar meio s\u00e9culo de conviv\u00eancia com uma camisa vermelha, um vestido azul e uma hist\u00f3ria que n\u00e3o cabe em nenhuma data qualquer.<\/p>\n<p>Na minha fam\u00edlia grande e barulhenta essa sabedoria ancestral (ou seria verdade universal?), salta aos olhos. \u00c9 como se fosse uma colcha de retalhos feita de peda\u00e7os que, \u00e0 primeira vista, parecem n\u00e3o combinar, mas que juntos formam um tecido cheio de hist\u00f3ria, afeto e identidade. Os la\u00e7os de sangue podem unir, mas s\u00e3o as diferen\u00e7as que tornam cada conviv\u00eancia \u00fanica e, muitas vezes, divertida.<\/p>\n<p>Nessa colcha os sonhadores contrastam com os pragm\u00e1ticos. Se h\u00e1 quem viva com a cabe\u00e7a nas nuvens (ou seria nos doramas?) sonhando com viagens \u00e0 \u00c1sia, com cafeterias que pretende abrir, com aquele curso de gastronomia sempre adiado, h\u00e1 quem calcule tudo: quanto custa, quanto rende, quanto tempo leva, e vale mesmo a pena? \u00c9 aquele que sabe aonde lhe aperta o calo.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda os extrovertidos e os mais reservados. Se tem o que chega fazendo festa e colecionando amigos, h\u00e1 quem observe o cen\u00e1rio em sil\u00eancio, que fala pouco, mas que quando fala \u00e9 certeiro.<br \/>\nE se voc\u00ea quer intelectuais e mais pr\u00e1ticos, temos. Uns vivem cercados de livros, discutem filosofia no caf\u00e9 da manh\u00e3 e t\u00eam opini\u00e3o sobre tudo, at\u00e9 sobre o uso da v\u00edrgula. Esse \u00e9 aquele que desconhece a tal \u201cpedagogia do amor\u201d. Outros resolvem problemas com uma chave de fenda, sabem consertar o chuveiro, fazer um arroz soltinho e n\u00e3o t\u00eam tempo pra abstra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Tem quem abrace, chora, manda mensagem dizendo \u201cte amo\u201d sem motivo. E tem o que demonstra amor lavando a lou\u00e7a, resolvendo pepinos, estando presente sem precisar dizer nada. Um \u00e9 cora\u00e7\u00e3o na boca, o outro \u00e9 cora\u00e7\u00e3o nas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ah, n\u00e3o acabou. Nessa fam\u00edlia cabe mais. H\u00e1 uns que reinventam receitas, decoram a casa com objetos inusitados, t\u00eam ideias fora da curva. Outros mant\u00eam as tradi\u00e7\u00f5es, seguem receitas da av\u00f3 \u00e0 risca e acreditam que \u201cem time que est\u00e1 ganhando n\u00e3o se mexe\u201d.<\/p>\n<p>Por fim, tem quem \u00e9 mais impulsivo. Aquele que decide tudo no calor da emo\u00e7\u00e3o. Compra passagem de avi\u00e3o sem pensar duas vezes, \u00e9 capaz at\u00e9 de mudar de cidade por um amor. E tem quem analise, planeje, consulte tr\u00eas planilhas antes de dar um passo.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 ruim? De jeito nenhum. Essas diferen\u00e7as convivem em harmonia, o que n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o existam atritos. N\u00e3o se assuste. N\u00e3o \u00e9 nada b\u00e9lico. Estou falando do atrito que ensina, que molda, que faz crescer. Porque numa fam\u00edlia grande ningu\u00e9m \u00e9 igual, mas todos s\u00e3o parte do mesmo quebra-cabe\u00e7a. E \u00e9 justamente essa mistura que faz com que, mesmo com brigas, picuinhas e opini\u00f5es divergentes, a mesa do almo\u00e7o de domingo continue sendo o lugar mais cheio de vida. Servidos?<\/p>\n<figure id=\"attachment_1110\" aria-describedby=\"caption-attachment-1110\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-1110 size-medium\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/2-300x171.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"171\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/2-300x171.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/2-1024x585.png 1024w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/2-768x439.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/2.png 1050w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1110\" class=\"wp-caption-text\"><strong>GISELE BICALHO<\/strong> \u00e9 jornalista e escritora @gisele.bicalho22<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os dedos das m\u00e3os n\u00e3o s\u00e3o iguais. 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E a partir dessa hist\u00f3ria de fam\u00edlia a caixa da mem\u00f3ria foi destampada e ele passou a citar as primas, as irm\u00e3s, mulheres que ao longo da vida cruzaram o seu caminho. Uma, sempre rindo, sempre achando gra\u00e7a do mundo pela janela. A outra que via a vida como um espet\u00e1culo c\u00f4mico. E outras, mais sisudas, mais cheias de verdades e cobran\u00e7as. Cada uma, um dedo. Cada uma, uma fun\u00e7\u00e3o. No fim, ele percebeu que o segredo n\u00e3o era escolher o dedo mais bonito, mais forte ou mais leve. Era aceitar que, para segurar o copo da vida, todos s\u00e3o necess\u00e1rios. E que, mesmo com diferen\u00e7as, \u00e9 poss\u00edvel brindar meio s\u00e9culo de conviv\u00eancia com uma camisa vermelha, um vestido azul e uma hist\u00f3ria que n\u00e3o cabe em nenhuma data qualquer. Na minha fam\u00edlia grande e barulhenta essa sabedoria ancestral (ou seria verdade universal?), salta aos olhos. \u00c9 como se fosse uma colcha de retalhos feita de peda\u00e7os que, \u00e0 primeira vista, parecem n\u00e3o combinar, mas que juntos formam um tecido cheio de hist\u00f3ria, afeto e identidade. Os la\u00e7os de sangue podem unir, mas s\u00e3o as diferen\u00e7as que tornam cada conviv\u00eancia \u00fanica e, muitas vezes, divertida. Nessa colcha os sonhadores contrastam com os pragm\u00e1ticos. Se h\u00e1 quem viva com a cabe\u00e7a nas nuvens (ou seria nos doramas?) sonhando com viagens \u00e0 \u00c1sia, com cafeterias que pretende abrir, com aquele curso de gastronomia sempre adiado, h\u00e1 quem calcule tudo: quanto custa, quanto rende, quanto tempo leva, e vale mesmo a pena? \u00c9 aquele que sabe aonde lhe aperta o calo. H\u00e1 ainda os extrovertidos e os mais reservados. Se tem o que chega fazendo festa e colecionando amigos, h\u00e1 quem observe o cen\u00e1rio em sil\u00eancio, que fala pouco, mas que quando fala \u00e9 certeiro. E se voc\u00ea quer intelectuais e mais pr\u00e1ticos, temos. Uns vivem cercados de livros, discutem filosofia no caf\u00e9 da manh\u00e3 e t\u00eam opini\u00e3o sobre tudo, at\u00e9 sobre o uso da v\u00edrgula. Esse \u00e9 aquele que desconhece a tal \u201cpedagogia do amor\u201d. Outros resolvem problemas com uma chave de fenda, sabem consertar o chuveiro, fazer um arroz soltinho e n\u00e3o t\u00eam tempo pra abstra\u00e7\u00f5es. Tem quem abrace, chora, manda mensagem dizendo \u201cte amo\u201d sem motivo. E tem o que demonstra amor lavando a lou\u00e7a, resolvendo pepinos, estando presente sem precisar dizer nada. Um \u00e9 cora\u00e7\u00e3o na boca, o outro \u00e9 cora\u00e7\u00e3o nas a\u00e7\u00f5es. Ah, n\u00e3o acabou. Nessa fam\u00edlia cabe mais. H\u00e1 uns que reinventam receitas, decoram a casa com objetos inusitados, t\u00eam ideias fora da curva. Outros mant\u00eam as tradi\u00e7\u00f5es, seguem receitas da av\u00f3 \u00e0 risca e acreditam que \u201cem time que est\u00e1 ganhando n\u00e3o se mexe\u201d. Por fim, tem quem \u00e9 mais impulsivo. Aquele que decide tudo no calor da emo\u00e7\u00e3o. Compra passagem de avi\u00e3o sem pensar duas vezes, \u00e9 capaz at\u00e9 de mudar de cidade por um amor. E tem quem analise, planeje, consulte tr\u00eas planilhas antes de dar um passo. Isso \u00e9 ruim? De jeito nenhum. Essas diferen\u00e7as convivem em harmonia, o que n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o existam atritos. N\u00e3o se assuste. N\u00e3o \u00e9 nada b\u00e9lico. Estou falando do atrito que ensina, que molda, que faz crescer. Porque numa fam\u00edlia grande ningu\u00e9m \u00e9 igual, mas todos s\u00e3o parte do mesmo quebra-cabe\u00e7a. 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