{"id":1215,"date":"2025-08-22T17:45:59","date_gmt":"2025-08-22T20:45:59","guid":{"rendered":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=1215"},"modified":"2025-08-29T20:03:07","modified_gmt":"2025-08-29T23:03:07","slug":"caopanheiros-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/?p=1215","title":{"rendered":"\u201cC\u00e3opanheiros\u201d da vida"},"content":{"rendered":"<div class=\"td-post-featured-image\"><\/div>\n<figure id=\"attachment_1216\" aria-describedby=\"caption-attachment-1216\" style=\"width: 557px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1216\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Nick-Coluna-GIsele-Bicalho-300x248.jpeg\" alt=\"\" width=\"557\" height=\"461\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Nick-Coluna-GIsele-Bicalho-300x248.jpeg 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Nick-Coluna-GIsele-Bicalho-768x635.jpeg 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Nick-Coluna-GIsele-Bicalho.jpeg 828w\" sizes=\"(max-width: 557px) 100vw, 557px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1216\" class=\"wp-caption-text\">Nick, um dos v\u00e1rios cachorros que a fam\u00edlia Bicalho acolheu e amou ao longo dos anos &#8211; Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>Nossa casa sempre foi ref\u00fagio de muitos cachorros, todos barulhentos, amorosos e fi\u00e9is. Mam\u00e3e adorava. Acredito que esse amor tenha vindo de ber\u00e7o. Foi herdado do pai. Vov\u00f4 Nen\u00ea era um cachorreiro convicto. N\u00e3o por acaso, a maioria dos \u201cc\u00e3opanheiros\u201d de quatro patas era de perdigueiros. Quando a ca\u00e7a ainda era uma pr\u00e1tica tolerada, esse era o esporte preferido dele. Ainda hoje, se fecho os olhos, consigo ouvir os latidos que rasgavam a madrugada, anunciando o fim da ca\u00e7ada na Chapada dos Veadeiros. S\u00f3 depois dos latidos, a gente ouvia o barulho do caminh\u00e3o e, por fim, as vozes dos ca\u00e7adores que retornavam cheios de hist\u00f3ria para contar.<\/p>\n<p>Vov\u00f3 tamb\u00e9m gostava de cachorros. Combate, um c\u00e3o enorme e indolente, mas nem por isso menos amoroso, era o seu fiel escudeiro. Sempre por perto, aguardava, com aquela bocarra aberta, as migalhas que ela deixava cair displicentemente ao lado da mesa de jantar. Hoje, d\u00e9cadas depois, a neta Jacq repete o gesto. \u201cQuem sai aos seus n\u00e3o degenera\u201d, diria Vov\u00f3 se visse a cena, como quem reconhece no cotidiano a heran\u00e7a silenciosa dos afetos.<\/p>\n<p>Se o Combate era grande, indolente e desengon\u00e7ado, Rebelde se destacava pela eleg\u00e2ncia e garbo. Desfilava sua \u201ccaramelisse\u201d pela casa, pelo quintal e com frequ\u00eancia avan\u00e7ava para al\u00e9m da ponte sobre o C\u00f3rrego do Macuco. Mas por que o nome Rebelde? Uai, deixo que voc\u00ea tire as suas pr\u00f3prias conclus\u00f5es. Se tinha um cachorro com personalidade forte era ele. Fazia e acontecia de acordo com as suas pr\u00f3prias normas. Freio era algo que ele desconhecia.<\/p>\n<p>Na casa dos meus pais tamb\u00e9m viveram c\u00e3es lend\u00e1rios. O primeiro foi Lusbel. Mam\u00e3e, al\u00e9m do enxoval, levou o seu cachorro e muita expectativa. Lusbel deu sorte ao casal. Papai e Mam\u00e3e viveram juntos por quase seis d\u00e9cadas. Somos frutos desse amor sem medida.<\/p>\n<p>Depois do Lusbel, vieram Tot\u00f3, Pupi, Maraj\u00e1, Lord, Raf, Curisco, Barbudo e outros queridos. A fama deles corria solta. Maraj\u00e1, um vira-lata da melhor estirpe, foi um dos mais famosos. Sempre que Papai ligava a caminhonete n\u00e3o dava outra. L\u00e1 ia ele correndo atr\u00e1s, at\u00e9 que Papai aumentava a velocidade e se distanciava. A exce\u00e7\u00e3o ficou para o dia em que o Velho Osvaldo parou o carro e ofereceu carona a um conhecido. N\u00e3o deu outro. Maraj\u00e1, espertamente, aproveitou a oportunidade e se aboletou. N\u00e3o houve quem o tirasse dali. O jeito foi lev\u00e1-lo junto. Chegando em Santana da Prata, assim que Papai e o amigo desceram, Maraj\u00e1 foi atr\u00e1s. E para surpresa de todos a garotada come\u00e7ou a gritar:<\/p>\n<p>\u2013 Olha, gente! Olha gente, o Maraj\u00e1 t\u00e1 aqui!<\/p>\n<p>O amigo do papai n\u00e3o se conteve e comentou com um sorriso de orelha a orelha:<\/p>\n<p>\u2013 Como \u00e9 que pode? No munic\u00edpio, o cachorro \u00e9 mais famoso que o senhor.<\/p>\n<p>Maraj\u00e1 foi outro famosinho. Em Concei\u00e7\u00e3o do Par\u00e1, n\u00e3o havia quem n\u00e3o o conhecesse. Simp\u00e1tico e muito brincalh\u00e3o, fazia a alegria de crian\u00e7as e adultos. Era muito fuj\u00e3o tamb\u00e9m. Naquela \u00e9poca, sem internet e, portanto, sem grupos de WhatsApp, toda vez que fugia era um Deus nos acuda. Para encontr\u00e1-lo era preciso montar uma for\u00e7a-tarefa e caminhar noite adentro pela cidade at\u00e9 que ele, todo serelepe, surgisse em alguma esquina. Namorando, obviamente.<\/p>\n<p>Quem herdou o gosto pela fama foi a Meg, uma cachorra maravilhosa que vive na casa que foi dos meus pais. Para se impor, disputa espa\u00e7o com o Nick e com o Rock. Ao contr\u00e1rio da Meg, o Rock mete o terror e se recusa a sair da inf\u00e2ncia. J\u00e1 na p\u00f3s-adolesc\u00eancia, continua a destruir m\u00f3veis, almofadas e sand\u00e1lias como se fosse um filhote rebelde.\u00a0 Nick, cachorro da cidade, como todo visitante que se preze, tenta manter a pose. Mas, admito, em se tratando do Rock, nesse embate o Nick raramente ganha. Essa \u00e9 uma luta ingl\u00f3ria.<\/p>\n<p>A exemplo de todos os outros cachorros com quem j\u00e1 dividimos a exist\u00eancia, Meg foi adotada. O mesmo se deu com o Rock e com o Curisco.\u00a0Essa hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 de hoje. O primeiro cachorro da Gyslaine foi o Tot\u00f3, adotado depois que ela o encontrou abandonado na esta\u00e7\u00e3o. Isso foi l\u00e1aaa no tempo da delicadeza. Anos depois, a vida terrena de Tot\u00f3 chegou ao fim, os ferrovi\u00e1rios se foram, e a estrada de ferro tamb\u00e9m. Dessa hist\u00f3ria, s\u00f3 herdamos a mem\u00f3ria de um cachorrinho encantador, o quepe e a lanterna do Vov\u00f4, al\u00e9m de uma cadeira de chefe de trem comprada pela Lulu num leil\u00e3o da RFFSA.<\/p>\n<p>Tem tamb\u00e9m o Urso, na casa da Gyslaine e do Jo\u00e3o. O grandalh\u00e3o espalha tanto pelo quanto amor pelos quatro cantos da resid\u00eancia. Os sobrinhos tamb\u00e9m s\u00e3o cachorreiros. Nina \u00e9 a melhor amiga da Gabi e da Rafa. Tem tamb\u00e9m a Mel e a Diana. As duas, m\u00e3e e filha, dividem os melhores momentos do dia com o Miguel. H\u00e1 tamb\u00e9m uma pequena matilha que faz a alegria da Maria Fernanda.<\/p>\n<p>Na nossa morada de Beag\u00e1, se antes t\u00ednhamos a companhia da Shakira, uma bass\u00ea manhosa e lindinha, hoje quem vive conosco \u00e9 o Nick. Barulhento, esperto e cheio de personalidade. \u00c9 apaixonado pela Jacq, mas aceita amizade quando sente o cheiro de um petisco dos bons. Aprecia queijo, carne e outras iguarias que confirmam: o cachorro \u00e9 mesmo o espelho dos donos.<\/p>\n<p>Em Bras\u00edlia, a conviv\u00eancia com os c\u00e3es guarda hist\u00f3rias curiosas. A do Cam\u00f5es \u00e9 uma delas. Esse encontro de almas se deu em uma feira de ado\u00e7\u00e3o. Foi amor \u00e0 primeira lambida. Ali mesmo decidiram qual seria o nome do novo membro. S\u00f3 na conviv\u00eancia di\u00e1ria descobriram que o c\u00e3ozinho era cego de um olho. Como o autor de \u201cOs Luz\u00edadas\u201d. Cam\u00f5es viveu cercado de amor at\u00e9 que se foi. Hoje, tamb\u00e9m adotado, quem faz a alegria das nossas florzinhas do Cerrado \u00e9 o Napole\u00e3o. E, a exemplo do general franc\u00eas, est\u00e1 sempre de guarda e sempre que pode d\u00e1 uma fugidinha pelo condom\u00ednio. Tentativa de expandir os seus dom\u00ednios. Se \u00e9 que voc\u00ea me entende.<\/p>\n<p>Cada um, com seus jeitos, h\u00e1bitos e hist\u00f3rias, deixou marcas que n\u00e3o se apagam. Entre \u201cc\u00e3ominhadas\u201d, esta\u00e7\u00f5es, cidades e afetos, seguimos colecionando latidos, lambidas e lembran\u00e7as. No fim das contas, s\u00e3o eles que nos ensinam o que \u00e9 amor sem medida. Ali\u00e1s, recentemente, a \u201cNamaria Braga\u201d deixou um recado para quem, como eu, diz: \u201cN\u00e3o quero ter outro cachorro porque o meu morreu. N\u00e3o quero sofrer de novo.\u201d Segundo ela, \u201cn\u00e3o querer ter outro \u00e9 fugir do amor.\u201d E est\u00e1 certa. Amor nunca \u00e9 demais. \u00c9 sempre bem-vindo.<\/p>\n<div class=\"newsx-post-content\">\n<p><strong><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-1110 alignleft\" src=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/2-300x171.png\" sizes=\"(max-width: 260px) 100vw, 260px\" srcset=\"https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/2-300x171.png 300w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/2-1024x585.png 1024w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/2-768x439.png 768w, https:\/\/portalgrandenorte.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/2.png 1050w\" alt=\"\" width=\"260\" height=\"148\" \/><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>GISELE BICALHO \u00e9 jornalista e escritora<\/strong><br \/>\n@gisele.bicalho22<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nossa casa sempre foi ref\u00fagio de muitos cachorros, todos barulhentos, amorosos e fi\u00e9is. Mam\u00e3e adorava. 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Hoje, d\u00e9cadas depois, a neta Jacq repete o gesto. \u201cQuem sai aos seus n\u00e3o degenera\u201d, diria Vov\u00f3 se visse a cena, como quem reconhece no cotidiano a heran\u00e7a silenciosa dos afetos. Se o Combate era grande, indolente e desengon\u00e7ado, Rebelde se destacava pela eleg\u00e2ncia e garbo. Desfilava sua \u201ccaramelisse\u201d pela casa, pelo quintal e com frequ\u00eancia avan\u00e7ava para al\u00e9m da ponte sobre o C\u00f3rrego do Macuco. Mas por que o nome Rebelde? Uai, deixo que voc\u00ea tire as suas pr\u00f3prias conclus\u00f5es. Se tinha um cachorro com personalidade forte era ele. Fazia e acontecia de acordo com as suas pr\u00f3prias normas. Freio era algo que ele desconhecia. Na casa dos meus pais tamb\u00e9m viveram c\u00e3es lend\u00e1rios. O primeiro foi Lusbel. Mam\u00e3e, al\u00e9m do enxoval, levou o seu cachorro e muita expectativa. Lusbel deu sorte ao casal. Papai e Mam\u00e3e viveram juntos por quase seis d\u00e9cadas. Somos frutos desse amor sem medida. Depois do Lusbel, vieram Tot\u00f3, Pupi, Maraj\u00e1, Lord, Raf, Curisco, Barbudo e outros queridos. A fama deles corria solta. Maraj\u00e1, um vira-lata da melhor estirpe, foi um dos mais famosos. Sempre que Papai ligava a caminhonete n\u00e3o dava outra. L\u00e1 ia ele correndo atr\u00e1s, at\u00e9 que Papai aumentava a velocidade e se distanciava. A exce\u00e7\u00e3o ficou para o dia em que o Velho Osvaldo parou o carro e ofereceu carona a um conhecido. N\u00e3o deu outro. Maraj\u00e1, espertamente, aproveitou a oportunidade e se aboletou. N\u00e3o houve quem o tirasse dali. O jeito foi lev\u00e1-lo junto. Chegando em Santana da Prata, assim que Papai e o amigo desceram, Maraj\u00e1 foi atr\u00e1s. E para surpresa de todos a garotada come\u00e7ou a gritar: \u2013 Olha, gente! Olha gente, o Maraj\u00e1 t\u00e1 aqui! O amigo do papai n\u00e3o se conteve e comentou com um sorriso de orelha a orelha: \u2013 Como \u00e9 que pode? No munic\u00edpio, o cachorro \u00e9 mais famoso que o senhor. Maraj\u00e1 foi outro famosinho. Em Concei\u00e7\u00e3o do Par\u00e1, n\u00e3o havia quem n\u00e3o o conhecesse. Simp\u00e1tico e muito brincalh\u00e3o, fazia a alegria de crian\u00e7as e adultos. Era muito fuj\u00e3o tamb\u00e9m. Naquela \u00e9poca, sem internet e, portanto, sem grupos de WhatsApp, toda vez que fugia era um Deus nos acuda. Para encontr\u00e1-lo era preciso montar uma for\u00e7a-tarefa e caminhar noite adentro pela cidade at\u00e9 que ele, todo serelepe, surgisse em alguma esquina. Namorando, obviamente. Quem herdou o gosto pela fama foi a Meg, uma cachorra maravilhosa que vive na casa que foi dos meus pais. Para se impor, disputa espa\u00e7o com o Nick e com o Rock. Ao contr\u00e1rio da Meg, o Rock mete o terror e se recusa a sair da inf\u00e2ncia. 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Dessa hist\u00f3ria, s\u00f3 herdamos a mem\u00f3ria de um cachorrinho encantador, o quepe e a lanterna do Vov\u00f4, al\u00e9m de uma cadeira de chefe de trem comprada pela Lulu num leil\u00e3o da RFFSA. Tem tamb\u00e9m o Urso, na casa da Gyslaine e do Jo\u00e3o. O grandalh\u00e3o espalha tanto pelo quanto amor pelos quatro cantos da resid\u00eancia. Os sobrinhos tamb\u00e9m s\u00e3o cachorreiros. Nina \u00e9 a melhor amiga da Gabi e da Rafa. Tem tamb\u00e9m a Mel e a Diana. As duas, m\u00e3e e filha, dividem os melhores momentos do dia com o Miguel. H\u00e1 tamb\u00e9m uma pequena matilha que faz a alegria da Maria Fernanda. Na nossa morada de Beag\u00e1, se antes t\u00ednhamos a companhia da Shakira, uma bass\u00ea manhosa e lindinha, hoje quem vive conosco \u00e9 o Nick. Barulhento, esperto e cheio de personalidade. \u00c9 apaixonado pela Jacq, mas aceita amizade quando sente o cheiro de um petisco dos bons. Aprecia queijo, carne e outras iguarias que confirmam: o cachorro \u00e9 mesmo o espelho dos donos. Em Bras\u00edlia, a conviv\u00eancia com os c\u00e3es guarda hist\u00f3rias curiosas. A do Cam\u00f5es \u00e9 uma delas. Esse encontro de almas se deu em uma feira de ado\u00e7\u00e3o. Foi amor \u00e0 primeira lambida. Ali mesmo decidiram qual seria o nome do novo membro. S\u00f3 na conviv\u00eancia di\u00e1ria descobriram que o c\u00e3ozinho era cego de um olho. Como o autor de \u201cOs Luz\u00edadas\u201d. Cam\u00f5es viveu cercado de amor at\u00e9 que se foi. Hoje, tamb\u00e9m adotado, quem faz a alegria das nossas florzinhas do Cerrado \u00e9 o Napole\u00e3o. E, a exemplo do general franc\u00eas, est\u00e1 sempre de guarda e sempre que pode d\u00e1 uma fugidinha pelo condom\u00ednio. Tentativa de expandir os seus dom\u00ednios. Se \u00e9 que voc\u00ea me entende. 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